Rennó, Saara e eu

Seu Name, o universo ao meu redor

Há um entre os trabalhos de Mapas invisíveis que atinge minha origem. Jamais confessaria isso num catálogo, porque não é um elemento distintivo em termos estéticos ou críticos. Aqui eu posso. Ao mergulhar na região conhecida como Saara – Sociedade dos Amigos e das Adjacências da Rua da Alfândega – Rosângela Rennó vasculhou minha cidade submersa, meu canto do Rio, meu infinito particular.

Peço perdão pela repetida cabotinagem, mas este será meu assunto esta semana, até a inauguração do dia 22. Quem é da praia sabe que é melhor se misturar à onda do que fugir dela. Ao fazer a primeira avaliação do resultado atingido pelos artistas convidados, tive a certeza de que minha maior tarefa nisso tudo, fora o lampejo da  ideia inicial, foi a de conseguir envolver um elenco tão poderoso no projeto.

O poder de Rennó me deu uma boa rasteira. Certa de que estaria preparada para tudo sobre a Saara, arrogante por pisar em “meu território”, fiquei desconcertada, no melhor dos sentidos, quando a artista me contou o que planejava para lá.

Foi na Rua Senhor dos Passos, exatamente onde Rennó pensou sua intervenção urbana que deu origem ao que vai apresentar na Caixa (leia aqui, garanto que você não vai se arrepender), que meu avô teve um dia uma portinha, arremedo de lanchonete.

Seu Name primeiro foi mascate, vivendo com uma mão na frente e outra atrás, como quase todos libaneses que aportavam no Brasil. Morou com minha avó Lourdes e seu filho único em um sobrado na Praça da Bandeira, perto do Instituto de Educação. Reza a lenda familiar que meu pai, antes de se tornar radialista e comentarista esportivo, teria sido o primeiro aluno homem do colégio, que formava normalistas.

Nunca comprovei a veracidade do fato, e fica aqui meu pé atrás providencial, já que a obra de Rennó sempre me ensinou os desvios da imagem, dos arquivos, da memória. Pioneiro ou não, meu pai chegava em casa da aula e tomava banho no quintal, onde brilhava uma engenhoca criada por vovô Name: o chuveiro, feito com uma lata de goiabada, de onde caía apenas água fria.

Na Saara, vovô conheceria dias mais prósperos, sentindo-se ambientado naquela Faixa de Gaza às avessas. Árabes e judeus criando unidos a maior zona comercial ao ar livre do Rio de Janeiro, um grande mercado contemporâneo inspirado em uma das atividades mais antigas da humanidade. Com o tempo, os coreanos – que têm um modus operandi bastante diverso destes dois primeiros grupos – também encontrariam seu lugar ao sol.

No trabalho de Rennó, a Senhor dos Passos, com a via crucis inspirada por seu nome – os 14 passos da Paixão de Cristo – une todos os grupos religiosos e étnicos da Saara através do incenso, um elemento litúrgico que tem a mesma função para todos eles. A fumaça perfumada purifica o corpo e zera a mente para unir terra e céu, fazer o religare, religar, propósito básico da religião.

É assim para árabes, judeus, coreanos budistas,  católicos – poucos lugares do Rio têm tantas igrejas quanto a Saara, nove no total, se contarmos a do Rosário – e umbandistas. O sincretismo uniu o orixá Ogum ao guerreiro São Jorge, que graças à sua popularidade usurpou de São Gonçalo do Amarante a igreja mais frequentada da Rua da Alfândega. O 23 de abril, dia do santo, tem o toque da alvorada mais ansiado por muitos cariocas.

Agradeço à Rennó, grande companheira nesta viagem com mais 11 artistas em Mapas invisíveis. Sou grata, ainda, por ela me dar o barco perfumado com que enfrentei esta epopeia tão íntima.

Clique no blog de Mapas invisíveis, aqui, para saber mais sobre a intervenção de Rennó na Senhor dos Passos e na galeria da Caixa.

6 thoughts on “Rennó, Saara e eu

  1. Daniela Name

    Quem é da praia, além de se misturar à onda, também gosta de
    furá-la.Que onda.

    Cabotinismos à parte, o que certamente não é o caso, te mando dois links.Um sobre e o outro com o Artista escolhido para representar o Brasil na 54ª Bienal de Veneza em 2011.A notícia é alvissareira para a Arte Brasileira.Imagino tbém que do interesse de todos aquêles que apreciam a Arte Contemporânea.

    Bienal de Veneza-2011
    http://www.canalcontemporaneo.art.br/brasa/archives/003523.html

    Desígnio-2000

    Reitero os meus votos de um bom trabalho pra’ vc na Mapas Invisíveis.E de uma boa Exposição para todos os artistas participantes.

    Extremamente confessional o seu texto.Assim é a Arte com seus efeitos. Infinita e particular.

    Queria muito ir na abertura da mostra no dia 22.Mas não vai ser possível.Depois eu vou na Caixa Cultural pra’ ver.

    Sds Cariocas e Praieiras.

    Affonso Leitão

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