Deborah Engel

 

"Chinesinha", de 2010, uma das fotos da exposição: "terceira margem" da imagem

 

Deborah Engel inaugura a exposição paisagens possíveis na Galeria Artur Fidalgo, em Copacabana, nesta quinta-feira, dia 18 de novembro,  às 19h. Tive a honra de ser convidada para escrever o texto da mostra, que segue abaixo. A artista e toda a equipe da galeria esperam vocês na abertura, junto com esta que vos fala. Apareçam!

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paisagens possíveis

Deborah Engel poderia ser Istambul. Retratada inúmeras vezes pela National Geographic, revista que a artista tanto usa como ponto de partida para estas paisagens possíveis, a cidade turca une Europa e Ásia através das duas pontes que se debruçam sobre o Estreito de Bósforo, linhas sobre a água construídas para completar o desenho de seus limites urbanos.

Como Istambul, a obra de Deborah parece estar sempre entre – dois pontos, duas situações, dois tempos, estados distintos. Este entre, no entanto, é transformado em através. O que à primeira vista é uma suspensão, uma dupla de parênteses apartando contrários, transforma-se em uma sobreposição de sutilezas que amalgama diferenças.

A artista persegue esta costura de um modo muito peculiar, flertando com a transitoriedade das imagens. Investiga momentos instáveis e efêmeros desde o início de sua trajetória. Em 2009, deu um nome bastante significativo para uma série de fotografias realizada no Rio de Janeiro: Passantes, que integraram a mostra Tudo é passageiro. Sobretudo neste segundo título há simbiose do significante – os retratados eram todos usuários do transporte coletivo, mantidos anônimos – com o significado. Com o conjunto de imagens e a maneira como resolveu chamá-lo, Deborah revelava quase uma declaração de intenções.

As paisagens possíveis vão ainda mais longe, projetando-se, à maneira de Istambul, para um novo continente – um outro espaço-tempo que contenha suas possibilidades. Walter Benjamin afirmou que a fotografia dispensou pela primeira vez a mão do fazer artístico, transferindo a responsabilidade estética para olho, talvez o verdadeiro obturador. Neste trabalho, Deborah consegue interferir com a mão no gesto mecânico de fotografar, para reafirmar a soberania não do olho, mas do olhar – o seu e o de outros.

A artista seleciona fotografias feitas para reportagens em diversas revistas, sobretudo a National Geographic. São imagens imbuídas, portanto, de um caráter documental, de um registro fidedigno e realista. Deborah junta estas fotos de vários lugares do planeta com paisagens brasileiras, criando um fio de sentido entre (a palavra insiste em voltar) uma garota chinesa e um quintal caipira. Ou a plantação de chá e a lavoura de café. Ou o sobrevoo da coruja no bosque temperado e a mata tropical.

É através deste entre que se enxerga de forma mais ampla a imagem roubada, a imagem clicada e a terceira imagem – também terceira margem, como a canoa que se põe entre dois tempos no meio do rio de Guimarães Rosa. Na pororoca de sentidos criada por Deborah, entre é o através onde se repensa a longa tradição de paisagem no Brasil, a fotografia, as possíveis ressignificações e a memória das imagens.

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Para quem não sabe, a Artur Fidalgo fica no segundo andar do “Shopping dos Antiquários”, na Rua Siqueira Campos. O lugar está virando um pólo interessante de arte contemporânea com a chegada de outra galeria, a Cosmocopa, criada pelos artistas Felipe Barbosa e Rosana Ricalde e o publicitário Álvaro Figueiredo. Com elencos complementares, as duas casas têm tudo para unir esforços em uma ótima programação por lá.

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