Estrela solitária no design

Nem o vacilo do Botafogo contra o Macaé, deixando a liderança do Grupo B escapar fácil para o Fluminense (o tricolor nem tanto, mas Rafael Moura mereceu roubá-la, pelo conjunto da obra), me impede de comemorar a ida do Glorioso para as semifinais da Taça Guanabara. O jogo foi uma pelada: Joel errou demais na prancheta, Arévalo para mim é palavrão e vou criar a comunidade “Eu tenho medo do João Felipe”.

Apesar disso, reafirmo meu orgulho alvinegro.

Com respeito, mas sem medo algum do Flamengo, conto a bela história a seguir para iluminar nosso próximo confronto.

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O cartaz aí em cima, criado pelo brasileiro Bruno Porto, faz parte de uma exposição que reúne 20 designers do mundo todo na Galería Venezoelana de Diseño, em Caracas. Os participantes de Señales de evolución deveriam apresentar para a mostra sua interpretação para trabalhos de design que remodelassem com êxito logomarcas e símbolos de uma instituição ou produto.

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Botafoguense e hoje vivendo em Xangai, Bruno Porto se debruçou sobre o momento de fusão entre o Clube de Regatas Botafogo e o Botafogo Football Club, em 8 de dezembro de 1942. O Botafogo Futebol e Regatas nasceria sob as bênçãos de Nossa Senhora da Conceição/Oxum, cuja festa é comemorada neste dia. E ganharia um escudo com referência à história do lado aquático deste “casamento”.

Como nos conta o jornalista Sergio Augusto em seu livro Botafogo: entre o céu e o inferno (Ediouro, 2004), a estrela solitária no fundo preto fazia uma referência a Vênus – poeticamente chamada de Estrela d’Alva – único ponto de luz no céu da madrugada quando os remadores se preparavam para começar a treinar.  No cartaz, dá para notar que a marca do Clube de Regatas, fundado em 1894, já trazia uma estrelinha. No momento em que o escudo foi repensado, levou-se em consideração o rastro deixado pelo passado das duas metades do novo clube.

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Em design, o respeito a esta relação com a memória é a chave para “a estrada de louros”, o “facho de luz”. A estrela solitária conduz o escudo botafoguense para a vitória. Ela tem muitas qualidades gráficas: vinculada simbolicamente à história daquilo que representa, é sintética e MUITO mais clara que o emaranhado de letras, comum entre o fim do século XIX e o início do século XX… E mantido pela maioria absoluta dos clubes brasileiros até hoje.

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Alguns times modernizaram suas tipologias, caso do Santos, do Atlético Mineiro e do Internacional, mas raros são os escudos que investem apenas na imagem como forma de comunicação. O Vasco da Gama chega quase lá, mas com um  excesso de informações que confunde muito mais do que ajuda, perpetuando esta identidade difusa no uniforme e nas bandeiras do clube. A imagem da caravela se mistura com letras, herança de escudos anteriores. O clube não conseguiu fazer da cruz de Malta seu símbolo, sua síntese.

Não conheço todos os escudos de clubes brasileiros, é claro, mas de cabeça me ocorre apenas um outro exemplo de escudo-imagem, a cruz verde da Portuguesa, de São Paulo, muito distante da elegância e do “poder de chegada” da estrela alvinegra.

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Apesar de ter letras em seu escudo, o Cruzeiro poderia ser o exemplo mais próximo do Botafogo no que diz respeito a uma identidade visual integrada, não fosse o azul de seu pavilhão diretamente relacionado à Azurra, e não ao céu do Cruzeiro do Sul. O time mineiro começou sua história chamando-se Palestra Itália e totalmente ligado à colônia italiana em Minas Gerais.

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O Palmeiras, aliás, também chamava-se Palestra Itália, nome que resiste até hoje no estádio do clube. Mudou-o durante a Segunda Guerra, quando o Brasil declarou-se contra as forças do Eixo. A transformação em Sociedade Esportiva Palmeiras foi oportuna, já que a árvore preservava a inicial “P”, a esta altura símbolo do Palestra, e criava uma nova relação com o verde da bandeira carcamana. Seria até um bom exemplo de time coerente visualmente, com o pecado grave da atual camisa amarelo-limão.

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Histórias curiosas, mas sem o poder da estrela branca sobre o fundo negro em termos gráficos. A logo-escudo do Botafogo já teve seus méritos reconhecidos por um colegiado misto, com profissionais torcedores de muitos outros times. Em 1998, estava na lista dos “50 melhores projetos brasileiros do século XX”, eleita pela Associação de Designers Gráficos do Brasil (ADG).

Estrela e, de fato, solitária: nenhum outro símbolo de clube brasileiro foi lembrado por sua excelência.

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Ah, mas precisamos voltar ao cartaz de Bruno Porto.

O designer está chegando ao Brasil ainda este mês e estuda com a diretoria do clube a transformação de sua obra em uma serigrafia com tiragem limitada, impressa em prata e preto. A venda daria início às comemorações pelos 70 anos da estrela solitária, em 2012. E fortaleceria os já bem sucedidas programas de adesão e autoestima promovidos pela ótima diretoria que o Glorioso tem atualmente, caso do Sou Botafogo.

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Deixo desde já a minha serigrafia reservada. Se eu puder comprar, dentro dos exemplares da série,  o marcado com o número 7, de Garrincha; ou o 13, de El Loco; ou sobretudo o 6, do querido Nilton Santos…

Aí mesmo é que vou para o céu.

Estrelado, naturalmente.

 

5 thoughts on “Estrela solitária no design

  1. Olá, Dani,
    A marca do Botafogo é perfeita, mantém sua legibilidade reduzida, invertida, em negativo. É um simbolo gráfico perfeito🙂
    Andei conversando com o Bruno Porto, há planos alvinegros mais legais a caminho..
    Saudações alvinegras!

    Gostar

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