Rosângela Rennó e a Saara

Hoje é Dia de Reis e último dia de Mapas invisíveis na Caixa Cultural. É dia também de Rosângela Rennó fazer sua ação na Saara. A partir do meio-dia, ela perfurma a Rua Senhor dos Passos com sete tipos de incenso, mimetizando com este trabalho todas as misturas feitas na região da Saara.

Um ótimo jeito de eu terminar com as pequenas férias do blog e voltar a escrever. Abaixo, compartilho com vocês o texto do catálogo da mostra sobre Rennó e a Saara.

Feliz Dia de Reis!

Um 2011 perfumado para vocês.

 

Rosângela Rennó e a Saara


Tai deu um tapinha na narina esquerda de Aadam: – Sabe o que é isto, nakku? É o lugar onde o mundo de fora se encontra com o mundo que existe dentro da gente. Se eles não combinam, você sente aqui […] Siga seu nariz e você há de ir longe.

Salman Rushdie, Os filhos da meia-noite

Chega pelo nariz e não pelo olho o mapa invisível que Rosângela Rennó traçou da região da Saara. A Sociedade de Amigos das Adjacências da Rua da Alfândega administra o maior centro comercial a céu aberto do mundo, em um perímetro que tem como limites o Campo de Santana, a Rua dos Andradas, a Avenida Presidente Vargas e a Rua da Constituição, abarcando ruas importantíssimas na história urbana do Rio, caso da Buenos Aires, da Senhor dos Passos e, é claro, da Alfândega.

Acostumada a encontrar elementos incomuns – mas que são algo em comum – nas várias imagens de um mesmo acervo fotográfico, em peças de antiquário ou nos discursos de várias mulheres que, como ela, foram batizadas como Rosângela,[1] a artista trabalhou, em Mapas invisíveis, com o patrimônio imaterial de um dos lugares mais ricos e curiosos da cultura carioca.

No trabalho per fumum (pela física quântica nós só temos o que construímos), Rennó identificou que o incenso é um elemento de todas as culturas que povoam a Saara. Faz parte da liturgia religiosa dos três grupos principais de comerciantes da região – árabes, judeus e coreanos – e também está presente nas missas católicas das cinco igrejas[2] presentes no território da Saara (seis, se contarmos a Igreja do Rosário, que fica às margens da região) e no ritual umbandista que saúda São Jorge. No sincretismo religioso do Rio, que é diferente do da Bahia, o santo guerreiro foi fundido ao orixá Ogum. A festa da alvorada, na madrugada do dia 23 de abril, Dia de São Jorge, é sem dúvida mais popular e movimentada que a de São Sebastião, padroeiro da cidade, celebrado no dia 20 de janeiro.

Com o incenso como porto de partida, ela escolheu destacar o lado ritualístico do material ao fazer uma intervenção urbana no local.  No Dia de Reis, 6 de janeiro, a artista dividiu a Rua Senhor dos Passos em sete regiões, com dois pontos de incenso cada uma, fazendo uma alusão aos 14 Passos da Paixão na Via-Sacra. Nesse grande defumadouro, o incenso teve sua função simbólica recuperada, a de limpar o ambiente para fazer a ligação entre corpo e espírito, terra e céu, o religare proposto pelo sentido original de todas as religiões, as representadas no Saara e as que não estão lá.

Ao realizar a ação no Dia de Reis – os magos do Oriente que teriam sido os primeiros a acreditar em Jesus como o Messias, partindo em caravana para visitar e presentear o menino recém-nascido – e na Rua Senhor dos Passos, que recebeu esse nome justamente numa referência à Paixão de Cristo, Rennó alinhavou de maneira poderosa os significantes de seu diálogo com esta região da cidade, como numa comunhão.

Esses dois elementos – Reis Magos e sua relação com a mirra e o incenso, somados aos Passos da Paixão – significaram, ainda, um fio invisível com a história da Saara. Antigo caminho das mulas que traziam o ouro vindo das Minas Gerais, a Rua da Alfândega recebeu esse nome por desaguar no prédio que hoje abriga a Casa França-Brasil – construído para ser, de fato, a Alfândega depois da chegada da Corte ao Rio de Janeiro. A proximidade com o porto ampliou ainda mais a vocação para o comércio da região, onde imigrantes sírios, libaneses e judeus de várias partes da Europa encontraram abrigo. A Saara sempre foi um lugar de passagem, um caminho a se percorrer, uma descoberta a ser feita a pé.

Além das mulas e do escoamento da mercadoria do porto, foi palco de algumas das primeiras procissões realizadas por dom João VI e seu séquito, muitas em homenagem a São Gonçalo do Amarante, o verdadeiro dono da Igreja de São Jorge, localizada na Alfândega, às margens do Campo de Santana. O passeio de clientes e prostitutas na região contígua à Praça Tiradentes, desde sempre boêmia, e o bater pernas de milhares de consumidores que percorrem as lojas semanalmente completam essa vocação da Saara como mapa a ser percorrido a pé. Os Reis Magos viajantes, tropeiros, e o andor da Paixão agregam a essa história significados mais amplos, que se misturam a outra vocação do Saara: a da tolerância e da congregação de diferenças.

Para transformar a Senhor dos Passos em uma via perfumada, Rennó usou sete essências puras, vindas de diversas culturas – Mirra, Olíbano, Breu Branco, Mastique, Copal, Benjoim do Sião e Estoraque – e botou-as em turíbulos de cores diferentes, relacionadas às tonalidades das resinas aromáticas. O número 7, além de se relacionar aos 14 passos da Via-Sacra, guarda outras relações espirituais. Para os orientais, representa a quantidade de chacras, pontos energéticos espalhados pelo corpo; para os teólogos, corresponde às “moradas da alma” no “castelo interior”, teoria formulada por Teresa d’Ávila. Para a freira, transformada em santa, a alma humana seria um castelo, com sete moradas a serem percorridas – do calabouço à torre. A correspondência com os chacras é evidente e impressionante.

Impressiona também a síntese que Rennó opera com esses incensos. Ao misturar os cheiros em uma das ruas mais importantes da Saara, ela apresenta no ar a mistura feita pelos ocupantes desse pedaço do coração do Rio, território estrangeiro e ao mesmo tempo extremamente nativo. A carreira da artista sempre foi marcada por ações muito simples, mas capazes de abarcar mundos inteiros.

Sempre vizinha da memória, Rennó tem sido capaz de encontrar caminhos enviesados para ressignificar arquivos e repertórios. Foi assim, por exemplo, nas séries Vulgo e Cicatriz, em que percorreu arquivos penitenciários identificando redemoinhos de cabelo e tatuagens como fatores de reconhecimento de presos quase sem rosto, agrupados com seus pares no imaginário coletivo apenas como um bando “cara de bandido”.  Na série Vermelha, exposta em 2001 no Rio de Janeiro, apropriou-se de retratos de militares, cobrindo-as de vermelho até que os retratados quase sumissem, tingidos de sangue. Ao lado dos retratos, textos com referências bélicas apareciam impressos em veludo negro, quase desaparecendo, e por isso mesmo muito visíveis, como os homens e garotos uniformizados. No vermelho e no negro, mais uma vez uma operação simples, mas sofisticadíssima, recriava sentidos em velhas imagens.

Percebo agora, depois do encontro em Mapas invisíveis, que há um ritual e até mesmo uma liturgia nessa troca de sentidos operada pela artista. Foi assim com A última foto, trabalho de 2006. Para realizar o grupo de imagens, Rennó convidou 43 fotógrafos profissionais a fazer uma imagem do Cristo Redentor com as máquinas antigas de sua coleção. Expostas ao lado dos retratos desse ícone do Rio, as máquinas apareciam como coautoras das fotos. As imagens eram ao mesmo tempo réquiem e testamento de Kodaks, Icarettes, Zorkis, Agfas, Penguins.

A última foto também poderia servir como uma reflexão sobre a origem das imagens e as escolhas que fazemos ao produzi-las, já que se trata de um trabalho que destinava o último clique dessas 43 máquinas a uma única paisagem: o Corcovado e seu Cristo. É um antecessor de per fumum (pela física quântica nós só temos o que construímos) na relação com a cidade, mas, mais do que isso, evidencia, como os incensos, a capacidade quase alquímica de Rennó com os arquivos e com o patrimônio, material e imaterial. Pelo olhar da artista, reencontramos a alma das coisas em outros corpos – ou em corpo quase nenhum. Como no Espelho diário das muitas Rosângelas e de qualquer cidade. Como numa foto.


[1] O trabalho em questão é Espelho diário (2001). Em um vídeo, Rennó protagoniza as histórias de outras Rosângelas, colecionadas por ela ao longo de oito anos a partir de recortes de jornal.

[2] As igrejas eram as construções onde a população do Brasil colonial ostentava seu poder econômico, como conta Nireu Cavalcanti em “Rio capital da colônia”, um dos artigos do livro Rio de Janeiro – cinco séculos de transformações urbanas (Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2010). Isso explica a grande quantidade de igrejas da Saara, região muito antiga no traçado urbano do Rio. Algumas delas, como a de Santo Elesbão, foram erguidas por irmandades negras, mantidas por ex-escravos.

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