O caminho do corpo

"A origem do Terceiro Mundo": caminho real e simbólico para o corpo da mostra

 

 

Este é um texto que ficou grandinho, porque é a adaptação de um trecho da crítica da  Bienal de São Paulo que vou publicar no próximo número da revista Arte & Ensaios, do Programa de Pós-Graduação da Escola de Belas Artes da UFRJ. Tirei as notas e gordurinhas próprias do outro formato. Mas este também pode ser um roteiro para um ponto importante desta edição da mostra. Espero que cheguem até o fim🙂

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Um dos momentos muito felizes da curadoria nesta Bienal de São Paulo está na passagem entre os dois “lados” do terceiro andar do prédio. No projeto arquitetônico labiríntico e fragmentado proposto por Marta Bogéa, outro ponto alto desta edição, há um falso fim de espaço expositivo  na altura do terreiro A pele do invisível, criado pelo esloveno Tobias Putrih, com a instalação A origem do terceiro mundo, de Henrique Oliveira, funcionando como uma das passagens possíveis para o espaço onde estão as obras de Leonilson e Efrain Almeida. Migramos assim do corpo da cidade e da arte para o corpo propriamente dito, com os tecidos bordados por Leonilson e obra de Oliveira funcionando como encruzilhadas entre estas duas vertentes.

 

 

Batizado de Alvorada, o terreiro de Tobias Putrih  faz referência à impressionante fachada criada por Oscar Niemeyer para o Palácio da Alvorada, em Brasília, com uma única coluna, estelar, repetida em série. Este é um espaço dedicado à exibição de vídeos e vai funcionar ininterruptamente na Bienal. O interessante é que o artista esloveno corrompe a visão de Niemeyer com um corpo menos harmônico e menos otimista que nossa arquitetura moderna. Por trás do arremedo de palácio há um revestimento de papelão e fita adesiva, revelando cicatrizes e remendos da cidade.  O nome do prédio, Alvorada, também é digno de nota: um novo amanhecer é também uma esperança e as marcas de fita crepe por trás da beleza de Niemeyer mostram que um dia não começa sem a herança da noite passada.

Metáfora para a urbe, tão presente nesta Bienal, mas também alusão a outros corpos – a arte, a pele – o terreiro tem uma vizinhança que só lhe acrescenta sentidos.  De dentro da estrutura de Putrih se enxerga Faça você mesmo: território liberdade e O país inventado (Dias-de-Deus-dará), dois clássicos de Antonio Dias.

Os dois clássicos de Antonio Dias: território da invenção

A bandeira vermelha do segundo trabalho é feita de um retângulo com o canto superior direito ausente, recortado – marca recorrente na obra do artista – , sinal de uma falta que aponta para a impossibilidade de uma totalidade, de um absoluto, levando territórios e definições para o eixo das mutações constantes. Fincar uma bandeira incompleta relê de muitas maneiras o gesto de demarcação de fronteiras, de apropriação de terreno, de conquista de Oeste. Cigano na vida e na obra, Dias também cria um mapa virtual, mutável, em Território liberdade – há um espaço simbólico a ser explorado.

 

Na sala de Senise, arte erguida a partir de seus próprios restos

 

Se por um lado saímos do terreiro enxergando Antonio Dias, por outro se vê Alvorada de dentro da sala onde está O Sol me ensinou que a história não é tudo, de Daniel Senise.  Desenvolvimento e radicalização de Eva, trabalho apresentado no fim do ano passado no Centro Cultural São Paulo (relembre clicando aqui, aqui e aqui), a instalação reveste as paredes do espaço com a “outra pintura” que caracteriza o trabalho do artista carioca. Placas feitas a partir do processamento de restos de convites, folders e catálogos de exposições constroem e pintam o espaço de arte com os vestígios e os resíduos da própria arte.

Outra aproximação curiosa é a de Skira, trabalho de Senise que fica do lado de fora da sala do artista, com a janela do prédio da Fundação Bienal, outra obra de Niemeyer. Feito de páginas de livros de arte marcadas pela falta de uma imagem, a pintura sem pincel e sem tinta constrói com colagem de papéis de tons diferentes um grande escaninho ou uma típica fachada modernista. Se por uma lado se comunica com Alvorada pela alusão direta à arquitetura,  por outro o trabalho de Senise cria um diálogo com as faltas do território de Antonio Dias.

Como Putrih, Senise está falando de memória e de deriva. Em última instância, ambos discutem também a possibilidade de sobrevivência da arte em um mundo repleto de imagens e transbordando excessos. Esta ideia é ampliada pelo fato de A pele do invisível ser o terreiro da reprodução de outros vídeos, isto é, ser o palco contínuo para o movimento e a efemeridade das imagens. Há uma costura sutil e impressionante feita pelos curadores Agnaldo Farias e Moacir dos Anjos na construção deste outro mapa que arranja as proximidades entre trabalhos em uma Bienal.

A fachada modernista de Senise, feita em papel, e a janela real, de Niemeyer

 

 

A origem do mundo, de Gustave Courbet

A passagem criada pelo trabalho de Henrique Oliveira é um túnel real e simbólico para os pensamentos da curadoria. Dá corpo, literalmente, a este segmento da exposição. A forma da saída da instalação do artista e o título do trabalho nos levam diretamente para a pintura A origem do mundo, de Gustave Courbet. É interessante pensar numa reinvenção desta vulva clássica, que na obra de agora é revestida com tapumes precários usados em construção. Não estamos falando do mundo, aquele criado biblicamente por Adão e Eva, mas ironicamente do Terceiro Mundo.  O buraco é mais embaixo, com perdão do trocadilho.

De qualquer maneira, há no trabalho do artista paulista uma fusão do corpo orgânico, com seus fluidos, sua pele e sua imperfeição, com as veias e artérias urbanas. E ainda com um outro corpo, quase invisível, que permeia e dá feições aos extratos sociais. É como se Oliveira tornasse os indicadores demográficos mais tangíveis, dando-lhes carne e vísceras. Parindo-os, enfim.

A fenda de Henrique Oliveira: parindo sentidos

 

A fenda de A origem do Terceiro Mundo deságua nos bordados e na pintura de Leonilson. Cor, corpo e diário íntimo reunidos em um só suporte, a obra do artista se relaciona diretamente com o “outro lado” do túnel, não só por questões estéticas, mas também por outras, que tampouco são irrelevantes: as do afeto. Leonilson é contemporâneo de Senise e ambos são expoentes de uma geração que, mais do que retomar a pintura, deu a ela novos alicerces. Os dois foram grandes amigos.

Para o meu vizinho de sonhos (1991) ,  um dos trabalhos de Leonilson incluídos na exposição, é quase uma ponte para a bandeira faltosa de Antonio Dias. Morando fora do Brasil desde os anos 1960, Dias recebeu Leonilson em Milão, quando a carreira do pintor começava a decolar. Também é um grande colecionador do artista, que morreu vítima da Aids em 1993.

 

 

O autorretrato de Efrain e a pintura de Leonilson: homens e artistas

As marcas do corpo, presentes na vida e na obra de Leonilson, também estão nos autorretratos escultóricos de Efrain Almeida. Talhadas em madeira, estas peças têm como título o nome do artista e mostram seu corpo tatuado por motivos da cultura popular brasileira. O que se apresenta aqui, mais uma vez, é um território nublado e intangível entre as figuras do artista e do homem.  Do palácio mendigo de Tobias Putrih às miniaturas que  Efrain cria de si mesmo, o que se vê sempre é uma membrana translúcida e frágil. Ela deveria delimitar arte e vida, mas o que estas obras afirmam é que, quanto mais se tenta separar, mais estas fronteiras se amalgamam.

No lugar do torniquete, o que há é a sangria, o fluxo, a enchente.

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As fotos do terreiro de Putrih e da sala/instalação de Senise são de Vanda Klabin e Nara Reis, respectivamente.  A elas o meu muito obrigada! As outras foram tiradas pela equipe do blog, ou seja, eu mesma…

6 thoughts on “O caminho do corpo

  1. Monica Tachotte

    O post ao qual vc estaria se referindo : ”…que é da aproximação de artistas diferentes, datas diferentes, localidades diferentes,…” não seria o post Pontos Cardeais, de 22/09/10?

    E aí, o que vc achou do trabalho de Artur Barrio na Bienal?Algum comentário?

    Abs

    Affonso Leitão/RJ

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  2. Daniela Name

    Bom ter notícias do Franco Terranova através do seu blog.Guardo viva na memória a lembrança das exposições às quais fui na Petite Galerie.Assim como guardo com muito carinho na minha biblioteca o catálogo:Petite Galerie:1954/1988-Uma Visão da Arte Brasileira.Que narra a belíssima trajetória da galeria.Saudades da Petite.Que só era Petite no nome.

    Bom tbém ter achado o seu blog.Sinto falta de matérias sobre arte de cunho mais crítico/pessoal nos jornais.O blog supre este espaço,hoje e a meu ver, de uma certa forma neglicenciado pela grande imprensa.

    Melhor ainda estar podendo acompanhar a Bienal através dos seus artigos.Claros e concisos.Não é a toa que tenho lido, a exemplo do comentário do Terranova, outros comentários similares a respeito aqui no blog.

    Abs

    Affonso Leitão/RJ

    PS:Jean-Michel Basquiat:A criança radiante, é um ótimo documentário do Festival de Cinema do Rio.Ainda vai ter uma última exibição dia 30/09, amanhã, no cine Glória , às 20hs.O código do filme é GL029.
    Vou tentar ir ver Louise Bourgeois: a aranha, a amante e a tangerina.Que vc referencia no post seguinte a esse.Está na minha lista.Vamos ver se vai dar para eu ir.

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  3. Dani gostei muito da relação que você fez em seu texto da obra de Henrique Oliveira com a de Courbet! Tenho que confessar que não foi umas das obras que mais me chamou atenção….
    Mas um dos pontos que gostaria de destacar da Bienal é as relações entre as obras, achei lindo quando eu sai do Artur Bairro no finalzinho do terceiro andar e encontrei o Leonilson, nossa, bom demais!!
    E depois da minha caminha pela Bienal, fiquei pensando o quanto o evento é importante para o país e lembrando de uma trechinho que eu lí no seu blog (não lembro mais qual é o texto!!!) que é da aproximação de artistas diferentes, datas diferentes, localidades diferentes, mas há dialogo entre os trabalhos e que realmente a equipe de curadores soube manejar muito bem a organização das obras pelo espaço.
    Bom, vou parar por aqui!!!

    Abraços,
    Monica Tachotte

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    1. querida daniela
      não foi ainda ver a bienal irei no proximo mes de outubro mas já o resumo
      do trecho de seu texto que vai sair em arte e ensaios me está dando uma idéia bem clara de pelomenos parte desta bienal como sempre seu talento em saber ver as coisas e dizer algo significante e intelligivel sobre estas coisas é indiscutível e agradeço você por isto
      receba meu abraço afetuoso
      franco

      Gostar

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