Nuno Ramos na Folha de SP

Artigo de Nuno Ramos publicado hoje no caderno Ilustríssima, da Folha de S. Paulo, sobre sua instalação Bandeira Branca, na Bienal de São Paulo. Ilustração de Rafael Campos Rocha.

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Bandeira branca, amor

Em defesa da soberba e do arbítrio da arte

NUNO RAMOS



PROCUREI INTENCIONALMENTE matar três urubus de fome e de sede no prédio da Bienal de São Paulo. Pus ali imensas latas cheias de tinta escura, para que se afogassem, além de espelhos, para que batessem a cabeça durante o voo. Construí túneis de areia preta, para que entrassem sem conseguir sair, morrendo ali dentro. E, para forçá-los a voar, costumo lançar rojões em sua direção.

ACUSAÇÕES Como nos pesadelos ou nos linchamentos, não é possível responder a acusações desta ordem, que circularam pela internet e no boca a boca com força insaciável nas últimas três semanas, criando um caldo de cultura próximo à violência e à intimidação. Como resultado disso, em plena Bienal, entre faixas pedindo que eu fosse preso, meu trabalho foi atacado por um pichador, que driblou a segurança, rasgou a tela de proteção aos bichos e danificou uma das esculturas de areia.
Fomos cercados, eu e minha mulher, por militantes ecologistas, que nos xingavam e gritavam do outro lado do vidro do carro, a boca em câmera lenta, “a-li-men-ta-e-les!” -o que, claro, já havia sido feito naquele mesmo dia. Barbara Gancia, colunista da Folha, chegou a pedir, utilizando um imaginário de repressão militar ou de milícia fascista, que eu fosse colocado de cuecas contra um muro e submetido a uma ducha com as mangueiras para incêndio do corpo de bombeiros.
Ingrid E. Newkirk, presidente da organização não governamental Peta [pessoas pelo tratamento ético de animais, na sigla em inglês], num artigo feroz, publicado na Folha em 8/10, encontra apenas o que pressupõe desde o início: que eu quero aparecer (ela, não? alguém duvida que um dos temas da polêmica é justamente a disputa pelo espaço na mídia?); que sou (os termos são dela) cruel, “bad boy”, sem compaixão e produtor de arte de má qualidade. Como não há argumentos e o raciocínio é circular, tudo retorna à ilibada consciência da articulista.
A notícia atravessou fronteiras raras para questões envolvendo arte (horários insuspeitos em todos os canais de TV, cadernos de jornal pouco afeitos à cultura e nas mais diversas regiões do país), passando a assunto de bar e padaria. Os urubus, definitivamente, haviam conseguido escapar e, para usar os versos de Augusto dos Anjos, pousaram na minha sorte.

TOM Frequento uma área da cultura afastada dessa luz radioativa, e não quero errar o tom. Começo este texto, portanto, fazendo a minha lição de casa: o que quer que tenha acontecido, aconteceu por meio das instituições. A licença do Ibama de Sergipe, que permitiu o transporte e a exposição dos animais, era legítima e dentro de parâmetros absolutamente legais, bem como sua cassação pelo Ibama de Brasília.
Tentamos, eu e a Fundação Bienal, que me apoiou de todos os modos possíveis em defesa do meu trabalho, uma liminar na Justiça e perdemos. Acatamos e tiramos, no mesmo dia em que a decisão liminar saiu, as três aves. Sinto-me coibido, injustiçado e chocado com tudo isso, mas não posso dizer que fui censurado. E por entender que a forma que destruiu meu trabalho ao tirar as três aves é legítima, quero divergir completamente dela.
Como quase nenhuma informação sensata circulou, tenho primeiro que dizer o óbvio:
1) As aves que utilizei em meu trabalho são aves nascidas em cativeiro, e não sequestradas ao habitat natural; é para este cativeiro que voltaram (e onde estão neste momento), quando foram “soltas” do meu trabalho;
2) Pertencem ao Parque dos Falcões (criadouro conservacionista que funciona com autorização do Ibama, realizando atividades educacionais e pedagógicas, pelo Brasil inteiro, com aves de rapina), que as mantêm em exposição para o público, como num zoológico;
3) Estas mesmas três aves participaram em 2008 de uma versão bastante similar deste trabalho, no Centro Cultural Banco do Brasil de Brasília, durante dois meses, adaptando-se perfeitamente ao espaço e sem nada sofrer, com plano de manejo aprovado pelo mesmo Ibama;
4) As aves foram adaptadas ao espaço da Bienal antes do início da mostra, com a presença do veterinário responsável por elas e de um tratador;
5) Esse tratador, o mesmo que cuida delas em Sergipe, ficou permanentemente com elas durante todo o tempo de exibição das aves ao público, literalmente abrindo e fechando a mostra:
6) Eram alimentadas por ele todas as manhãs, em quantidade e frequência estipuladas pelo plano de manejo;
7) O volume das caixas de som foi controlado, sendo mantido numa altura bastante inferior ao do murmúrio do público, para evitar estresse aos bichos;
8) O plano de manejo das aves, aceito pelo Ibama de Sergipe, foi revogado, já no meio da polêmica, pelo Ibama de São Paulo -mas sem recomendação de cassação. O que o laudo técnico, sério e sisudo do Ibama de São Paulo solicitava eram ajustes -basicamente, que desligássemos uma das caixas de som e que instituíssemos banhos de luz ultravioleta todas as manhãs, para suprir a falta de luz solar direta sobre os bichos (embora a luz do dia banhasse o espaço). Oferecia, ainda, uma licença de 15 dias, a ser prorrogada de acordo com a avaliação periódica sobre o bem-estar dos animais. O Ibama de Brasília, que, sob pressão política e midiática, determinou arbitrariamente a saída das aves, em desacordo com o laudo do Ibama de São Paulo, travou o que parecia ser um processo rico de colaboração entre técnicos sérios, com conhecimento sobre os animais, e um trabalho de arte;
9) Obtivemos laudo favorável do Departamento de Parques e Áreas Verdes da Prefeitura de São Paulo;
10) Técnicos do setor de aves do Zoológico de São Paulo, em vistoria ao trabalho, não manifestaram qualquer crítica específica ao manejo das aves -fiquei sabendo nesta visita, inclusive, que a jaula dos urubus era bem maior que qualquer jaula do zoológico, inclusive a do condor.

EXPIAÇÃO Por que, então, tanta confusão? Que é que está sendo expiado aqui?
Para começo de conversa, e como aproximação ao problema, quero lembrar que “Bandeira Branca” não é um trabalho de ecologia, nem eu sou especialista em aves de rapina, assim como “Guernica” de Picasso não é apenas um trabalho sobre a Guerra Civil Espanhola, nem Picasso um historiador. Por isso utilizei os serviços de uma entidade ecológica, o Parque dos Falcões, e obtive, tanto na montagem em Brasília, em 2008, quanto em São Paulo, autorização do órgão legal em meu país para esses assuntos.
Ou a lei não vale para todos? Tratar meu trabalho como crime e a mim como criminoso é fazer o que fazia a direita franquista, ao chamar “Guernica” de quadro comunista, ou a aristocracia francesa da segunda metade do século 19, quando ameaçava retalhar a “Olympia”, de Manet, em nome dos bons costumes.
O que me foi negado com a criminalização do meu trabalho foi a possibilidade de um sentido -o sequestro, digamos, de qualquer sentido que ele pudesse propor. E é contra isso, mais do que contra a boataria e a calúnia, que escrevo hoje.

VALORES Arte não cabe nos bons nem nos maus valores, por mais confiança que se tenha neles. Dela emana um signo aberto, para isso foi inventada, para que fanatismos como os que ouvi nessas últimas semanas não circunscrevam completamente o possível da vida. Claro que ninguém está acima da lei, e, repito, cumprimos, artista e instituição, rigorosamente a legislação ambiental brasileira -mas é a possibilidade de pensar diferente que está sendo criminalizada aqui.
Artistas extraordinários como Joseph Beuys (por sinal, fundador do Partido Verde na Alemanha), Jannis Kounellis, Hélio Oiticica, Nelson Felix, Tunga, Cildo Meireles, utilizaram animais em suas instalações. Provavelmente o trabalho de Beuys que inclui um coiote (“I Love America and America Loves Me”) seja, sem nenhum favor, uma das mais importantes obras de arte do século 20.
“Tropicália”, de Hélio Oiticica, que tem araras vivas em seu interior (curiosamente, exposta há poucos meses, com as aves, no prédio do Itaú Cultural de São Paulo, na avenida Paulista, sem despertar qualquer polêmica), é um trabalho fundamental para a compreensão do que somos e do que queremos ser. Negar o que estes artistas conseguiram com seus trabalhos -uma oxigenação radical de nosso imaginário- tratando-os como criminosos certamente seria regredir a épocas de triste memória.
Posso entender quem seja contra bichos em cativeiro. Seria interessante exigir um pouco de coerência dessa posição -ou seja, vegetarianismo radical, já que a quase totalidade da carne que comemos vem de animais em cativeiro, fechamento de todos os zoológicos, jóqueis-clubes, fazendas com animais para monta e, ainda, requalificação geral de nossas relações com bichos domésticos. Mas, mais do que coerentes, gostaria que fossem suficientemente democratas para aceitar que nem todos pensem como eles, nem todos se deem o lugar de xamãs, em contato íntimo com os desejos e sensações dos animais, e que dentro das regras públicas legais de cada país o acesso a esses animais possa se dar sem histeria nem calúnias.

BANDEIRA BRANCA Como nada ou quase nada se falou sobre o trabalho, peço licença para interpretar o que eu próprio fiz, partindo de uma breve descrição. “Bandeira Branca” (este título, no meio de um bombardeio desses, é dessas coisas que só a arte explica) foi montado pela primeira vez há dois anos, no CCBB de Brasília, e agora, ampliado e modificado, recebeu uma segunda versão, especialmente para a 29ª Bienal.
O trabalho consiste em três enormes esculturas de areia preta pilada, foscas e frágeis, a partir de cujo topo, feito de mármore, três caixas de som emitem, em intervalos discrepantes, as canções “Bandeira Branca” (de Max Nunes e Laércio Alves, interpretada por Arnaldo Antunes), “Boi da Cara Preta” (do folclore, por Dona Inah) e “Carcará” (de João do Vale e José Candido, por Mariana Aydar). Três urubus vivem na instalação durante toda a duração do trabalho.
O resultado é uma cena solene, entre a litania e a canção de ninar, que me parece ter cavado, em sua montagem em São Paulo, uma espécie de buraco negro no prédio da Bienal. Acho que o vão do prédio, uma das obras mais felizes de Niemeyer, com sua velocidade e otimismo, ganhou com meu trabalho um contraponto ambivalente, noturno e encantado, triste mas também próximo do mundo dos contos de fada.
Há uma espécie de espiral ascendente no trabalho, que se desmaterializa conforme o espectador sobe a rampa do prédio e as pesadas colunas de areia se transformam na geometria de quem vê as esculturas de cima. Feito primeiro de areia, depois de mármore, depois de vidro, depois de som, depois de voo, o trabalho faz em seu percurso o mesmo que as aves, num ciclo que a chuva de fezes brancas, caindo sobre as peças e sobre o chão, inicia novamente.

ANTIPENETRÁVEL Mas o ponto crucial, acho eu, é que, apesar da monumentalidade do trabalho e da textura inacabada da areia, que solicitam o corpo do espectador, o público é mantido fora da obra, numa espécie de antipenetrável. A obra de certa forma já foi ocupada, já tem dono e por isso não podemos nos aproximar. A noite, as canções e os urubus são seus donos, e ao público resta assistir de fora a alguma coisa viva, que não precisa dele.
As canções e os bichos, forças ascensionais contra a inércia e o peso das esculturas, já tomaram conta da obra e a tela de proteção, que materializa o desenho do vão do prédio, marca essa passagem entre um exterior institucional e um interior ativo, fechado em si, mistura de cultura (canções), natureza (os urubus) e arquitetura.
As aves e as canções dão ao trabalho o seu agora, uma duração voltada para algo indiferente ao mundo lá fora. Daí que muita gente tenha me dito que se sentia observado pelas aves e não observador, dentro da grade e não fora dela. E que no meio de tanto tumulto, com certeza as três aves pareciam as únicas tranquilas.
Esta atividade interna autossuficiente está no coração deste trabalho e me acompanhou ao longo da balbúrdia destes dias difíceis. Fico feliz de perceber que de certa forma o trabalho já pressupunha isso, falava disso e defendia-se exatamente disso -queria estar consigo e não conosco, longe da barulheira que no entanto causava.

AUTOSSUFICIÊNCIA Em vez da atividade do espectador, própria de tantas das melhores obras modernas, e que encontrou entre nós uma formulação extrema na ideia dos “Penetráveis” de Hélio Oiticica, a arte contemporânea parece estar se voltando para dentro, numa autossuficiência renitente.
Não é o lugar para desenvolver isto, mas, para dar dois exemplos memoráveis, acho que as “Elipses”, de Richard Serra, apoiadas em si mesmas e não mais nas paredes das instituições, ou “O Ciclo Creamaster”, de Matthew Barney, com suas infinitas dobras e relações internas, partilham esta característica. Meu trabalho acompanha de certa forma essa direção.
A institucionalização crescente da arte trouxe para junto dela uma pletora de discursos institucionais, todos perfeitamente centrados, seguros de si e disputando espaço na mídia e nas oportunidades orçamentárias. Isso vem, talvez, do estilhaçamento das grandes noções universais que acompanharam a formação do mundo moderno: política, religião, burguesia, proletariado, luta de classes, direita, esquerda etc.
Com a quebra dessas noções universais, os particulares (ecologia, minorias étnicas, minorias sexuais etc.) firmaram-se, cheios de si, pontudos, zelosos de suas verdades. A arte talvez seja a última experiência universalizante, ou ao menos não simétrica à discursividade do mundo, e acho que tende a ser cada vez mais atacada, toda vez que discrepar, como soberba e como arbítrio. Mas penso que é isso mesmo que ela deve manter: sua soberba e seu arbítrio, para que possa continuar criando.

DESFAÇATEZ Pois isso para mim foi o mais impressionante de tudo: a absoluta incapacidade, digamos, interpretativa de quem me atacou, a recusa de ver outra coisa, de relacionar o sentimento de adesão ou de repulsa que meu trabalho tenha causado com qualquer coisa proposta por ele, em suma, a desfaçatez com que foi usado como trampolim para um discurso já pronto, anterior a ele, que via nele apenas uma possibilidade de irradiação.
Para isso, é claro, o principal ingrediente é que fosse tomado de modo absolutamente opaco e literal, espécie de cadáver sem significação. Para que possa ser veículo estrito de discursos e de grupos, sem que utilize seus recursos, digamos, naturais (sedução, desejo, ambivalência), o trabalho de arte tem de estar, de fato, desde o início definitivamente morto. Daí, creio, a ferocidade com que fui atacado -uma espécie de operação higiênica preventiva, para impedir que qualquer germe de espanto, ambiguidade, beleza, estupor, pudesse aparecer, desqualificando o desejado consenso.
No fundo, acho que a frase famosa de Frank Stella, que jogou uma pá de cal nas ilusões subjetivas de começos dos anos 60 e inaugurou as poéticas minimalistas que duram até hoje, “What you see is what you see” (“O que você está vendo é o que você está vendo”), parece ter migrado da arte para o mundo. A literalidade das obras de um Carl Andre ou de um Donald Judd transferiu-se inteira para as instituições e para o público.
Por isso talvez caiba hoje à arte a tarefa bastante simples, mas tão difícil, de dizer exatamente o contrário: “O que você está vendo NÃO é o que você está vendo”. Ou seja, sonhar. Ou, como diz a letra da canção, “Bandeira branca, amor”.


6 thoughts on “Nuno Ramos na Folha de SP

  1. Resposta de George Guimarães ao texto de Nuno Ramos “Bandeira branca, amor: Em defesa da soberba e do arbítrio da arte”, publicado no jornal Folha de São Paulo em 17/10/2010.

    Prezado Sr. Nuno Ramos,

    Pude ler hoje no jornal Folha de São Paulo o texto “Bandeira branca, amor: Em defesa da soberba e do arbítrio da arte”, carta onde o senhor choraminga sobre como está se sentindo “injustiçado, coibido e chocado” enquanto busca, em vão, explicar ao leitor sobre a importância da sua “obra”. Pode ter sido para a sua surpresa descobrir que, assim como a arte, movimentos organizados que clamam por direitos utilizam-se de discursos e ferramentas que nem sempre estão de acordo (ou devo dizer, que muitas vezes estão em desacordo) com o que é aceito pelo status quo e cujas ações muitas vezes não estão abrigadas dentro dos parâmetros da legalidade. Talvez seja a sua falta de contato com qualquer informação que se refira aos movimentos por direitos que tenha gerado a sua percepção sobre a criação de “um caldo e cultura próximo à violência e à intimidação”. Esteja certo de que a violência e intimidação que o senhor pode sentir não estavam sequer próximas daquilo que teria tomado forma caso os urubus não tivessem sido libertados nesse prazo curto durante o qual foram expostos como objetos para suprir a sua falta de criatividade. Acalmadas por indícios de uma solução em andamento pelas mãos do IBAMA, as iniciativas de protestos e intervenções apenas começavam a brotar do movimento de libertação animal nesse curto período de tempo.

    Na semana que seguiu ao incidente da inauguração da exposição (no qual os ativistas pelos direitos animais foram agredidos pelos seguranças da Fundação Bienal), houve um segundo protesto, onde 2 ativistas pelos direitos animais se algemaram à sua obra (eu era um deles) acompanhados por 40 outros ativistas, que com sucesso conseguiram passar pelo sistema de segurança e detectores de metais instalados na entrada do prédio portando 8 quilos de metais que foram usados para nos acorrentarmos e algemarmos. Esse protesto ocorreu 2 dias depois do IBAMA ter anunciado o cancelamento da licença de exibição das aves e, por força dessa circunstância, o protesto acabou ganhando um tom moderado. Refiro-me ao protesto realizado dentro do prédio da Bienal no dia 02 de outubro de 2010, que teve 4 horas de duração e foi devidamente abafado pela mídia e propositadamente “esquecido” em sua breve descrição na carta publicada hoje no momento em que o senhor descreve o desenrolar dos fatos. Apesar de termos violado o sistema de segurança da Fundação Bienal, termos sido muito vocais durante o protesto e termos atingido milhares de pessoas pelo tempo que bem entendemos, uma vez que não podíamos ser retirados dali por estarmos algemados, ainda assim digo que o protesto teve um tom moderado. O andamento do protesto teria sido muito diferente caso não estivéssemos praticando a nossa melhor política e paciência em face da decisão do IBAMA ainda pendente de ser cumprida. Afirmo que uma centena de ativistas deixou de estar presente por não serem mais necessários naquele dia depois que decidimos mudar a estratégia em face da decisão pendente do IBAMA, mudança essa que tinha caráter temporário até que os animais fossem de fato devolvidos ao seu local de origem. Para assistir ao vídeo do referido protesto, acesse http://www.youtube.com/user/veddastv (o arquivo de vídeo está publicado em duas partes). O relato completo sobre o protesto pode ser lido em http://www.veddas.org.br.

    Na esperança de buscar compreender o disparate que brota da mente de um artista que precisa recorrer ao uso de animais para expressar a sua arte, fiz questão de ler o trecho do seu texto onde há a descrição sobre o que foi pretendido com a “obra” em questão. Após a leitura, prevalece a minha percepção sobre aquilo que afirmei em alto e bom tom a todos os presentes na exposição durante o protesto que realizamos algemados à sua “obra”: a necessidade de usar animais vivos para expressar a arte apenas atesta para a falta de criatividade do artista. Quantos elementos pode a mente de um verdadeiro artista criar sem ter que explorar animais sencientes para transmitir a sua mensagem? Não se trata, portanto, de pretender realizar, como o senhor afirmou, “o sequestro, digamos, de qualquer sentido que ele pudesse propor”, mas de apontar a sua falta de criatividade e protestar a falta de respeito aos limites da ética e da moralidade, elementos esses tão necessários à formação de uma civilização sintonizada com o novo momento planetário que vivemos. Como o senhor deveria saber, a arte, com seu papel educador e provocador do pensamento humano, tem enorme responsabilidade sobre a formação moral da nossa sociedade.

    No caso do seu trabalho, ele não é apenas imoral, mas é também criminoso. Inclusive recomendo que já comece a preparar a sua próxima carta choramingando as acusações formais no âmbito criminal que estão sendo encaminhadas ao Ministério Público, já que o seu texto publicado na data de hoje na Folha de São Paulo está distante de poder expressar a grandeza do choque que receberá quando souber que as leis federais e municipais que condenam os atos criminosos levados adiante pelo senhor e pela Fundação Bienal serão cumpridas. Aliás, eu não deveria dizer que você ficará chocado em saber sobre essas leis, já que elas foram apresentadas por defensores dos direitos animais ao senhor e à Fundação Bienal antes mesmo da inauguração da exposição. A minha certeza da execução das penalidades cabíveis parte do fato de que elas já estão sendo e continuarão a ser cobradas por milhares de defensores dos direitos animais distribuídos por todo o país e dispostos a novas mobilizações se isso for necessário.

    Em relação à sua impressão sobre a “desfaçatez com que foi usado como trampolim para um discurso já pronto, anterior a elem que via nele apenas uma possibilidade de irradiação”, o senhor não poderia estar mais equivocado. Não havia discurso pronto nem tampouco havia a intenção de usar a sua infeliz “obra” como trampolim para coisa alguma. O que houve foi um momento inicial de perplexidade que foi seguido pela elaboração de ações. Digo que houve perplexidade porque, como se não bastassem tantas formas de exploração animal já em operação em nossa sociedade especista, pretendia-se agora ampliar ainda mais os já enfraquecidos limites da exploração de animais como meros objetos. Mais do que isso, mais do que a falta de sensibilidade do artista e dos curadores da Fundação Bienal, há ainda a violação da Constituição Federal e de leis federais e municipais que vedam expressamente a submissão de animais à crueldade, além de, no caso da lei municipal, vedar especificamente a exibição pública de animais em circos e congêneres. Não se trata, portanto, do uso de um discurso já pronto, mas de uma mobilização contra essa aberração que ultrapassa até mesmo os limites já demasiadamente frouxos e aceitos pela sociedade. Prova de que esses limites existem e têm o apoio popular é que eles estão expressos na forma de leis.

    Já em relação à sua demanda por coerência em nossa posição, aquilo que o senhor descreve como “vegetarianismo radical”, declarando que deveríamos nos abster do consumo de carne e defender o fechamento de todos os zoológicos, jóqueis-clubes, fazendas com animais para monta e a requalificação de nossas relações com “bichos” domésticos, falo por mim e por muitos membros do nosso movimento ao afirmar que concordamos totalmente com a sua percepção sobre a coerência, já que as nossas lutas e práticas abrigam todas essas demandas e vão além. Entre tantas outras práticas que devem ser acrescidas à sua lista, também não consumimos ovos e laticínios, deixando assim de colaborar com as indústrias que exploram e escravizam animais para roubar-lhes esses produtos. O mesmo é verdadeiro para as indústrias do couro, da lã, da seda, dos rodeios, dos circos, das experiências com animais e tantas outras variáveis da exploração animal que permeiam a nossa sociedade, que demasiadamente anestesiada pela cultura de exploração vigente encontra dificuldade para enxergar a intensidade do horror a que bilhões (sim, bilhões) de animais são submetidos a cada ano com o único propósito de servir aos interesses (e, na maioria dos casos, ao luxo) humanos.

    Qualquer forma de arte que reforce a percepção equivocada de que animais são objetos destinados ao uso humano é nociva à formação de uma cultura de respeito a todas as formas de vida. Portanto, Sr. Nuno Ramos, pare de choramingar sobre as “injustiças” com as quais julga ter sido vitimado e assuma o seu equívoco com honra e tranquilidade, pois assim como tantos outros, o senhor não passa de mais uma vítima dessa sociedade especista que entende que os animais não-humanos pertencem a espécies inferiores e por isso podem ser subjugados ao nosso bel prazer. A sua formação cultural e artística não passa de mais um fruto dessa cultura de exploração e dominação que não tem mais espaço no modelo de sociedade que o planeta precisa e que por isso está fadada a ruir. A boa notícia é que qualquer um está possibilitado a despertar para uma nova percepção sobre essa realidade e assim vislumbrar a dimensão da missão que está por ser realizada: a revisão da forma com que nos relacionamos com a natureza e a aceitação do desafio de transmitir à sociedade uma mensagem que esteja verdadeira e integralmente imbuída de intenções positivas, sanas e justas. A arte, sem dúvida alguma, tem muito a contribuir para esse despertar e é por isso que a arte jamais pode estar aliada à crueldade.

    George Guimarães, nutricionista, 36 anos

    RG: 13.564.803-8 SSP/SP

    Presidente da ONG VEDDAS – Vegetarianismo Ético, Defesa dos Direitos Animais e Sociedade

    http://www.veddas.org.br
    veddas@veddas.org.br

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  2. Daniela Name

    Ótimo você ter replicado aqui no blog o artigo do Nuno Ramos publicado hoje no caderno Ilustríssima, da Folha de S. Paulo.Não é sempre aque eu leio a Folha.A livre informação é um direito de todos nós Brasileiros.Nem sempre foi, e em certos casos ainda não é, assim em nosso País.

    O blog está se tornando uma ótima fonte de informação para mim.Fácil de navegar e com conteúdo.Muito bom também estar podendo participar, aqui e ali.

    Bem, o Artista se pronunciou.E a questão agora pode ser melhor avaliada.Em uma Democracia, todas as partes envolvidas podem e devem se pronunciar.A questão é o teor desses pronunciamentos.

    Li na Folha a “Matéria Peta”.Não li a “Matéria Gancia”.E também não sabia dos fatos “Militantes-Ecologistas” e “Faixas-Prisão”. Pois é. Em algumas situações, e não só na Arte, pensamentos e comportamentos do passado ainda se mostram vivos no corpo social do Brasil de hoje.Lamentável.

    Mas o Debate é livre.E Nuno Ramos não precisa de quem o defenda.O artigo dêle é prova disso.

    Um Artista cuja Obra admiro.Soap Opera, em sua totalidade, Obra e Vídeo, foi um dos trabalhos mais instigantes que vi nos últimos tempos, quando foi mostrado aqui no Rio em uma Galeria no bairro da Gávea.

    Agora, como bem lembrou o Artista, por que Araras e/ou Papagaios em Museu é o Mundo(HO/Rio) podia/pode e Urubus em Bandeira Branca (NR/Sampa) não podia/não pode?Uma boa questão…

    E agora, Pipas ao Vento.Vou acompanhar as Entrevistas.Sou um pouco refratário quanto a Prêmios de/em Arte.Um pouco.Esse prêmios me remetem a questões Institucionais e também de Mercado.Que eu entendo como uma certa Política da Arte.Que não me atrai muito.Mas os prêmios existem .É fato.Não tiro o mérito daquêles que, quando efetivamente merecedores, os recebem.E sei que o assunto é polêmico.

    Portanto, penso que vai ser interessante ouvir a fala dos Pipa’s.Assim como foi interessante ouvir a sua fala introdutória a respeito do prêmio.Quem sabe, assim, eu não permeabilize um pouco o meu pensamento a respeito?

    Caso Nuno Ramos, porventura, venha a ler esse meu comentário, deixo aqui um abraço para êle.Um abraço e o meu respeito pelo seu Fazer Artístico.

    Abs

    Affonso leitão

    PS:Art is Free.

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  3. Grato pelos inúmeros trabalhos que a senhora tem-me enviado, digo-lhe que a monumentalidade não fascista da instalação do Sr. Nuno Ramos escapava da gaiola das aves, sobrepairava sobre o céu de chumbo de SP, para nos alcançar no interior provinciano onde resido.”Soberba e arbítrio”, “o sequestro do sentido”. Que o Sr. Nuno vá por aí e, numa ocasião bem próxima, coloque na jaula o algoz da Arte.

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  4. Gostei muito do que foi dito pelo artista Nuno!!
    Não entendi como podem fazer isso com um artista!
    quanta polêmica…Cadê a liberdade nas artes?
    Cadê a nossa classe de artistas dando apoio a ele?
    Estou perplexa com tanto absurdo..
    Perla Braga Cardoso Pinto, artista plástica.

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  5. Gostei muito do que foi dito pelo artista Nuno!!
    Não entendi como podem fazer isso com um artista!
    quanta polêmica…Cadê a liberdade nas artes?
    Muito falatório…estão querendo aparecer?
    Cadê a nossa classe de artistas dando apoio a ele?
    Estou perplexa com tanto absurdo..
    Perla Braga Cardoso Pinto

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