Luiza Baldan e a Barra da Tijuca

Um dos momentos de "De murunduns e fronteiras"

Este é o texto que fiz para o trabalho de Luiza Baldan na exposição Mapas invisíveis. A artista se debruçou sobre a Barra da Tijuca, mais precisamente sobre o condomínio de alta renda conhecido como Península. Assista ao vídeo De murunduns e fronteiras e conheça outros trabalhos de Luiza Baldan clicando aqui.

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O bote ficou fora de alcance, na praia do leste. O que perco não é muito: saber que não estou preso, saber que posso partir da ilha; mas alguma vez pude ir embora?

Adolfo Bioy Casares, A invenção de Morel.

De murunduns e fronteiras, trabalho de Luiza Baldan para Mapas invisíveis, destaca e aprofunda questões fundamentais da obra da artista a partir de um mergulho na Barra da Tijuca, especificamente no conjunto de condomínios de alta renda conhecido como Península. Baldan começou sua trajetória através da fotografia, embora desde o início taxá-la como fotógrafa significasse uma redução de seu campo de interesses. Ainda que a fotografia ainda seja seu suporte mais frequente, a artista não empenha sua atenção nas questões inerentes à reprodutibilidade das imagens. A fotografia – assim como o vídeo, que ela experimenta nesta exposição – é um meio para que ela fale de sua relação cada vez mais direta com o espaço, não só no que ele tem de escultórico, mas, sobretudo, como um campo de experimentação de tempos distintos a partir do confronto com sua memória.

Uma das imagens da série "Natal no Minhocão" realizada em 2010 no Pedregulho

Para realizar De murunduns e fronteiras, a artista morou durante o mês de agosto de 2010 em um apartamento da Península.[1] Nesse período, circulou pelas áreas comuns do conjunto de prédios, como jardins e playgrounds, e usou o serviço de transporte do condomínio. Ao propor essa residência, Baldan pretendia dar continuidade a uma experiência vivenciada no Conjunto Habitacional Prefeito Mendes de Moraes, o Pedregulho, em Benfica, onde passou cerca de 30 dias em dezembro de 2009. A partir da convivência com os moradores desse condomínio extremamente popular, ela criou a série de fotos Natal no Minhocão, além de produzir um conjunto de imagens que são indissociáveis de um texto escrito durante a temporada em Benfica. Parte de sua dissertação de mestrado, “Lugares que habitam lugares”,[2] tratava exatamente da importância que este texto passou a ter na sua pesquisa. Um discurso não linear e sem compromisso com o relato fidedigno dos acontecimentos, que fundia o confronto com um novo lar, provisório, nômade, com o repertório das inúmeras casas onde a artista viveu ao longo dos anos.

Essa memória da artista em relação ao habitar lista residências em diversos bairros do Rio e países como os Estados Unidos e a Espanha. Baldan viveu em mais de 20 casas em seus 30 anos de vida. Esse é possivelmente um dos motores de seu interesse pelo registro de lugares que são deslocados de sua identificação usual e dos clichês com que são percebidos para virar um território suspenso, que pode ser em qualquer lugar, mas certamente atende ao chamado de um “lá”, de um porto para onde a memória – da artista e de quem está diante das imagens – se dirige.

Não por acaso, ela tem especial interesse pelo tema da fronteira. Esse limite pode ser geográfico, surgindo a partir de seu deslocamento para um lugar que não é o seu, ou simplesmente como a sobreposição de dois “estados” de ambiente. Neste segundo caso, enquadram-se, por exemplo, inúmeras fotos de janela, em que o “lado de fora”, com sua paisagem, invade e é invadido pelos ambientes do “lado de dentro”. Mas a fronteira, na obra de Baldan, também tem a ver com transições de tempo e de luz. Na recente exposição Sobre umbrais e afins, apresentada em 2010 na Plataforma Revólver, em Lisboa, a artista reuniu fotos de 2004 a 2010 em que aparecem ambientes/territórios na penumbra. Eles são atravessados por outra intensidade de luz, que é registro de outro tempo, tão estrangeiro como ela própria quando se propõe a uma residência num lugar que não é o seu. Algumas dessas imagens contêm portas e janelas, que deixam entrever outro ambiente, outro mundo, território a ser percorrido depois de ultrapassados os limites do território que se sobressai em primeiro plano. Na série Entre o sono e a vigília (2006-2010), une a ideia de um olhar visitante com a de transição de tempo. Dorme uma noite na casa de alguém, fotografando o anfitrião assim que ele acorda e sem que faça qualquer outra coisa antes de posar para ela. Se por um lado este é um projeto que reforça a característica globe trotter e às vezes fugidia da relação de Baldan com a noção de lar, por outro demonstra com muita clareza a tentativa da artista de alinhavar e perpetuar momentos efêmeros, transitórios, fazendo deles lampejos de eternidade. Ao guardar a imagem, ela desloca tempo e espaço para o campo da não identificação e é justamente esse deslocamento que garante a sobrevivência do que é retratado.

A artista Lúcia Laguna, uma das retratadas na série "Entre o sono e a vigília"

Em De murunduns e fronteiras, a imagem guardada não é só imagem. É também texto, ampliando as relações entre campo visual e palavra iniciadas no trabalho do Pedregulho. A artista cria um vídeo formado por três projeções, que ora se separam em três imagens em tempos distintos, ora se unem numa panorâmica. Esses filmes registram um mapa de fato invisível da Península: uma ilha no meio da lagoa que separa esse bairro fechado do terreno do Barra Shopping, para onde os moradores vão através de um serviço de balsa.  Baldan experimentou a vida na ilha durante dois dias, registrando-a também em passeios de barco pelas águas que banham o condomínio. Foi levada a esta viagem introspectiva pelos barqueiros da Manglares, empresa responsável pela limpeza do mangue. O texto produzido nesse período,[3] que teve um trecho transformado em narração em off do trabalho, tem a mesma estrutura fragmentada das imagens. Captura sensações da artista de maneira entrecortada, fundindo cheiros, sons e imagens dessa região da Península – o mangue, o piar de passarinhos, a água invadindo a vegetação e o desenho infantil de um sol feito no chão do cais onde ela pegava a balsa – com os cheiros, sons e imagens dos lugares em que Baldan viveu.

Se o texto é escrito em golfadas, transmitindo novidades e dejà vu em um só tempo, as imagens fazem exatamente a mesma operação. Os projetores são como um arquipélago de três ilhas, que têm como única ligação a fluidez das águas. Uma mesma panorâmica pode ser dividida em três tempos muito próximos e igualmente muito distantes, com os projetores funcionando descompassados até um fio de discurso – visual e poético, já que ocorre sincrônico ao texto narrado – conseguir transformá-los em uma só cena.

A sensação de estados transitórios, que se eternizam a partir de lapsos de memória, volta aqui com um grau altíssimo de potência. O mergulho na Barra da Tijuca e a descoberta deste mapa invisível na Península criam novas transitoriedades e transformações para um único lugar. Bairro de prancheta, planejado pelo arquiteto e urbanista Lúcio Costa, a Barra sempre esteve culturalmente à margem do resto da cidade – tentando, inclusive, se emancipar, em uma campanha de 1988. O desconhecimento dos moradores de lá do resto da cidade já foi retratado em inúmeras reportagens e pesquisas, que demonstram que a Barra é, de certa maneira, uma ilha. Por outro lado, o preconceito e o lugar-comum com que os moradores dos outros bairros tratam a região é uma realidade.

Em De murunduns e fronteiras, Baldan quebra esses clichês, mas vai muito além ao se reencontrar com a ambiguidade entre eterno e efêmero, entre perene e nômade, que norteia toda a sua trajetória. Ao vivenciar essa sensação de naufrágio das imagens de um modo quase literal, ela mostra que estar à deriva pode ser uma boa forma de atracar no cais.


[1] Luiza Baldan morou na Península com o apoio da construtora Carvalho Hosken, que cedeu um loft para a artista durante um mês e a auxiliou em tudo o que foi necessário em sua pesquisa no condomínio.

[2] Dissertação de mestrado defendida em 2010 na linha de Linguagens Visuais do Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais da UFRJ, sob a orientação de Milton Machado.

[3] Leia a íntegra do texto da artista produzido para o trabalho De murunduns e fronteiras clicando aqui.

 


4 thoughts on “Luiza Baldan e a Barra da Tijuca

  1. […] Este é o texto que fiz para o trabalho que Alexandre Vogler criou a partir do encontro com Realengo para a exposição Mapas invisíveis, que ganhará sua versão paulista em agosto deste ano. Já foram publicados aqui no blog os textos sobre Rosângela Rennó e a Saarra (aqui) e Luiza Baldan e a Barra da Tijuca (aqui). […]

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