Somewhere

Eu poderia falar muitas coisas de Somewhere, novo filme de Sofia Coppola, que teve suas últimas sessões no Festival do Rio hoje e deve ser campeão de pedidos na repescagem.  Mas vou tentar ser breve.

O filme mostra o quanto Sofia foi costurando um repertório próprio poderoso e inquestionável ao longo dos anos. Delicada, ela toca seu filme sem muita pressa, mas alternando muito bem os momentos mais difíceis com um humor meio cínico, daqueles que provoca um risinho nervoso na plateia.

Seu novo anti-herói, o famoso ator de Hollywood Johnny Marco (Stephen Dorf), também é um prisioneiro de sua própria vida, como a Maria Antonieta vivida por Kirsten Dunst e o astro veterano que emocionou meio mundo na pele de Bill Murray em Encontros e desencontros.

+++

Outro ponto alto de Sofia é a visualidade, conseguida não só com uma senhora direção de arte, mas sobretudo com fotografia e montagem primorosas. É impressionante a sequência de cenas do início do filme em que tudo na vida de Marco gira. O encadeamento sugere como ele está enredado, apático, andando em círculos. O filme começa com o ator-playboy girando com sua Ferrari numa pista de areia; pouco tempo depois o vemos contratar duas massagistas dançarinas de pole dance, que rodopiam em frente ao espelho de seu quarto; mais adiante, ela aparece finalmente ao lado da filha de 11 anos, Cleo (Elle Fanning), assistindo-a rodar sobre seus patins de gelo.

A chegada da menina bota a vida do sujeito de ponta-cabeça e faz com que o filme se transforme em um road movie atípico, com o personagem deixando a prisão em círculos para uma busca de si mesmo pelas curvas e encruzilhadas das vias expressas de Los Angeles. Bem bonito.

+++

A comida é um elemento libertador em cena. Há uma receita de ovos benedict que, se você prestar atenção, dá até para copiar em casa.

+++

A trilha sonora é, novamente, um ponto alto em um filme de Sofia, que há muito deixou de ser apenas a filha de Francis Ford Coppola, por favor. Um dos destaques é  Smoke get in your eyes na ótima versão de Bryan Ferry, que você ouve abaixo.

+++

Não vou contar o fim do filme, é claro, mas também há uma cena em aberto, como o sussurrar de Bill Murray no ouvido de Scarlet Johansson em Encontros e desencontros.

+++

A tradução de Somewhere para português ficou Qualquer lugar. Eu teria preferido “Algum lugar” por fidelidade à trama, embora saiba que é menos comercial.

+++

Eu disse que ia falar pouco e vejam só o que aconteceu. Não me emendo…

6 thoughts on “Somewhere

  1. ótima a crítica do filme, que ainda não vi. mas bate perfeitamente com uma impressão que tenho da Sofia Coppola. Ela evolui de forma impressionante, seus filmes de certa forma são o mesmo, o que é uma característica também de ótimos cineastas, e ela já é uma das grandes do novo cinema americano, junto com Wes Anderson, Paul Thomas Anderson e Tarantino.

    Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s