Tatiana Grinberg no Bazzar em Giz

(E o pedido de licença para uma crônica doméstica)

A nova edição do Bazzar em Giz, no restaurante Bazzar, em Ipanema, recebe hoje, quinta-feira, daqui a pouquinho – a partir das 19h – exposição e projetos da artista Tatiana Grinberg. Assim como nas edições anteriores do projeto, criado pelo artista Marcos Chaves, Tatiana passou por um processo de várias etapas, em que foram escolhidos desenhos para aplicação nos jogos americanos do restaurante e em um painel da casa. Rever a obra da artista em um contexto “gastronômico”, mais próximo do cotidiano do que aquele das galerias e museus, foi como mordiscar minha própria madeleine.

E é por isso peço licença para minha crônica mais do que pessoal, que segue abaixo.

+++

No início da minha vida adulta, morei em uma casa que não era exatamente minha e que eu adorava em todos os detalhes. Móveis, luminárias e até o azulejo antigo do banheiro, de um azul-verde inclassificável, soavam perfeitos para mim. Eu usufruía daquele pequeno apartamento no Flamengo enquanto seu dono, um enorme afeto, cumpria uma bolsa-sanduíche de Doutorado na Europa. Dentre as peças que eu mais amava havia uma gravura de Tatiana Grinberg, única coisa que mudei de lugar, para que pudesse ficar olhando para ela toda vez  que me sentasse no sofá.

Aquele trabalho nunca saiu da minha cabeça. Mais tarde,  já como repórter de artes visuais do Globo, descobri que o dono do apê, que havia sido meu professor, também dera aulas de Geografia para Tatiana em outro colégio.

Ok, a esta altura vocês já têm todo o direito de se perguntarem o que têm a ver com isso. Respondo: nada ou quase nada, não fosse a artista e sua gravura, obra de início de carreira, uma das provas cabais, pelo menos na minha história, de que a arte pode ser uma conquista cotidiana, que não passa necessariamente pelo intelecto.  Conclusão preciosa, não?

Graças à gravura, hoje percebo que sou ligada à obra da Tatiana de um modo familiar, íntimo, doméstico. Mesmo quando passo tempos sem conversar com ela ou sem me debruçar sobre sua produção recente, reencontro seu traço vivíssimo dentro da minha retina, ricocheteando feliz da vida entre meus neurônios, toda vez que me ponho diante de um trabalho seu.

Foi assim há poucos dias, quando ela me mandou por e.mail a imagem que deu início ao seu processo de trabalho neste lindo projeto que Marcos Chaves desenvolve no Bazzar. Muitos podem achar absurda a ideia de se levar arte para um restaurante, mas eu, que não poderei estar com eles hoje, brindarei à ideia mais tarde, mesmo que vá ao Bazzar sozinha.

Antes de admirar a obra de Tatiana, torço para que o traço dela faça com os clientes do restaurante o que um dia fez por mim. Que a arte chegue neles assim, despretensiosa. Mas que se ancore na memória como o sabor inesquecível de uma comidinha bem feita.

8 thoughts on “Tatiana Grinberg no Bazzar em Giz

  1. Que bonito relato Daniela,
    uma intimidade forte com a obra, longe do intelecto… uma simplicidade encantadora nas relações… não conheço o trabalho da Tatiana, mas fiquei entusiasmado com as tuas palavras… e que bacana o projeto do M Chaves no Bazzar, a diversidade de espaços e meios de exibição da produção artística são sempre bem vindas!
    parei nesse post por sorte (vim através do texto do PMV), voltarei sempre!

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  2. Daniela, foi um grande prazer ler seu depoimento. Pra nós do Bazzar, é um delícia conviver, apoiar e aprender com os artistas do projeto. As ânforas de Tatiana são mais inebriantes que os vinhos da casa.
    Começamos com o Bazzar em Giz e agora, a próxima etapa do projeto, é o Bazzar em Foto. Arte é Arte. Quanto mais próxima, melhor.

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    1. Oi, Cris!

      Que legal vc no blog! Queria te parabenizar pelo projeto e também pela participação do Bazzar nas redes sociais, inclusive em algumas pouco conhecidas ainda dos brasileiros, caso da Foodspotting. Acredito que isso já não é mais futuro, é a comunicação do presente. Nós é que ainda não nos demos conta.

      Que legal que um lugar tão bacana como o Bazzar já está apostando alto nesta forma de comunicação direta com seus clientes e parceiros.

      beijos, obrigada e parabéns!

      obs. Devo uma visita e estou marcando com a Tati.

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  3. oi dani,
    só hoje passei por aqui pelo seu blog.
    ler você contando sobre a sua relação com a minha gravura fez eu me dobrar sobre a minha história.
    também tive a chance de conviver de maneira muito íntima com gravuras, minha família não era de artistas, mas na casa dos meus pais tinha várias gravuras. e o meu avô, que era meedico, era amigo do iberê e tinha alguns quadros e gravuras dele em casa além de gravuras da fayga, pinturas da djanira, esculturas do bruno giorgio – me lembro de ter ido com ele uma vez na rio-teresópolis levar uma escultura para ser fundida. e na minha memória de criança, vovô tinha algumas gravuras do goeldi e do leskoschek também, que mais tarde, adolescente, descobri serem reproduções de gravuras que ele tinha emoldurado do jeito dele – imagens que habitaram minha infância.
    esse contato íntimo e a percepção da importância que tinham no ambiente das casas, ambas ótimos exemplos de arquitetura, foram fundamentais depois na minha formação, que começou super cedo, aos 12 para 13 anos de idade no atelier de gravura da puc/rj sob orientação da lena bergstein. a gravura que você conhece foi a minha segunda, ou terceira, em metal, feita no atelier da lena. deve ter sido em 1982. ela reproduz um desenho que eu tinha feito para o cenário da peça morte e vida severina, encenada no colégio são vicente de paulo no final de 1981.
    quando fui convidada pelo marcos, fui visitar o bazzar num dia à tarde. tirei fotos, peguei uns jogos americanos e comecei a pensar no projeto trazendo a ideia de dividir com os clientes não só a imagem no painel, mas também um pouquinho do processo de criação, mostrando as relações entre um desenho escolhido na visita do marcos ao atelier, que reproduzimos reduzido no convite, com o projeto feito especificamente para aquele espaço levando em conta a conversa que tivemos e a escala do painel. o mais bacana é que nem o projeto, desenhado sobre o jogo americano, é igual ao painel. na hora do embate concreto, ali sobre o mezzanino curto, sem espaço para distanciamento necessário à apreensão do trabalho como um todo pelo olhar, com o giz tão próximo ao corpo dividindo aquele espaço raso com o medo de cair, o projeto foi mudando. assim como foi mudando minha noção de espaço, minha segurança em relação aos limites, as invenções para vencê-los, que podem ser lidas nas imagens do making of, nas telinha em cada mesa do restaurante.
    a vernissage foi ótima, comida maravilhosa, papos animados. senti sua falta, mas foram muitos amigos muito queridos, também fui apresentada a novos amigos. e foi bacana ver o pessoal saindo, levando o convites, jogos americanos – me lembrei da reprodução pendurada na parede, no tanto que uma imagem impressa, um texto curto vão falando para gente, disseminando ideias e reverberando os neurônios. levando o gostinho do convívio íntimo com arte.

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    1. Tati,

      Sei que estou em falta – com você e com uma lista enorme de gente. Mas, depois que passou o Abre Alas, precisei mergulhar na dissertação, porque tenho que entregar material nesta terça para a defesa finalmente sair este ano. Vc sabe que esta retomada foi um exercício de fôlego e de reengenharia da minha vida, né?

      Passada esta semana, queria muito te ver para tomarmos uma água de coco, que tal? Depois podíamos encerrar com o café no Bazzar e poderíamos nos atualizar de nossas vidas. Quero ver seu trabalho de novo, estar mais próxima. Afinal, vc é parte de minha história – pelo apê do Serginho (outro que vejo quase nunca) e por tudo o que vivi depois como jornalista.

      A partir da oooooutra semana, depois do lançamento do catálogo do Abre Alas (sábado, 19), vou ser um ser humano u pouco mais normal. Que tal?

      Beijos.

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  4. Também acho que não há nada de absurdo em se levar arte contemporânea para um restaurante. PELO CONTRÁRIO!
    O distanciamente do grande público em relação à arte em geral, contemporânea em particular, é em boa parte culpa do sistema educacional (ou a falta de) em nosso país. Mas em outra boa parte, é culpa nossa, artistas e pensadores de arte, que às vezes ficamos presos a purismos de apresentação em cubos brancos ou off-white, e talvez achemos perda de tempo, ou inapropriado, pensar mostrar trabalhos em espaços diferentes. Como restaurantes. Como lojas de móveis. Estes dias mesmo o Marcelo Campos desenhou uma curadoria com 5 artistas (curadoria da qual tive a felicidades de participar), em parceria com a Belvedere, para uma loja de móveis de design que está para ser inaugurada em Ipanema.
    E durante a montagem dos trabalhos, eu conversava com os artistas que é muito importante ações como estas, fora do espaço protegido ou “limpo”, ações que cumprem um papel didático, de mostrar para um público que talvez passe longe das exposições de (boa) arte que o que fazemos pode muito bem conviver com suas vidas, com suas casas até!
    E “ter medo” ou preconceito com os espaços “estranhos”, justo nós, herdeiros de uma vasta experiência artística já há muitas décadas, que levou a arte para os lugares mais impensáveis antes.
    Façamos projetos para restaurantes, lojas, bibliotecas, etc etc etc!!!
    abraços
    Fábio

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