Marcantonio Vilaça por Estado

Detalhe de uma cena do filme “Afogando em números”, de Peter Greenaway

O Rio participou, sim

Rio teve 19,68% dos incritos e foi o segundo Estado mais participativo

São Paulo, líder, teve 34,84% das inscrições

A organização do Prêmio Marcantonio Vilaça liberou para o blog a quantidade de inscrições por Estado. Nos textos anteriores, primeiro criticamos a desproporção de paulistas (leia aqui). Mais tarde, relativizamos a questão (leia aqui), em nome de um debate mais amplo sobre o conhecimento e o reconhecimento entre artistas, críticos e curadores – que continua sendo o maior foco de interesse desta pagineta virtual.

Mas recuamos um pouco também porque havia a informação não-oficial de que a primazia de São Paulo seria explicada pelo fato de o Estado ter  quase metade das inscrições. Neste mesmo momento, houve também o dado, igualmente informal, de que o Rio de Janeiro não teria participado do concurso e teria um número de inscritos menor do que o do Paraná, somando um correspondente a menos de 10% do total.

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Mergulhemos nos números: eles mostram que os dados anteriores informais não procedem. Na lista abaixo, agora com a quantidade oficial de inscrições por estado, vemos que o Rio foi o segundo a mandar mais portfolios, 100 no total de 508 candidatos, ficando atrás apenas de São Paulo, que aparece com quase o dobro, 177 inscritos, mas longe de chegar a 50% do total das inscrições. Minas Gerais teve 63 candidatos e foi o terceiro mais ativo. Se o lugar de nascimento dos candidatos tiver sido a referência, Cinthia Marcelle e Matheus Rocha Pitta, citados nos posts anteriores como bons artistas não-cariocas fora da disputa, estariam neste contingente. Cadu, um dos dois cariocas selecionados,  é um artista do Rio, sem sombra de dúvidas. Mas nasceu em São Paulo, e talvez seu portfolio esteja sendo contado no percentual paulista…

O Pará, que teve um (excelente) artista indicado entre os 30 pré-selecionados – Marcone Moreira, de Marabá – mandou apenas 6 inscrições.

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É claro que a quantidade de inscritos não é um critério de seleção no Marcantonio Vilaça. O que importa é a qualidade dos portfolios e a carreira dos artistas que se dispõem a enfrentar a “peneira”. O volume de participação, no entanto, havia sido usado como justificativa especificamente em relação ao Rio, a ponto deste blog publicar os argumentos informais da organização – e defendê-los.

Direcionar a discussão para a quantidade evita que se enfrente uma questão difícil. A constatação de que o júri avaliou que, entre os 100 portfolios enviados pelo Rio só havia dois – os de Cadu e Vicente de Mello – que mereciam estar na seleção final por mérito. Outra contraprova complicada é admitir que, entre os 20 “paulistas”, todos têm uma obra superior/mais consistente/ mais sedutora que as dos 98 fluminenses restantes; assim como as dos 63 artistas mineiros que se dispuseram a entrar na peleja.

Por todas as vias de argumentação – quantidade, qualidade, diversidade – a lista continua desequilibrada.

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Melhor assumir, talvez, que a escolha é subjetiva e prevaleceu a vontade do júri. Ponto.

Se os jurados fossem outros, a lista seria outra. Erguemos com isso um telhado de vidro, mas evitamos taxar os artistas do Rio ou de qualquer outra parte como pouco participativos – ou, o que é pior, como ruins mesmo, já que eles de fato participaram, em quantidade, e não foram selecionados.

A desqualificação dos candidatos – cariocas ou de qualquer outra parte – é que não pode acontecer, porque é desrespeitosa.

Assumida a escolha subjetiva do júri, podemos encontrar um primeiro caminho para 2012. Talvez um cuidado a mais na hora de selecionar os críticos e curadores que vão compor esta junta. Além de seu currículo e sua idoneidade, inquestionáveis nesta e em outras edições, é preciso ver se, embora venham de lugares diferentes do Brasil, estão de fato circulando em lugares diversos.

As qualidades individuais de cada um devem ser contrapontos para as dos demais, porque sabemos que um crítico, além de ter uma área de ênfase em termos geográficos, também direciona seu olhar com mais interesse para determinados tipos de produção do que para outros. Há alguns que valorizam a construção um pouco mais cerebral dos trabalhos, outros que se abrem para experiências com o corpo e a memória com mais facilidade. Uma mistura de fato heterogênea é importante, porque haverá um reflexo dela na lista de pré-seleção.

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Não estamos defendendo aqui uma política de cotas e nem de regionalização.  O discurso não é o do bairrismo e sim o da pluralidade. Há artistas de qualidade em toda parte.

Se hoje São Paulo sem dúvida concentra o mercado e muito da produção nacional – com excelentes núcleos fora da capital, em cidades como Campinas e Ribeirão Preto – o Rio ainda é um estado de produção proeminente e vivíssima, embora esteja desorganizado e abandonado institucionalmente há alguns anos. A projeção de novos talentos para a cena brasileira também ocorre em Minas Gerais, Pernambuco e Rio Grande do Sul, entre outros lugares deste país.

Por fim, se há o argumento de que alguns portfolios de bons artistas são mal feitos, o que está errado é o portfolio ser o espelho de uma suposta eficácia profissional quando se trata de algo tão inclassificável e por vezes indescritível como a arte. E não os artistas e suas obras maravilhosas.

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Resumindo, voltamos ao começo:

1) 2/3 para SP na lista de pré-selecionados foi demais;

2) O portfolio, principalmente como é pedido hoje, talvez não seja a única e nem a melhor forma de avaliação de um artista.

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Em tempo: agradeço a todos os artistas e outros leitores que têm postado comentários, todos sempre de alto nível e sem ofensas. Mantenhamos este ritmo e só teremos a ganhar. O Marcantonio Vilaça é uma excelente iniciativa e merece respeito. Eventuais distorções e erros acontecem em todo grande feito, e estamos aqui para apontar falhas, eventualmente, mas sobretudo para sugerir caminhos.

 

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Inscrições por ESTADO – 4ª edição do Prêmio Marcantonio Vilaça:

Acre – 2

Amazonas – 2

Bahia – 6

Ceará – 8

Distrito Federal – 15

Espírito Santo – 11

Goiás – 8

Maranhão – 1

Mato Grosso – 3

Minas Gerais – 63

Pará – 6

Paraíba – 5

Paraná – 35

Pernambuco – 14

Rio de Janeiro – 100 (79 na capital e 21 em outras cidades)

Rio Grande do Norte – 3

Rio Grande do Sul – 24

Rondônia – 3

Roraima – 2

Santa Catarina – 15

Sergipe – 2

São Paulo – 177 (145 na capital e 32 em outras cidades)

Tocantins – 3

Não houve inscritos de Alagoas, Amapá, Mato Grosso do Sul e  Piauí.

Total  de inscritos: 508

3 thoughts on “Marcantonio Vilaça por Estado

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