Laerte bate-e-volta

Revólveres e pistolas de cerâmica em "Arma branca"

Fiz esta entrevista com Laerte Ramos há um mês na preparação de Arma branca, exposição que estreou em São Paulo, na galeria Emma Thomas, e no dia 5, terça-feira, chega à Amarelonegro, em Ipanema.  Fiz o texto para a mostra, que você lê aqui. Esperamos todos lá!

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Laerte>>>>Daniela<<<<Laerte

Com Arma branca, você volta aos temas bélicos, que têm estado
presentes em sua obra desde o início. Mas o trabalho com os revólveres
me parece ser diferente daqueles em que você falava de guerra quase
como um brinquedo. Há uma dureza maior, no bom sentido. Concorda?

Em praticamente todos os trabalhos que foram aparecendo na pesquisa ao longo de minha carreira apresentam sim este ar/ambiente bélico. Nas xilogravuras eram paisagens, carros-forte, tanques, todos esculpidos chapados na madeira e impressos no papel. O resultado era algo próximo a logotipos, ícones e todos de uma maneira centralizada no papel como catalogação, livro. Ja com a pesquisa tridimensional, as esculturas da série Acesso Negado, por exemplo, eram desenvolvidas em argila, e por mais que apresentassem pontas, áreas com ângulos, reparando de perto há uma “irregularidade” de trabalho manual. Como o procedimento foi todo feito a mão usando uma massa de argila mole, mesmo queimando o trabalho e transformando-o em pedra de cerâmica ele ainda mantém esta aparência “mole”de certa maneira. O que acontece com a série Arma Branca é que eu pesquisei e coletei mais de cem modelos de armas de brinquedo – com características de armas de brinquedo e não armas que almejassem ser similar a uma arma de fogo de verdade – e as armas geralmente são elaboradas de material duro como plásticos e acrílicos. Ao tirar o molde e interferir em cada peça a fim de transformá-las em cerâmica o aspecto “duro” fica de mais evidente.

Apesar de menos lúdicos em si mesmos, os revólveres de Arma
branca trazem um jogo que também é reincidente no seu trabalho: o
das palavras, que fico bem claro em
Acesso negado. Como se dá esta
relação entre o trabalho e os títulos que você propõe e em que medida
o título faz parte da obra, ajuda a completá-la simbolicamente?

Os calçados de "Anti-derrapante": really made

Sim. Acho fundamental o título do trabalho. Um trabalho/uma obra precisa de um nome. “Sem título” para mim é um “nome” sem carinho para um trabalho que faz parte de toda uma pesquisa de arte de um artista. Muitos dos títulos/nomes dos trabalhos que penso e faço são fundamentais para uma direção a mais sobre a obra, ou até um outro questionamento sobre a mesma. A série “Arma Branca” por exemplo, são cerâmicas esmaltadas em preto, e o branco significa outra coisa, tanto relacionado ao sentido de arma branca, quanto um link direto para uma outra série de esculturas que apresentei em branco e preto, e isto vem la da xilogravura: o preto da tinta, e o branco do papel. O nome acaba sendo um resgate também de momentos específicos neste caso. Alguns trabalhos ganham o nome depois/enquanto estão sendo feitos, outros são desenvolvidos posteriormente do nome/título, que é como que se fosse um resumo de uma ideia/conceito/texto sobre a obra. Outro dia estava com um grupo de amigos e em um diálogo um advogado me soltou a seguinte palavra: ofendículos. Adorei a palavra e logo perguntei o significado. A partir da explicação, desenhei inúmeras imagens na cabeça e no dia seguinte ja tinha uma série de xilogravuras com este nome na série como título.

A memória da guerra esteve presente em sua formação no Colégio Waldorf Rudolf Steiner, de São Paulo.
Você teve professores que vinham refugiados da Segunda Guerra da
Europa, mas ao mesmo tempo tomou contato com um método de ensino ainda
incomum nos anos 1980 por aqui, bastante alternativo. Como esta
mistura ainda é presente no seu trabalho?

A pedagogia Waldorf apresenta uma ênfase muito grande com o fazer manual. Tudo se faz com as mãos. Então, desde criança fazíamos todos os procedimentos para chegar a uma etapa final. Para aprender a fazer um pão, as crianças da minha turma preparavam a terra, plantavam, colhiam, montavam um forno de tijolos e barro, pesquisavam receitas, faziam a massa e assavam. Muitos procedimentos, muitas técnicas. Sempre gostei disto. Outro exemplo eram nas aulas de trabalhos manuais que pegávamos a lã crua do carneiro, cardávamos, fazíamos o fio, passávamos no tear e o resultado eram tapetes, toalhas, etc. Sempre brincávamos: homem que sabe costurar ou estudou na Waldorf, ou freqüentou por alguns anos alguma prisão por ai. Então, hoje, na minha produção, eu preciso e sinto a necessidade de colocar as mãos nos trabalhos, de participar e de suar para se obter um resultado. Terceirizo pouquíssima mão de obra, justamente para poder ter o prazer de participar de todos os momentos da minha produção, e isto sim se deve a minha educação que tive enquanto criança.

Os tênis que você vai apresentar estão camuflados de muitas
maneiras. Como a ideia de camuflagem se relaciona com obras pregressas
e com esta questão da palavra de que falamos anteriormente?

O nome da série de tênis/sneakers é Anti-derrapante. São todos tênis convencionais, de diversas marcas como converse, kichute, all star, vans, nike, etc. Para a pesquisa a marca não é tão importante, e sim a forma em si do próprio tênis, dificuldades e possibilidades de reprodução. Claro que quando faço um kichute, um bamba, ou um pony, entro no universo infantil/adolescente de algumas pessoas, e gosto disto também – estes resgates são inevitáveis e adoráveis. Os calçados hoje possuem uma variedade incrível de formas, tecnologias, cores e estampas. Como pesquiso a cerâmica e suas possibilidades não convencionais, para mim experimentar estas estampas e formas é sempre um novo desafio. Além do desenvolvimento do molde, da reprodução da escultura-tênis, do acabamento, da queima-transformação de barro em cerâmica, há também a pintura individual, que é como uma tela em branco, onde posso falsificar mikes, vonverses, quixutes, bans, etc. Neste caso, junto com a série “Armas Brancas”, entendi que as estampas camufladas dialogariam melhor, mas a camuflagem não consiste apenas em estampas militares de ocultar algo, esconder ou disfarçar. Adiciono também a camuflagem da moda: a da onça, da zebra, da cobra, etc.

Ao trabalhar com o boxe, ao fazer moldes no corpo do cantor Giddape
Joé para o Prêmio Interferências Estéticas da Funarte no Norte do país
e agora ao criar tênis e meias você parece reaproximar a cerâmica e a
escultura do corpo, lembrando de forma enviesada que o corpo e sua
representação estão na origem do trabalho em três dimensões. Esta
vizinhança é muitas vezes irônica e antitética, como no caso de
re.van.che, em que parte do trabalho é destruído durante a
performance. É por aí?

"Batalha naval", incluído no último Itaú Rumos Visuais

Para mim, o interesse pela cerâmica vem desde a minha infância, e os desafios e possibilidades que o material oferece sempre me fascinam. Hoje no brasil, dentro do circuito de arte contemporânea vemos pouquíssima cerâmica sendo produzida em sua totalidade pelos artistas. A maioria usam partes, pedaços, cacos ou apenas se apropriam destas materias e reorganizam dentro de outros conceitos. Para mim, o fazer, o transformar o barro em formas e depois em pedra de cerâmica é um procedimento incrível. É física, é química, matemática mas de uma maneira sensível. Dentro de minha pesquisa, uma parte dela é totalmente direcionada para os estudos desta técnica que vou apresentando em séries de trabalhos-possibilidades. Acredito que quebrar a cerâmica em uma ação é muito mais que quebrar um trabalho. É o puro encontro explosivo entre arte e esporte, entre artista e atleta, entre modelar e socar/chutar. São paralelos equivalentes em suas artes: plásticas ou marciais. Outro fator que para mim é fundamental é a falta de respeito com o material, no sentido de não respeitar tanto as tradições, os ensinamentos de como se deve ou não fazer. Para fazer uma xícara existe uma maneira correta, agora para criar um projeto de arte, se ele não der errado, se ele não for experimentado de inúmeras maneiras eu jamais vou conseguir alguma pesquisa nova ou inovadora que me satisfaça como artista.

Você tem (teve?) uma confecção de camisetas. Como estes novos
trabalhos sobre calçados e meias (que são, em si mesmos, uma
camuflagem e uma proteção para o corpo) se relacionam com esta outra
atividade? Você vê alguma conexão?

Fui sócio de duas marcas de roupa (a Miya e a ramOrama), mas não tenho mais sociedade com elas. Aprendi muito participando da produção das estampas, das modelagens, cortes, peças piloto, prova e fotos de campanhas – é outro trabalho árduo. Vejo muita relação entre moda e arte, acredito que os profissionais das duas áreas um “olha” para a outra para se inspirar e aprender as possibilidades criativas que estão por ai. Assim como arte e moda, vejo também a arquitetura, cinema, design, música, sempre áreas que influenciam umas nas outras. Como disse anteriormente, dentro do quadro de atividades da escola Rudolf Steiner, aprendemos a xilogravura, a litografia, pintura, escultura, lapidação, e também silk. A camiseta sempre esteve presente no meu universo como forma de expressão: por um lado a escola não permitia estampas do tipo “beba coca-cola” ou de times de futebol, e ao mesmo tempo, ensinava a desenvolver o fotolito para a gravação de telas de silk e imprimir a sua própria estampa. Então, acredito que meu interesse por roupa/estampa veio ainda antes que o interesse por optar em desenvolver e começar uma carreira de produção em arte e estudar para aprofundar conhecimentos. Fico extremamente satisfeito quando consigo resgatar fazeres de meu aprendizado na infância para a minha produção atual. Trabalho com cerâmica hoje não por acaso, e sim porque por doze anos em formação nesta escola (da primeira série até o último ano do colegial) trabalhei com argila, madeira, metal e pedra.

Tanto na xilogravura, que foi seu primeiro suporte de interesse
como artista, quanto no tipo de escultura que você faz hoje, há muito
suor. Há um trabalho mental e um projeto, como em toda obra de arte
contemporânea, mas também conta muito o aspecto físico, a labuta em
cada peça. Gostaria de falar sobre isso?

O suor é inevitável. Meus projetos atualmente demoram cerca de um ano para serem finalizados. A cerâmica tem um tempo “lento”, de produção, secagem, acabamento, queima, perda e aprendizado. Perdemos muito trabalho, e ainda com a tecnologia de hoje que deixa tudo tão imediato, tento produzir as obras de uma maneira mais eficaz, mas mesmo assim, ainda demora. Os projetos exigem muito esforço, pesquisa, mão e corpo, ainda mais quando se tratam de instalações com um grande número de cerâmicas complexas. Gosto de ir dormir cansado com o dever cumprido, e algumas etapas dos trabalhos resolvidos. Acredito que hoje o corpo está cada vez mais presente na minha produção, não apenas em desgaste físico, suor, mas como assunto também. Isto se deve a minha parceria com as marcas de roupa que resultaram em uniformes para ações performáticas, entre outro projetos. No caso do “Jambolhão”, os visitantes das exposições podiam subir na escultura de fiberglass, no da Batalha Naval podiam reorganizar as esculturas conforme iam brincando com o jogo. No projeto retra%15 (ainda em andamento) eu tiro o molde de corpos de pessoas e as reproduzo em cerâmica com um encolhimento natural de 15% devido a retração da argila quando se transforma em cerâmica. Mas o projeto que mais contou com isto foi o re.van.che que entra totalmente no universo do esporte/luta. Este projeto apareceu justamente com comparações que eu fazia entre a minha árdua produção de

A mostra no Rio abre no dia 5, terça, às 19h

cerâmicas e estilos de treinamentos de lutadores. Amassar argilas, carregar peso, subir e descer escadas com carregamentos de 300kg de argila, fora outras conexões, claro.

Fiquei me perguntando até que ponto este really made que você faz, quase uma contramão do ready made, não é também uma reflexão e uma crítica à rapidez com que as coisas caem em desuso hoje. Descartamos objetos, tecnologia, referência e mesmo arte muito rapidamente. Damos upgrade, substituímos? Um par de tênis perene, feito em cerâmica, toca nisso também?

Bom, adorei o termo really made.  Gosto do really e gosto do made. O fazer e fazer mesmo, o feito de verdade, acredito que sintetiza a ardua tarefa de todos os fazeres para chegar ao resultado final – e você viu que muita gente se engana com os tênis….então o really cai como uma luva. Eu sempre comento que o tempo de hoje é extremamente rápido demais, em datas, em novidades dentro da produção dos artistas – e trabalhar com cerâmica então eu praticamente que pelejo com tudo isto usando apenas mãos de barro contra o tempo. Ontem o (crítico e curador paulista) Fernando Oliva me pediu uns portifolios para ele usar em uma aula para mostrar maneiras de apresentações, e como eu tenho muitos portifolios e especificos, eu pude enxergar novamente o quão absoletos eles tb ficam por formatações, datas, programas e qualidade de fotos e impressão. Realmente o mundo anda girando um pouco mais rápido, ou nós que não ficamos mais parados enquanto ele gira, pode ser, pode ser. Acho que a subtisuição é a continuidade/continuação da pesquisa que fazemos, que a cada exposição ou projeto, apresentamos/substituimos pelo novo. O novo que temos mais prazer em mostrar, e mais perguntas pra fazer sobre, e ouvir do que dali repercurte. Não costumo fazer criticas com meus trabalhos, ou pelo menos não vejo desta maneira (mas pode claramente acontecer aos olhares perceptivos dos espectadores). Gosto de me desafiar, de aprender com os trabalhos para eu poder continuar “errando” nestes e outros caminhos que não escolho, é o proprio trabalho que indica e me pede. Um erro pode virar acerto, ou pode abrir nossas sensibilidades para poder perceber tudo de uma maneira diferente. Exemplo disto é abrir um forno de cerâmica: sempre uma surpresa……. É possivel trabalhar esta materia de uma maneira exata e matemática, porem, são tantas as variantes e procedimentos que uma gotinha de vermelho pode virar um “vulcão com cratera” em uma escultura esmaltada. Gosto do aspecto que a cerâmica tem e a palavra-brinde “fragilidade” que todos entendem que a cerâmica representa e é. Neste trabalho o fato cerâmica além de enganar aos olhos pois poderia ser metal/tecido/borracha ou qualquer outro material, mas não, adiciona novamente e reafirma a fragilidade tanto do assunto, quanto das imagens que são belicamente fortes porem frágeis e craqueláveis em cacos. Mas por outro lado, pela cerâmica conseguimos resgatar muitas civilizações que se foram e que usavam esta técnica para utensílios/utilitários, como urnas sagradas ou como armas e páginas de livros sobre a humanidade naquele presente – que hoje é passado. Então se por toda a fragilidade que nos vemos neste material, temos que entender que mesmo soterrado, ele ainda é tão forte, tão forte que consegue gritar palavras que foram ditas em linguas totalmente extintas. Respeito todos os pedacinhos de barro seco no meu ateliê, e reciclo para transformá-los em outros trabalhos, em outros moldes.

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