Mudança de pele*

"lambe lambe troca troca" na galeria do Espaço Cultural Sergio Porto

Em Eros e Psique, Fernando Pessoa “conta a lenda que dormia/ Uma Princesa encantada/ A quem só despertaria/ Um Infante, que viria/Do além do muro da estrada”. Narra o sono profundo desta bela adormecida, sonhando com alguém que nem sabe quem é. E mostra como o bravo cavaleiro enfrenta o duro caminho a torre, onde  “encontra a hera,/ E vê que ele mesmo era/ A Princesa que dormia”. Eu sou o outro e o outro sou eu, parece dizer o poeta português, que se travestiu de tantos heterônimos, tantas identidades. O mesmo nos afirma a obra do jovem artista carioca Daniel Toledo.

Em lambe lambe troca troca (2010), exposição realizada recentemente no Espaço Cultural Sérgio Porto, no Rio de Janeiro, o artista fazia uma síntese de vários trabalhos anteriores ao transformar a galeria em uma sucessão de muros, onde se via o próprio Toledo, alguns de seus companheiros no coletivo OPAVIVARÁ! e outros nomes da cena contemporânea do Rio intercambiando peças de roupa, como se estivessem numa ciranda infinita, ou numa brincadeira de “Escravos de Jó”.

"Interditados em Paris": "roupas" para as esculturas clássicas nuas

A roupa – pele cultural inventada para se sobrepor à pele real, revestimento do corpo – há muito percorre a trajetória de Toledo.  Em 2008, com o trabalho Interditados em Paris, o artista revestiu estátuas clássicas do École de Beaux Arts, na capital francesa, com plástico vermelho e branco, criando para as obras – todas mostravam corpos nus – uma vestimenta inusitada, imaginária. Este ruído, presença contemporânea em obra de outro tempo, seria revisitado no Rio, onde ele fez a performance Cabeção interditado (2009), em que cobria com faixas usadas para isolar áreas em construção o busto gigantesco do ex-ditador brasileiro Getúlio Vargas, instalado no memorial dedicado a ele no bairro da Glória.  A roupa voltaria com força ainda em veste nu (2010), macacões em que o artista imprimia a fotografia do próprio corpo e o da artista Ana Hupe completamente despidos. A conclusão do trabalho se dava no momento em que os dois se vestiam da imagem de seus corpos revelados, cobrindo-os com uma nudez ressignificada.

A indumentária é uma das bifurcações da obra de Toledo abarcada por lambe lambe troca troca, mas há outras. O intercâmbio entre eu e o outro, como vimos acima, é a matriz do trabalho do artista, que não por acaso batizou seu blog na internet de homemespelho.

Tal caminho pode ser reforçado e apresentado de muitas maneiras. A roupa é um viés. O retrato e o autorretrato são outros, poderosíssimos. Eles aparecem em homo lundens (2010), totens escultóricos feitos de três cubos cada. Estas peças se encaixam e podem ser trocadas de lugar. Têm todas as laterais revestidas por fotografias de corpos  – empilhados, os cubos se dividem entre cabeça, tronco e pernas. A partir da vontade de quem manipula os cubos, o rosto de um retratado pode ganhar o tronco de outro e as pernas de um terceiro, e assim sucessivamente. Mais uma vez, Toledo está entre os participantes do jogo, demonstrando que a existência – a sua, como artista, mas também a de qualquer ser humano – depende de trocas, contaminações, concessões.

 

"veste nu": nudez de Toledo e Ana Hupe coberta com seus corpos nus

Há ainda três aspectos importantes em lambe lambe troca troca, esta obra para a qual eu também me ofereço à contaminação a fim de poder escrever melhor sobre seu criador. O primeiro é o significado da expressão “lambe lambe”: no Rio, é o nome que damos aos cartazes que anunciam festas e shows e, colados em muros de toda a cidade, viram uma outra pele para a paisagem urbana. Se a pele é um assunto de Toledo, a cidade não pode deixar de ser, não só por suas experiências em trabalhos coletivos, mas também porque uma cidade – qualquer cidade – é sempre um outro para quem vive nela.

O humor é o segundo dos últimos pontos incontornáveis e perpassa toda a obra de Toledo como uma espécie de alavanca e de provocação, como a ponte que se constrói de leve, na maciota, para chegar até o território alheio. Riso é jogo. Sexo também. E aí chegamos ao terceiro ponto: como falar de uma instalação que tem o título lambe lambe troca troca e de uma obra que reúne pele, retratos, roupas e nus sem chegar à libido?

Sexo e desejo são instáveis demais para criar um caminho tranquilo até o outro. Ao destacar o corpo e o jogo, Toledo mostra que as trocas às vezes acontecem sem premeditação, com a força de um tornado que devasta antigas certezas de forma fulminante… E faz com que troquemos roupas, risos, dores, fluidos… Para depois trocar de pele.

* Daniela Name, 2011. Texto escrito para uma candidatura do artista a uma bolsa-residência nos Estados Unidos.

 

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