Minha Marina

Parte do espetáculo se dá em quatro aquários, que parecem telas de cinema, com bonecos de tamanhos diferentes fazendo as vezes de zoom e plano-paisagem

Bem melhor do que a “Onda verde” é a profundeza azul e oceânica de Hans Christian Andersen. Um programão hoje depois de votar é ir ver Marina, do grupo PeQuod, que adapta A sereiazinha, um dos clássicos da literatura infantil (?), para o universo dos bonecos de manipulação. Dirigido por Miguel Vellinho, o espetáculo ganhou trilha sonora com canções de Dorival Caymmi cantadas e tocadas ao vivo pelo elenco.

Está em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil até o próximo dia 10 e tem duas versões: para adultos e crianças. O texto abaixo é sobre a primeira.

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“Ó mar salgado, quanto do teu sal são lágrimas de Portugal”, escreveu  Fernando Pessoa, dando talvez a forma mais precisa à melancolia marítima dos portugueses.  Quando Andersen criou A Sereiazinha (A Pequena Sereia), conseguiu plasmar as dores de um amor impossível, transformando o mar e seus seres submersos no grande símbolo para as ondas do inconsciente. Ariel, a trágica sereia adolescente que já nadou nos mares nórdicos, ganha vida no CCBB do Rio com outro nome: Marina, que também batiza o espetáculo que comemora os 10 anos da Cia. PeQuod de teatro de animação.

A peça começa no escuro, como os desejos.  O público ouve uma discussão entre o futuro Rei das águas e sua irmã, uma poderosa feiticeira que quer lhe roubar o trono.  Diante da irredutibilidade de quem é dono por direito da coroa, a bruxa lhe roga uma praga: a cunhada, que está esperando a terceira filha, vai morrer ao parir.  E a sereiazinha que vai nascer vai marcar o reino com a tragédia.

A luz acende e avançamos no tempo. Vemos quatro aquários e uma piscina tomando o palco.  A manipulação direta dos personagens acontece dentro d´água,  superando todas as dificuldades que isso oferece. Os aquários fazem as vezes de quatro telas de cinema, onde a ação se dá em planos contínuos. Bonecos de tamanhos diferentes de um mesmo personagem permitem aproximações e distanciamentos, zooms e planos-paisagem. A água cria movimentos involuntários, que não são controlados pelos atores-manipuladores, transferindo para a forma do espetáculo o fluxo perturbador dos acontecimentos propostos por Andersen. A água jorra, infiltra, mina, desconecta – para o bem e para o mal. Como um amor avassalador.

PeQuod, para quem não lembra, é o barco de Moby Dick. O grupo dirigido por Miguel Vellinho tem no mar sua fundação. E, voluntaria ou inconscientemente, sempre perseguiu a água de maneira obsessiva, como o Capitão Arab corria atrás de sua baleia branca.  A água esteve presente de forma literal no espetáculo O velho da horta, baseado na obra homônima de Gil Vicente, e tinha importante papel simbólico em Peer Gynt, adaptação do clássico de Ibsen.

Em Marina, o mar é personagem, narrador, direção e cenário. É também um filtro que deixa tudo mais fluido, embaçado, desfocado, e a luz assinada por Renato Machado tem papel fundamental nisso. A ideia de transformação do corpo, tão presente na história da sereiazinha, ganha o plano real em outro corpo, o do espetáculo.

Quando os seres do mar chegam à terra, os bonecos saem de cena e têm seu lugar ocupado pelos atores que os interpretam. É assim depois que Marina dá sua voz para a tia malvada em troca das pernas. Condenada ao exílio e à incomunicabilidade pelo impulso do coração, a sereia coral se transforma em humana através da atriz que a interpreta, também isolada do resto da cena numa cabine de vidro no plano superior do palco. Outra passagem semelhante ocorre quando o Rei (Márcio Nascimento, magistral,  há muito um dos grandes atores do jovem teatro carioca) se aproxima da praia para tentar resgatar a filha.

Triste como deve ser, belo como nunca, Marina é um espetáculo sobre nossas escolhas. A do PeQuod foi certeira.

12 thoughts on “Minha Marina

  1. Márcio, modéstia à parte, sua amiga tem toda razão. Qualquer um que te vê no teatro, repara que você tem um vozeirão lindo, tem uma postura impecável no palco, interpreta “pra cacete”; e o mais importante: é muito lindo como pessoa. Deus me deu a honra de conhecê-lo e ser sua amiga também.
    Adorei a peça, dá vontade de levar para casa! Você e seu grupo estão de parabéns. Nota-se que este trabalho, os outros que eu vi também; mas, principalmente este, está perfeito. Muito colorido. Muito lindo mesmo!!!

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  2. Esse espetáculo é muito denso,por isso tão bonito!!!!!!!!!!!!!!!!!!Com interpretações belíssimas,o espetáculo num todo,nos comove à alma,assim como a sua crítica:bonita,elucidativa,doce e verdadeira.
    Compartilhar é bonito demais!!!!!!!!!!!!!!!Viva a Pequod!!!!!!!

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  3. Esse espetáculo é muito denso,por isso tão bonito!!!!!!!!!!Com interpretações be
    líssimas,o espetáculo num todo.nos comove e toca à alma,assim como a sua
    crítica:bonita,elucidativa,doce e verdadeira.
    Compartilhar é bonito demais!!!!!!!!!!!!!!!!Viva a Pequod!

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  4. …Daniela, também ficamos encatandos com suas palavras! Uma das críticas mais sensíveis que já recebemos, muito obrigada pelo carinho e reconhecimento,
    grande bj pra vc,
    Liliane Xavier
    (Bruxa do mar, dentre outros, rs…)

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  5. “A peça começa no escuro, como os desejos.”
    Só ter lido esta frase já havia me bastado. Mas tem muitas outras…
    Estamos todos muito felizes com o que escreveu!
    Fiquei emocionado e agradeço imensamente!

    Obrigado!
    Marcio

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    1. Assisti a peça aí no Rio e fiquei muito emocinado. Tudo se encaixou com uma luva, o conto, o cenário, a música e os atores. Linda a voz da Marina.

      Quanto ao Rei, Márcio Nascimento, este sim é especial.

      É só aguardar, vai dar o que falar.

      Marcelo Malard.

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