Francis Alÿs

O belga Francis Alÿs é responsável por um dos grandes momentos de uma Bienal que tem muito mais altos do que baixos. Tornado, vídeo que está no fim do terceiro andar do prédio da Fundação, é talvez a metáfora mais poderosa para o verso de Jorge de Lima que dá título à exposição pensada por Moacir do Anjos e Agnaldo Farias – “Há sempre um copo de mar para um homem navegar” – e todas as suas possíveis leituras políticas.

Neste trabalho registrado ao longo dos últimos 10 anos, vemos Alÿs perseguindo tornados no sul da Cidade do México, onde vive. Ouvimos sua respiração enquanto ele corre em direção à tempestade, vemos a câmera perder o prumo quando ele entra no meio do redemoinho, percebemos a lente ser arranhada pelas pedras e a poeira que envolve e sacode tudo.

“Mão no leme, pé no furacão”, o artista insiste e enfrenta a turbulência. É aí que o tornado parece se acalmar, como um animal feroz que se acostuma com a presença de determinados humanos. Curiosamente sereno, quase espiritual, o filme contou em seu processo de elaboração com influências de Guimarães Rosa, Walter Benjamin e Samuel Beckett. Quem conta isso é o próprio artista, no livro Numa dada situação (Cosac Naify), lançado ontem aqui em São Paulo.

Registro de toda a série de filmes sobre tornados, o livro é bilingue (inglês/português) e traz textos assinados pelos curadores mexicanos Cuauhtémoc Medina e Alfonso Reyes e do matemático brasileiro Ton Marar.

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Leia abaixo a apresentação escrita pelo artista para a edição.

“Li em algum lugar, não me lembro onde, que os conceitos são atemporais. Abertos; portanto duradouros, contínuos. Que não podem ser ditos, que são apenas encenáveis.

E penso: como se narra um conceito que só pode ser encenado no tempo? Ao filmar Tornado, notei que a atuação contínua da câmera anula qualquer sequência possível dos eventos.

E me pergunto: como montar as quinze ou mais horas de material gravado? Por falta de uma narrativa linear, uma série de palavras foi afixada na parede do estúdio, palavras que me ocorreram durante a filmagem.

Elas foram incluídas inicialmente no vídeo, mas o procedimento se mostrou redundante e desisti. De volta para a parede do estúdio: se o encontro das palavras negras com a superfície branca às vezes criava axiomas improváveis, a expansão delas em todas as direções possíveis também construiria diagramas.

As palavras foram agrupadas, formaram linhas e as linhas desenharam formas. Os espaços entre as linhas foram coloridos e formas começaram a aparecer. Ou será que alguém poderia começar a imaginar formas? Planas ou sólidas, geométricas ou líricas, abstratas ou figurativas, organizadas ou caóticas: tanto faz. Figuras autônomas; imagens. Frames coloridos também foram incluídos entre o material gravado. Como eram estáticos, marcavam pausas. Um espaço para respirar. As pausas interrompiam o continuum da atuação da câmera e criavam um ritmo. Em combinação com uma distribuição aleatória dos quatro movimentos da ação – esperar os tornados, persegui-los, alcançá-los ou perdê-los – surgiu então uma espécie de linha temporal: o processo de edição estava encaminhado”.

Francis Alÿs
Cidade do México, agosto de 2010

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