Barrão

Vista da exposição na Laura Marsiaj

Evitei escrever no blog nos últimos dias, porque não conseguia pensar em nada diferente do que a pequena-grande exposição de Barrão na Galeria Laura Marsiaj. E, como ele é um dos artistas de meu projeto “Ficções”, no Programa Novos Curadores, não queria que isso fosse interpretado como uma espécie de campanha. Agora, com a votação popular quase no fim, peço desculpas por ignorar o “quase” (menos de uma hora)  e finalmente botar este post no ar.

Peço licença, ainda, pela segunda parte do texto, que é extremamente pessoal. Mas em que outro lugar eu poderia fazer assim, não é mesmo?

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O post é longo. Perdão por isso também. Juro que quem chegar até o fim vai entender a razão.

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Barrão na Laura Marsiaj

As quatro esculturas de Barrão na Laura Marsiaj mais uma vez usam o acúmulo e a associação de ideias presentes na obra do artista desde os 1980, quando ele agrupava óculos, TVs e outros objetos da cultura de massa em trabalhos híbridos, entre a escultura e o vídeo.

Há cerca de seis anos, Barrão começou a estilhaçar objetos de louça – alguns decorativos; outros funcionais – e a juntar estes pedaços de origem diversa em esculturas que buscam uma nova unidade, criam um objeto virgem, fresco, com o refugo dos outros. Esta sobreposição e resignificação de imagens, tão comum em sua geração, no caso do artista não se dá de forma etérea, enviesada, quase virtual. Aproxima-se no plano geral, mas neste ponto específico difere um pouco dos trabalhos de uma “outra pintura” – expandida, heterogênea – que foi amadurecendo entre seus contemporâneos.

Na obra de Barrão, o corpo dos trabalhos é constituído pela própria citação, que transforma a escultura em um Frankenstein lírico, alegórico, clownesco. Como o monstro do romance de Mary Shelley, suas peças são formadas por matéria “morta”, quebrada, destruída, esfacelada, que ganha uma outra vida pelas mãos do criador.

Na exposição da Laura Marsiaj, as peças de parede têm elefantes, símbolo de boa sorte, sabedoria e memória. Nas quatro, o animal é um suporte real e simbólico. Em uma delas, a tromba serve de gancho para um pesado cacho-mandala feito de Budas; sua imagem é uma passagem para a Índia e para equilíbrio quase improvável atingido pelo trabalho. Em outra, é mesclado a abacaxi e cauda de felino em uma euforia barroca, kitsch e tropical.

Garimpeiro de antiquários e feirinhas, Barrão tem como meta a casualidade de seus encontros com as peças. Sua criação nasce deste jogo contrário com o acaso e a destruição.

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Barrão na minha história

 

 

"Teresinha": fio de louça, fio de história

 

Foi também por acaso que aconteceu meu primeiro encontro com Barrão. Não sei bem se eu cursava a 8a série do ginásio ou a 1a série do 2o grau no Colégio de Aplicação da Uerj. Nestes dois anos, tínhamos História da Arte como disciplina obrigatória. Nossa professora era a Glauce, que, eu não sabia na época, é mãe da pintora Beatriz Milhazes.

Glauce dava aula numa sala amarela e enfrentava uma turma que era formada por um grande extrato de alunos da classe média tijucana,  acomodados aos playgrounds, aos shoppings da Praça Saenz Peña e aos motoristas que os levavam de carro ladeira acima, evitando contato com a comunidade do Morro do Turano, vizinha do portão da escola. Doce e durona ao mesmo tempo, ela propunha exercícios pouco comuns: exigia que fôssemos ver exposições e que incluíssemos em nosso comentário um relatório de nossas descobertas durante o trajeto até o museu ou galeria,  que deveria ser feito obrigatoriamente através de transporte público.

Eu não fazia parte do grupo com carro e motorista, metrô era algo corriqueiro. Talvez por isso naquele dia tenha passado pela Estação Carioca e esbarrado em uma exposição que não era a que Glauce tinha mandado ver:  um grupo de artistas jovens comemorava o “Dia da Mulher”, 8 de março. Havia pinturas com sutiãs colados, laços de fita, muito rosa. Mas fui atraída para um enorme cubo feito de tapume de obra, com uns dois metros de largura, e um fone de ouvido em cada um dos quatro lados.

Imagem-zero no meio dos babados. “Eu, hein, que coisa estranha, coisa legal”. Fui ouvir. A voz de um sujeito narrava, com intervalos de tempo e entonações diferentes, uma lista de nomes femininos: “Sandra”, “Maria”, “Tereza”…  Fiquei hipnotizada. Até então, minha experiência com arte contemporânea se restringia à polêmica em torno da estrela de Tomie Ohtake na Lagoa. Eu era a favor, claro, porque a Glauce já tinha me convencido.

Com aquele cubo era diferente, uma coisa entre mim e aquela voz, sem intermediários e sem cátedra.  Ouvindo aquela lista, pensei nas Marias e Sandras e Terezas que eu conhecia, quis ser uma das moças, estar em uma lista daquelas, tão amável, tão amada.  Compreendi – do jeito que dava naqueles meus tempos de lordose com a mochila da Company – que a arte tinha fronteiras além do visível e podia se misturar com a minha memória.

Não lembro de nenhum outro artista desta coletiva no Metrô Carioca, mas tive a manha de ler a legenda do trabalho do cubo: o autor era um tal de Barrão.

“Que cara de nome engraçado”, pensei.

E arquivei, sem nem perceber.

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Depois de 22 ou 23 anos – nem eu e nem Barrão sabemos ao certo – tenho a oportunidade de estar novamente diante deste trabalho, uma instalação sem título que nunca mais foi montada pelo artista. Ela está no meu projeto para “Ficções” e, mesmo que não chegue ao Paço das Artes, reencontrou o meu caminho graças ao Novos Curadores. Resolvi refazê-la não só porque ela era parte das histórias dentro da história da mostra, mas também porque até hoje permanece intimamente ligada à obra de Barrão: também é uma soma de cacos, de linhas esgarçadas que ganham nova unidade.

Numa exposição que é feita de fios narrativos, reais e imaginários, não seria exagero dizer que o cubo do Barrão é a roca tecedeira, o primeiro estalo do motor.

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Quis contar a epopeia deste arrebatamento, não descrita no projeto oficial da mostra, para agradecer aos leitores e amigos pela enorme quantidade de votos que recebi na eleição popular dos Novos Curadores. Gente de diversas procedências – inclusive do Colégio de Aplicação – se mobilizou em correntes no Facebook e nos e.mails.

Jamais imaginei tanto interesse e tanta confiança. Tanto afeto, que no fim das contas é sempre o que importa.

Obrigada, obrigada, obrigada.

 

13 thoughts on “Barrão

  1. Cara Daniela, vc mata o véio… Uma cadeia de acasos me trouxe a este post, pq eu procurava notícias sobre a Glauce Milhazes. Tb fui do CAP (me formei lá em 1984). Matei muita aula para ir ver no Parque Lage, várias vezes, a exposição ‘Como vai vc, Geração 80?’ – qdo eu era aluno da inesquecível Glauce, querida professora. As obras do Barrão lá eram das mais incríveis (aprendi com ele que as batedeiras tb amam). E agora é emocionante ler suas lembranças daquela sala amarela. Abraços, gratíssimo, Sérgio.

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  2. Name-Dani, muito interessante este post, como te disse anteriomente ando cada vez mas interessado em artes plásticas, tenho tirado várias idéias de coisas que tenho visto por aí para um vindouro livro que pretendo escrever. Depois do cd que lançaremos é claro. Enfim, curti o Barrão, já tinha lido sobre ele no O Globo. Vc, por acaso, reparou que depois q mudou a editoria do segundo caderno estão saíndo mais e melhores, mais explicativas, matérias sobre as artes plásticas por lá. Um abraço pantanoso do Tandera e seus asseclas atômicos.

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  3. Daniela querida,
    Nós não nos vemos muito mas sempre estou sabendo de você e acmpanhando a tua trajetória de lutas e conquista. Tude de bom para você. Um grande beijo de tia Mavie e agregados.

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    1. Tia querida, vc, Mariah, Jacy, meus primos, meus padrinhos e Paquetá fazem parte de minha história. Um beijo grande e obrigada pela visita no blog!

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  4. Dani.
    Você é especial: determinada e guerreira! Você é daquelas poucas pessoas que pode dizer: eu construo minha estrada! Que Deus a abençoe permanentemente e continue lhe iluminando.
    Beijos do tio.
    AH! Ia esquecendo. Por óbvio, meu voto foi seu.Rss…

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  5. Daniela Name

    Barrão é para mim uma boa lembrança dos 80’s. Uma obra instigante.
    Já naquela época.

    Barrão tbém fez parte, nos 80’s, do grupo A Moreninha.Não sei se você conhece essa história.Deixo aqui o link que, em certo momento,a conta:
    http://rbtxt.files.wordpress.com/2010/01/cerebro_cremoso.pdf

    Nos 90’s, reencontrei o Artista no grupo Chelpa Ferro.Nunca entendi o nome do Grupo.

    Acho que foi no início dos anos 2000 que assisti a um trabalho do Chelpa na exposição Hotel Love’s House, aqui no Rio.

    E bem recentemente, tive o prazer de assistir o Grupo se apresentando na França Brasil.Um belo trabalho.

    É, o seu texto, extremamente pessoal, me trouxe boas lembranças.Que compartilho aqui no seu blog.

    Deixo aqui um abraço para o Artista.

    Abs pra’ vc tbém.

    Affonso Leitão

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  6. Daniela: Muito boa a crônica. Citar Da Glauce sua professora de arte e um antigo trabalho do Barrão só enriquecem o artigo sobre ele. Os dados vão se somando e ficam disponíveis para a história da arte. Parabéns. Meu voto foi seu. Beijos Marcio

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