+ Marcantonio Vilaça

Zé Carioca não viajou: menos de 10% das inscrições do PMV vieram do Rio de Janeiro

Estou aguardando dados de inscrições da organização do Prêmio Marcantonio Vilaça para continuar o debate acalorado – e rico – provocado pelo post anterior (aqui).

Mas algumas coisas já podem ser ditas, outras reafirmadas.

– O Marcantonio Vilaça chega à sua 4a edição como um patrimônio do meio de arte e precisa ser reconhecido e preservado. Mas, como qualquer iniciativa, pode ser aprimorado à medida que os anos passam.

– Continuo achando que há uma desproporcionalidade geográfica e de qualidade entre os selecionados. No entanto, a partir da discussão travada com interlocutores no post anterior, percebo agora que, mais do que uma eventual preferência do júri – que também pode ter pesado -, um conjunto de outros fatores colabora de maneira crucial para distorções e desigualdades.

E o que mais faz falta?

Um melhor método para avaliar portfolios e acompanhar os artistas

Em tempos de internet, o PMV ainda recebe cópias impressas, que não contemplam, por exemplo, obras em vídeo. Estas cópias, com custos de impressão que podem chegar a R$ 150 ou R$ 200, são enviadas pelo Correio e os artistas arcam com custos de ida e volta.  Além disso, como um artista pode ter a garantia de que se expressou bem em 15 imagens e poucas páginas? “Profissionalização” é burocratização? Há formas de melhorar?

Como possibilitar que críticos e curadores acompanhem de maneira mais eficiente o que não acontece em sua cidade e seu estado?

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A internet me parece ser a melhor resposta para tudo. Mas é preciso um estudo aprofundado – não só desta parte do modelo do prêmio, mas do modo como estamos nos posicionando no mercado de arte.

Mas a comunicação virtual sem dúvida pode ser um caminho. Para os artistas,  a web seria a oportunidade de enviar todos os links possíveis para fotos, textos, vídeos. Para a organização, a rede pode significar a oportunidade de um trabalho institucional mais direto e eficaz com os artistas, sem tantos filtros do mercado.  Acredito de fato que é um caminho de ida e volta. Não basta os artistas terem mais facilidades. O PMV pode passar a usar a rede como estratégia de guerrilha, no melhor dos sentidos, para comunicar melhor seus critérios, o que espera dos inscritos, democratizando e fortalecendo sua linha de atuação.

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Ah, antes que eu me esqueça:

O Rio perdeu por W.O.

Em nenhum momento meu post anterior foi uma defesa bairrista do Rio de Janeiro, mas, como artistas cariocas se manifestaram de forma dolorida, acho interessante um dado estatístico. Ainda não tenho o número preciso, mas menos de 10%  das inscrições do PMV vieram de artistas do estado do Rio de Janeiro. Houve massa majoritária de portfolios vindos de São Paulo, como eu cheguei a suspeitar no início do texto anterior. O estado do Paraná teve mais inscritos que o Rio.

Não dá então para os artistas cariocas reclamarem se não vão às armas e não dão a cara à tapa, certo?

O fato de haver só 10% de inscritos do Rio diminui o impacto do estado, é fato, mas não exime o PMV de ter deixado de fora alguns excelentes artistas inscritos. Volume ajuda, mas havia nomes excepcionais entre os portfolios enviados daqui.

E ainda que houvesse apenas um inscrito do Rio e ele fosse excelente. Não entraria pelo fato de ter havido poucas inscrições do estado?

Marcone Moreira, de Marabá-PA, é um artista excepcional, por sua obra e por todo trabalho que desenvolve em sua cidade. Houve quantos inscritos do Pará? O portfolio do Marcone seria um modelo para os outros?

Não baterei nesta técnica geográfica, a não ser por um senão no próximo tópico.

O importante, a partir de agora, é que a discussão ficou mais ampla.

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Minas

E, para que eu não fale só do Rio: Cinthia Marcelle e Matheus Rocha Pitta se inscreveram. Ambos mineiros, ela residente em SP, ele no Rio.  Eles tiveram um ano espetacular em  2010 e, mais do que isso, têm uma trajetória consistente, parruda.

Será que eles não souberam apresentar seus portfolios? O que é, exatamente, um bom portfolio?

Há algo na carreira destes artistas que possa ser esmiuçado de forma metódica num portfolio?

Não existe outra forma de acessar a obra? A informação de fato não circula a ponto de os críticos e curadores que são jurados saberem quem são Marcone Moreira ou Cinthia Marcelle – e o que fizeram e fazem até hoje?

Voltamos à questão central, certo?

É o método de seleção que precisa mudar, em todos os salões e prêmios deste Brasilzão. Mas, para isso, é preciso que haja formas mais eficientes na circulação da informação e no diálogo entre críticos e artistas. Para haver o reconhecimento do talento na hora de um concurso, é preciso que haja antes o reconhecimento de fato, homem a homem, obra a obra.

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Crítico não é RH

É preciso que eu e  meus colegas críticos e curadores puxemos uma reflexão profunda sobre este método “curricular” para  se conhecer e reconhecer um artista. Não há outras formas de acompanhamento e monitoramento? Arte é como empresa e júri é departamento de RH?

Isso não tem nada a ver com o Marcantonio Vilaça, vejam bem. É algo muito, mas muito mais profundo mesmo.

Cabe a nós, que estamos na fogueira, a tentativa de propor novas formas de entendimento e seleção para as instituições e iniciativas privadas.

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Voltamos ao PMV em breve, assim que o blog tiver mais informações. Até.

+++

P.S. Os artistas do Rio alegam desânimo para se inscrever nos salões e prêmios por causa das “cartas marcadas”. Sua participação minguada daqui a pouco vai começar a justificar o rótulo maldoso de que nos tornamos apenas um “balneário”.  Eu não aceito a etiqueta, portanto rogo a meus conterrâneos que façam sua obra circular, não só nestes concursos, mas também em circuitos institucionais alternativos em outros estados. Vivemos em uma cidade riquíssima, com artistas maravilhosos. Façam-se ver.

10 thoughts on “+ Marcantonio Vilaça

  1. Olá Daniela e demais colegas,
    Dando uma espiada por aqui! O assunto em questão é muito interessante!
    Legal e muito sérias as colocações de todos os artistas.
    Apesar de estar envolvido com as artes há muitos anos, só vim participar de um Salão tão disputado agora.
    Estou entre os participantes não selecionados e aqueles com mais idade, senão o mais velho, rs…
    Com relação aos jurados; Em qualquer Salão de Artes, penso que devem se atentar tão somente aos trabalhos dos artistas, independente de qual região se originam/ moram e descartarem qualquer outros fatores, como alguns citados pelos colegas.
    Como sou novato, fiquei curioso em saber se os jurados levam em conta alguns quesitos. Não sei se você ou alguém mais familiarizado pode me dizer;
    1) Idade do artista.
    2) Estudo em Faculdade de Artes
    3) Exposições Individuais (quantidade e locais)
    4) Em relação as obras, se levam em conta “modismos”
    5) Artistas filiados a galerias importantes do circuito

    Sempre procurei pintar somente aquilo que me satisfaz. Passei do figurativo ao abstrato informal e é isso que me da prazer no momento.
    Será que o artista deve mudar seus trabalhos e pensamentos em relação as Artes para participar dos próximos salões ou mesmo desistir por não estar “enquadrado” ???
    (frustrante…)

    Abçs

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  2. Oi Daniela, apesar de considerar muitos dos artistas escolhidos maravilhosos, assim como são tantos outros que não foram selecionados, penso que … o bairrismo é o Ó! Apequena. Nas seleções, qualquer delas, só muda a panela, falando daqui (Brasil) é assim mesmo, sempre assim, uma pena! E quando se sai dos grandes centros, aí é que a coisa piora e ganha ares de revanchismo … quando muda o júri, muda a panela, só isso … e ao menos isso! Faz-se o que?
    Mas aqui cabe perguntar quem escolhe o júri? E porque esse ou aquele membro? Quais interesses estão por trás das escolhas? Acho que são vários, não tenho dúvida, há uma teia de interesses e relações, desde os afetivos aos econômicos (galerias, colecionadores, curadores e também os artistas), e há ainda vaidades e disputa de poder.
    Penso que os prêmios e seleções deveriam divulgar com antecipação o jurado e os critérios, assim, caso o artista não faça parte dessa rede de relações (panela), poderia optar por não gastar a toa seu tempo e dinheiro para enviar portfólios, com poucas chances de êxito. Penso que o motivo de não divulgarem com antecedência esses dados do jogo é querer divulgar grande número de inscritos como sendo uma marca de sucesso, ou seja, olha quantos gostariam de estar aqui! Isso é chato, usar artistas para fazer número! Muitos produzem fora desse jogo marcado, e vão construindo novos caminhos, novos modos de produção e difusão, haja vista a queda no número de inscrição!
    bjos

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  3. dani querida,

    estou acompnhando seu debate….

    Se servir de ajuda a nivel de informação, quando morei em NY, e estava trabalhando no PS1 e vi como se deu o processo, posso te dizer que na greater NY, uma expo para lançar novos artistas, nenhum deles foi selecionado sem que 3 dos curadores conhecessem ao vivo o trabalho do artista. quando não conheciam eles marcavam a visita e iam conversar com ele. a outra coisa foi que o comite de seleção tinha umas 8 pessoas…. somente na area de NY havia bem mais que 500 portfolios…

    Um outro dado é que o mesmo ocorre com os curadores dos 2 museus… inclusive os diretores do PS1 e do MoMA. Eles estavam sempre viajando e visitando ateliê de artistas.
    Tem uma artista inclusive que se chama dana schutz, que hoje está indo muito bem, que foi o Glenn Lowry, diretor do MoMA que foi ao ateliê dela visitar quando ela ainda fazia mestrado na columbia.

    Isso me surpreendeu pq, eu pensei, puxa o diretor do MoMA, que deve ter um milhão de coisas na agenda, visita ateliê de artista tão jovem? mas sim ele visita sempre… e o mesmo acontecia com a Alanna Heiss diretora do PS1 na época que eu estava lá. Viajava pelo mundo todo… visitando ateliê de artistas…. buscando aqueles jovens e os que não estavam sob os holofotes…

    é claro que as conjunturas são bem diferentes, mas penso que essa deveria ser mais a atitude em caso de seleções, e devia ser uma prática mais geral…. que seja feito o possivel para que se conheça ao vivo o trabalho dos artistas, e isso implica em que o curador esteja constantemente indo fazer as visitas. O Rumos é assim. São extremamente profissionais. Fiquei muitissimo bem impressionada com o trabalho e feliz de ter participado em algo tão bem organizado.

    sobre rio e sp, acho que grandes centros tem a tendência natural a concentrar mais artistas e movimentação cultural…. isso claro não é razão para se deixar de lado outras áreas, mas de alguma forma as coisas vão sempre girar em torno dos grandes centros…. às veses é legal também ser off broadway🙂

    uma coisa… eu mandei meu portfolio todo em cd. achei que a essa altura do campeonato como é que o PMV não receberia algo no formato digital… liguei para obter informção pois no CCSP eles tinham no edital portfolio em papel, e quando liguei me disseram que poderia enviar tudo por cd.
    E impressão de fotos do meu trabalho é a maior dor de cabeça!!!! digital é 1 milhão de vezes melhor, pois com boa resolução dá para ver mais detalhes etc… que é muito importante no meu caso…

    beijos e muito legal vc levantar o debate. acho diálogo sempre positivo

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    1. Pois é, Jaque. Precisamos ver os trabalhos e saber quem são as pessoas que estão nos propondo projetos… Não sei como resolver isso, mas vale o debate. Beijos.

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  4. Oi Daniela, continuando o diálogo do post anterior, o que fica claro é que falta uma iniciativa que reconheça todos os artistas, não só os ganhadores dos prêmios. O que fica mais claro é que não conhecemos a produção que está ainda fora do circuito.

    Seria interessante pensarmos não em prêmios para uns e outros, mas em iniciativas que nos mostrassem a produção brasileira em geral. Os nomes dos “30” já são em boa parte conhecidos. E os outros 400 e pouco? Seria tão legal ver a produção em geral. O que acaba acontecendo é a desconfiaça na instituição dos prêmios, fruto da falta de transparência e na inevitável elitização que se deduz de listas em que os artistas já estão plenamente institucionalizados antes de premiados.

    Sabemos que os caminhos da “arte brasileira” já são coloquialmente internacionais. É preciso que a produção – indepedentemente de critérios de “qualidade” – seja amplamente vista e revista, essa que obviamente ultrapassa o que pode ser acomodado na presença física das instituições. Só assim teremos idéia do que acontece fora do “grande circuito sudeste” (inevitavelmente) dominado por São Paulo, com o seu maior número proporcional de artistas e de instituições.

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  5. Acho que devemos pensar em um premio pró-cultura.
    Este premio serviria para artistas, curadores, criticos, ou agentes culturais que se destacaram durante o ano (ou durante a vida) a se dedicar e a se empenhar em fazer algo a mais pelo nosso brasil tão carente.
    Tipo aquele premio trip transformadores……..

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  6. Muito bom, Dani.

    Nos últimos anos temos visto uma profissionalização forçada do meio de arte e achei louvável o que disse: “Arte é como empresa e júri é departamento de RH?”. Devemos nos unir, exigirmos o que é nosso por direito, e fazermos valer nossas carreiras e vontades como artistas. E sim fazermos um trabalho cada vez mais profissional para que possamos ser reconhecidos aqui e lá fora. Mas nã podemos nos engessar, tneho sentido muito isso vindo de todos os lados para os quais olho. “Encaretamento” não dá né? Nós somos, justamente, os que tem que olhar de maneira diferente para aquilo que nos cerca e refletirmos de maeira crítica sobre tal. Se o “modus operandi” fica burocrático e engessado, é melhor pararmos e sermos logo advogados de uma vez.

    Mando bem mesmo! Abaixo a caretice!

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