Já sem urubus

"Urubus", xilogravura de Goeldi, circa de 1925

Na madrugada de ontem, os três urubus que faziam parte da instalação Bandeira Branca, de Nuno Ramos, na Bienal de São Paulo, foram retirados da obra e levados de volta para o Parque dos Falcões, em Sergipe. A instalação permanece na mostra, mas sem os animais,  e, portanto, sem sua alma. A operação aconteceu por decisão da justiça, que atendeu a uma notificação do Ibama. A entidade, que tinha autorizado previamente a presença das aves, voltou atrás depois que a obra virou foco de polêmica e foi pichada no primeiro fim de semana em que a exposição foi aberta ao público (relembre aqui, aquiaqui).

A Bienal chegou a entrar com uma ação na Justiça Federal solicitando a suspensão da notificação, mas seu pedido foi indeferido. De acordo com o jornal Folha de S. Paulo, o veterinário do Parque dos Falcões, William dos Anjos, disse que os urubus estavam passando muito bem e que vê apenas motivos políticos na exigência de retirada das aves.

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Nuno Ramos está na Turquia e diz que só vai comentar o caso quando voltar.

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A obra de Nuno era o par perfeito para as gravuras de Goeldi também presentes na exposição, e que Bandeira Branca homenageia. A instalação acabou cumprindo de maneira trágica a tentativa de destacar uma herança soturna e anti-oba oba tropical no Brasil, um lado que insistimos em não ver, não sentir, não discutir.

Há um luto a cumprir –  e este episódio apenas o destaca, por vias muito tortas.

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E mais não falo, porque sinto vergonha desta mentalidade atrasada e tristeza por esta violência surda e cega, mas infelizmente nada muda.

3 thoughts on “Já sem urubus

  1. ao preparar uma aula para alunos do curso de filosofia e de arte da universidade camilo castelo branco em São Paulo onde queria discutir o trabalho do Nuno me deparei com uma interessante notícia. O museu Emílio Goeldi em Belém do Pará foi “invadido”, tomado por urubus no ano passado. Pra quem já foi na cidade ainda deve ser impressionante a lembrança dos urubus no mercado ver-o-peso, eu pelo menos fiquei muito impressionada. Era como estar cara a cara com os personagens das gravuras de Goeldi. Então em 2009 lá foram eles se abrigar no museu que guarda a pesquisa do pai de Goeldi. curioso.
    podem conferir no link:
    http://www.museu-goeldi.br/museuempauta/noticias/museu_na_midia/26022009/10.html

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  2. Daniela Name

    O Soturno e o Tropical
    Há que se ver, sentir e discutir o soturno no tropical.
    Mas também há que ver, sentir e discutir o tropical no soturno.
    Arte e Política.Em discussão.Sem obas-obas.

    Os Urubus
    Foram retirados.Por uma nova decisão do Ibama.As vias da Vida, e também da Arte, muitas vêzes são tortas…

    Os Papagaios e os Urubus
    Por que papagaios em Museu é o Mundo(HO/Rio)?Estavam lá no dia da inauguração.Uma herança tropical?
    Por que urubus em Bandeira Branca(Nuno Ramos/Sampa)?Que agora foram retirados?Uma herança soturna?
    O tropical no soturno?O soturno no tropical?Uma boa questão…

    O Brasil e a Arte
    Há que se pensar o Brasil.Tão tropical.Também tão soturno.
    Há que se pensar a Vida.E também a Arte.Em suas inter-relações.
    Eis aí, a meu ver, o mérito do pensar dos dois Artistas.Materializado em obras tão espaçadas no tempo.Expostas hoje no Rio e em Sampa.Que bom!

    Saudações Artísticas e Políticas

    Affonso Leitão

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