PIPA – Marcius Galan

 

Marcius Galan em foto publicada pelo Uol, às vésperas da inauguração da Bienal

A primeira entrevista da série com os finalistas do Prêmio PIPA é com Marcius Galan. Veja como vai ser a série aqui.

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Galan monta seu trabalho "Intersecção" no MAM do Rio

‘Meu trabalho é um desenho incompleto, e que nunca vai se completar’

Estar diante de um trabalho de Marcius Galan é perceber o quanto a matemática, especialmente a geometria, pode nos levar para o campo das sensações e para um estado de suspensão, próximo da espiritualidade. Nascido em Indianápolis, nos Estados Unidos, em 1972, Galan foi criado em São Paulo e participa da exposição de finalistas do PIPA com a instalação sonora Intersecção. Ao apresentar o som de um lápis sobre o papel, o artista investiga novas possibilidades para o desenho, um motor quase invisível para sua obra desde sempre.  Nesta entrevista, ele fala da relação com a arquitetura e a cidade, presente em seus trabalhos na Bienal de São Paulo; do enfrentamento com o espectador no ambiente que acaba de ser inaugurado em Inhotim; e da influência de artistas como Waltercio Caldas, Gordon Matta-Clark, Cildo Meireles e Lúcia Nogueira.

Em seu trabalho para a final do PIPA, em que duas caixas de som amplificam a tarefa silenciosa de fazer círculos a lápis, o desenho volta a aparecer como em outros momentos de sua obra: de maneira enviesada, indireta. O desenho é um bom fantasma que sempre te assombra?

MARCIUS GALAN: Apesar de muito poucas vezes ter apresentado desenhos como trabalho final, meu trabalho lida quase o tempo todo com a ideia de desenho. O desenho é também importantíssimo para o meu processo, faço muitos cadernos que são pensamentos soltos, rabiscos sem muito sentido e de tempo em tempo redesenho sobre as coisas antigas. É um exercício sem cronologia e isso me ajuda a manter as questões anteriores quase descartadas ligadas ao que estou pensando no momento. Muitas vezes desses encontros saem as coisas que me interessam. Nesse sentido posso dizer que entendo meu trabalho como um desenho incompleto, e que nunca vai se completar. Intersecção, que estou mostrando no prêmio PIPA, veio de um trabalho que apresentei na exposição OIDARADIO, organizada pela Kiki Mazzucchelli e pelo Nick Graham-Smith, que era uma exposição de rádio no Paço das Artes. O meu trabalho chamava-se Desenhos ao vivo, e era uma espécie de performance sonora, transmitida de um estúdio ao vivo onde eu desenhava com um lápis microfonado. Os desenhos circulares tinham um rítimo que ia crescendo. Eu me interessava em tentar propor um reconhecimento do desenho por outro sentido que não a visão.

Intersecção também tenta propor esse mesmo exercício, mas tem um interesse pelo espaço, um lado escultural também, as caixas ficam mais em silêncio do que com os ruídos. Esse silêncio entre duas caixas de som é interrompido por um desenho banal, um círculo no papel, que amplificado ganha força. É um limite que se torna variável, se expande pelo espaço e se dissolve, pretendia dar ao ruído discreto e íntimo do desenho a gravidade de um tremor ou uma força da natureza qualquer, algo que desrespeita a organização espacial, o desenho, o projeto, o planejamento urbano, as fronteiras e os limites das áreas estabelecidas pelo próprio desenho.

Matemática e arquitetura são outras matrizes importantes no seu trabalho. Poderia falar um pouco de cada uma delas?

GALAN: Meu trabalho lida com o básico da matemática, meu interesse está nas operações simples que definem coisas essências. Tenho um conhecimento muito limitado, mas no caso da geometria, me interessava muito pensar como partiu de uma disciplina filosófica e caminhou para uma ciência prática. As falhas desse percurso me interessam como por exemplo as definições de ponto, onde não se atribui tamanho, peso e forma para esse elemento. Porém uma vez que se desenha um ponto ele tem tudo isso, ele passa a ocupar um lugar e ter tamanho e contraria já de partida sua definição. Sobre isso trata meu trabalho da Bienal.

"Seção diagonal", na mostra "NovaArteNova", no CCBB/SP: obra acaba de ser montada em Inhotim

Em Inhotim, Seção Diagonal foi recém-instalado na Galeria Mata, de exposições temporárias. Neste ambiente/instalação, há um outro traço importante de sua obra, que é a ilusão causada pela aparência das obras. Na individual recente que você fez na galeria Silvia Cintra (Área útil=Área comum), também havia trabalhos de um falso cálculo, uma perfeição ilusória. Poderia falar sobre isso?

GALAN: Seção diagonal é um trabalho que faz com que as pessoas duvidem da própria percepção. Um plano que não existe é criado através de sutis modificações na sala de exposição e divide o espaço. É um trabalho muito frágil no sentido de quase não existir… o que temos ali é a sala com alterações muito simples.

Na Exposição da Box 4+Silvia Cintra tinha uma série de trabalhos que punham em dúvida a natureza dos materiais, lidavam também com essa vontade de forçar uma imprecisão justificada por operações precisas apoiadas na geometria. Venho pensando muito nisso, em criar um mecanismo que se justifique, que esteja apoiado em uma lógica organizacional para desestabilizar a si próprio.

Na exposição Primeira e última, em cartaz na galeria Luisa Strina, em São Paulo, seu trabalho O escultor é constituído por uma lixadeira que, ao invés de construir uma peça, a destrói, corroendo a base onde está repousada e pintando a cúpula de acrílico com  pó de maneira. Como se deu este embate, que cria um trabalho corroendo-o aos poucos?

GALAN: É um trabalho que ao mesmo tempo destrói sua própria sustentação e cria uma nuvem de poeira que toma a forma do acrílico da cúpula. Esse trabalho lida com a ideia de escultura, ou com o inverso da escultura. Fica nessa tensão, pois o desgaste da madeira está diretamente ligado a tradição da escultura, mas o que se desgasta é a base de sustentação.

Tem um interesse também pelo movimento contínuo que demanda um trabalho que não cessa e é inútil, o resíduo fala acúmulo de tempo desperdiçado assim como em vários trabalhos anteriores como Extensão, de2004 e Desenhos, feitos entre 2000 e 2005.

 

"O escultor": o inverso da escultura

Gostaria que falasse um pouco de seu trabalho na Bienal, em que transfere uma pequena área da cidade de São Paulo para dentro do prédio de Fundação,  através da escala.

GALAN: Vem dessa brecha matemática. Ponto em Escala Real é um trabalho que parte de um ponto qualquer num mapa da região metropolitana de São Paulo em escala 1:130.000. Estava pensando nessa questão que já havia mencionado acima, do ponto como elemento gráfico conceitualmente paradoxal em sua essência, ali desenhado com tamanho de 2mm. Pensei em submetê-lo a escala do mapa onde se encontrava, dando a ele a possibilidade de ser real, de poder obedecer a lógica das escalas como tudo que está no mapa. O resultado foi uma ínfima seção de 6x5m desse ponto, construído em concreto dentro do prédio da bienal e que respeita a curvatura da circunferência do raio, que na escala 1:1 teria 260m de diâmetro. Essa situação absurda foi toda fundamentada em operações precisas respeitando a lógica matemática, a representação do mapa e técnicas de construção civil.

 

"Entre": subversão de elementos do mapa de São Paulo

O trabalho Entre é também uma tentativa de entender a representação do real, submetendo elementos gráficos do mapa a uma operação precisa, porém improvável. Separei alguns mapas de regiões com problemas de fronteira (na Bienal são oito) e dependendo da escala do mapa fiz uma aproximação para chegar no 1:1 (escala real). Para essa ampliação contei com ajuda de um laboratório nos Estados Unidos chamado IPS, especializado e microscopias de papel e de 2 pessoas que me ajudaram muito para chegar nessa conta, o Renato Cury em São Paulo, que fez as impressões e o Tom Kremer nos EUA que fez as microscopias me garantindo que eram imagens extraídas do interior das linhas de fronteira.

 

Os títulos também são muito importantes para você, ao que parece. Isso fica claro para mim em uma obra como Balanço, por exemplo. Estou certa? Que tipo de relação você cria entre trabalho e palavra? O título é uma chave para o jogo com o espectador, para a ironia?

GALAN: É uma chave, mas não que eu queira com ele apontar ou entregar algum tipo de caminho correto para o entendimento da obra. Acho que faz parte do trabalho tanto quanto a escolha do material. Alguns títulos abrem diversas possibilidades de leitura como “Balanço”, que é uma palavra com muitos sentidos. Ao mesmo tempo que fala do equilíbrio da composição, é ativada pelos seus próprios elementos para um apontamento mais irônico e autocrítico.

"Balanço": título abre sentidos

Você diz que seus trabalhos sempre começam de “um lugar onde você quer chegar” e é este alvo que gera uma pesquisa de materiais. Em que lugar quer chegar com seu trabalho no MAM, para o PIPA?

GALAN: Esse trabalho eu já tinha projetado, gravado em estúdio mas ainda não tinha apresentado. Não queria levar uma escultura ou trabalho antigo pronto pois eu nunca tinha exposto no MAM e para mim é muito mais prazeroso e instigante propor um trabalho mais arriscado, no sentido de ser uma experiência inédita de instalação de som no espaço. Acho que existe uma coerência entre as operações de escala que estou apresentando na Bienal e essa tentativa de ampliar o som de um gesto silencioso. Todos lidam com desenho de maneiras distintas.

Na coletiva Dimensões variáveis, que reuniu você, Felipe Cohen, Nicolas Robbio e Daniel Acosta no CCSP este ano, percebi uma influência muito grande de Waltercio Caldas, sobretudo nos três primeiros artistas. Você concorda com isso, no que diz respeito ao seu trabalho? Quais seriam suas outras influências?

GALAN: Concordo sim, esses dias estava relendo o Manual da Ciência Popular [livro lançado por Waltercio, veja aqui] e pensando sobre como os trabalhos dele me provocavam desde a época da faculdade, desde o primeiro contato.

As influências são tantas que sempre tenho dificuldade de listar.

 

"Isolante", de 2009, que estava no CCSP

Poderia fazer uma lista interminável, mas acho que além do Waltercio o Cildo é um artista que sempre gostei, acho sempre surpreendente e forte. O Gordon Matta-Clark é uma grande influência, lembro da primeira vez que vi Interseção Cônica [ver na galeria de imagens do artista, aqui] e fiquei muito impressionado com a maneira que ele desenha usando arquitetura. Uma artista que é eu gosto muito também é a Lúcia Nogueira [leia aqui reportagem portuguesa sobre a artista brasileira, falecida em 1998], fico impressionado como nunca nenhum museu brasileiro fez uma retrospectiva dela. Eu tenho um catálogo de uma exposição dela no Museu Serralves que é maravilhoso.

No vídeo institucional gravado para o PIPA, você diz que já teve apenas 10% de sua renda vindo da arte e hoje tem 90%. No que já trabalhou antes de tirar seu sustento de seu trabalho artístico?

GALAN: Já trabalhei de garçom, diagramador de revista de fofocas, ilustrador, fui assistente de artistas. Depois que me formei, trabalhei como designer, produtor de exposições, monitor de serviço educativo de exposições temporárias, professor, e desde 2005 e até o ano passado trabalhei na MTV.

Quais são seus próximos projetos, o que vem por aí?

GALAN: Estou produzindo uma série de esculturas para o Parque Villas-Boas em São Paulo com inauguração prevista para o fim do ano, uma coletiva no Instituto Iberê Camargo em Porto Alegre em novembro e agora em outubro participo de uma coletiva no Museu do Chiado em Lisboa e estou tentando organizar minhas coisas para publicar um livro/catálogo no ano que vem.

Onde você imagina que vai estar daqui a 10 anos?

GALAN: Só consigo pensar uma semana pra frente. Me dá um pouco de pânico pensar tanto tempo pra frente.

 

"Área comum = Área útil"

PERGUNTA DO CONVIDADO MARIO GIOIA

Como foi montar e escolher trabalhos para três exposições quase em paralelo (Silvia Cintra, Bienal SP e MAM Rio)?

GALAN: Para a exposição da Box 4+Silvia Cintra eu tinha um desenho na cabeça da exposição já há um tempo e as coisas foram sedimentando naturalmente. Na bienal, no primeiro encontro com a curadoria depois do convite para participar, eu apresentei 3 propostas, que eram coisas que eu estava querendo desenvolver e achava que fazia sentido dentro da proposta curatorial. Eles escolheram 2 projetos e o terceiro foi o que eu acabei mostrando no MAM-RJ na exposição do PIPA.

Escolher não foi o mais complicado mas foi um período difícil, pois além dessas exposições que você citou fiz um trabalho novo para a exposição que o Rodrigo Moura organizou na Luisa Strina e o trabalho para o Instituto Inhotim. Nunca tinha trabalhado tanto e em tantas coisas simultaneamente. Claro que fiquei empolgado de ter várias coisas acontecendo em paralelo, mas fiquei um pouco tenso demais. Eu consegui organizar com antecedência cada coisa, mas eu sempre tabalho muito na montagem, meu trabalho sempre muda na execução apesar de ter projeto. Respeitar esse tempo é essencial pra mim, mas apesar do estresse fiquei bem contente com os resultados, alguns mais que outros, mas acho que apesar de cansativo esses períodos me fazem pensar muito no trabalho e acho que é o que sobra do esforço.

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