Pedro Varela, nova viagem

Pedro Varela inaugura nesta sexta-feira o Espaço Mezanino do Sesc Copacabana, com um trabalho site specific, espécie de pintura mural feita com o adesivos, pensaeda especialmente para o lugar. Eis meu texto para o folder.

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Odisseia em Copacabana

A escada em caracol do prédio projetado por Oscar Niemeyer me leva ao Mezanino do Espaço Sesc, em Copacabana, pedaço do mundo que conheço tão bem. Mas ela me transporta para muitos outros tempos e lugares não vividos.  Já nos últimos degraus, a visão do colorido de Pedro Varela me leva para as cavernas de Altamira, com o bizão desenhado no escuro, como crônica e símbolo da existência. Vejo depois disso a parede preta do foyer do Sesc transformada em forma e cor, com as cidades de Varela engolindo a escuridão aparentemente adversa, que de fundo foi amalgamada como elemento, constituição, paleta.

Continuo viagem e sigo para o mundo bizantino. A Rússia invade minhas retinas com torres, minaretes, cidades brotadas em meio ao vazio das estepes. Aquela ali no Mezanino é São Petersburgo, boiando na imensidão da Praça Vermelha?  Embaço então a bússola e sobrevoo a Istambul Otomana, porque a visão panorâmica é fundamental: Alá está acima do mundo, afinal. No prateado de alegorias e adereços momescos que tinge a parede do Sesc, vejo o ouro e a minúcia dos miniaturistas do Império Turco. Tento me aproximar para ouvir a conversa desses artistas, que já se sentem perturbados por um jeito novo de pintar, que chega à corte do sultão como uma lufada de vento, vindo de Veneza.

Ah, a Itália… Subo na bota e encontro Giotto, em outro tempo, durante. No corte-e-cola de Varela, menino-grande, sinto o eco dos primeiros passos da pintura nos afrescos, nas igrejas. Desvio o olho de Giotto, fazendo retoques perto de uma tumba, para conseguir enxergar Diego Rivera. Ele tascou uma beijoca em sua Frida e agora equilibra o corpanzil em cima do andaime. São os últimos detalhes de um mural mexicano, popular, cucaracho, incrustado na geometria de Nova York. E é lá, em Manhatã, que pego carona com Warhol e Basquiat para conhecer o caminho do pop e da rua.  Vejo muito grafite, pisco de novo para  Altamira, reconheço Matisse e Tarsila no spray, nos adesivos, aqui, lá. Visto flúor e saio para dançar, antes de voltar para Copacabana.

Não chego pelo mar, mas pelas ondas amarelas do prédio de Niemeyer. Vejo o azul do Mezanino brincando e brigando com a fachada. As cidades de dentro como oposição e complemento da que está lá fora. Percebo a presença de Dorothy, que inventou outra estrada de tijolos nos caminhos traçados por Varela. Eles são uma sucessão de horizontes coloridos. Paisagens expandidas. Outras dimensões. Prefiro não seguir a menina até Oz, não agora. Deixo para outra viagem.

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