O leilão de Rosângela

Rosângela Rennó apresenta dois grandes trabalhos na Bienal de São Paulo: O Que é Bom para o Lixo é Bom para a Poesia, no terceiro andar, e Menos-valia, no térreo do prédio. O primeiro é um grande mural que pertence à série Matéria de Poesia, inspirada na obra do poeta Manoel de Barros. Apresentado na Galeria Vermelho no primeiro semestre deste ano, o paredão de imagens é feito de fotos criadas a partir de slides sobrepostos.  Paisagens de diversos lugares, descartadas por seus verdadeiros fotógrafos, ganham pelas mãos de Rosângela uma feição de caleidoscópio pictórico, com três áreas cromáticas bem claras: azul, amarelo e magenta, todas misturadas ao preto – as quatro cores básicas de impressão gráfica.  A tonalidade é reforçada pelo envelhecimento dos slides, destacando-o como um suporte já sem uso – lixo que ainda é poesia, como sugere o título do trabalho.

Em Menos-valia, a artista expõe objetos ligados direta ou indiretamente à fotografia – álbuns, câmeras, luminárias, molduras – garimpados em feiras de antiguidades do mundo inteiro.  A área onde está o trabalho funciona como uma sala de visitas aos lotes de um leilão, que de fato vai acontecer, no fim da Bienal, na primeira semana de dezembro.

Irônico e muito lírico, Menos-valia radicaliza as relações do trabalho de Rosângela com a transitoriedade e os valores dos objetos e com a  memória. A operação que ela sempre realizou em sua carreira – dar status de arte a imagens alheias, presentes em arquivos e inventários comuns – ganha aqui um corpo mais sólido, literal e simbolicamente. No pregão, objetos descartados vão poder adquirir mais-valia a partir da ação do público, que vai revesti-los novamente de valor de acordo com o grau de interesse (e disputa) que cada peça for capaz de causar.

São os próprios valores do mercado que estarão em xeque no bater do martelo, em um circuito sutil e inteligentíssimo criado pela artista mineira.

4 thoughts on “O leilão de Rosângela

  1. Estou gostando muito dessa cobertura 29a Bienal, Daniela!
    trabalho nesta edição e é importante ler críticas sobre obras/artistas que estudei.
    Aliás, muito feliz o post sobre o protesto a respeito dos urubus. Concordo!

    continue postando, estou acompanhando.
    Abraços!!
    Bárbara.

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