O ‘bom portfolio’

Ou: uma troca de bilhetes entre Alice Shintani e esta que vos fala

"Éter" (2009), de Alice Shintani: pintura expandida transforma espaço em experiência de luz e cor

“Bom portfolio”: o que é isso, exatamente? Existe aquele que é “bom” pela clareza visual e narrativa, atributos que auxiliam na identificação da qualidade e das características da obra de um artista. Mas esta é a única forma de ser “bom”? Este foi um dos meus questionamentos na série de posts sobre o Prêmio Marcantonio Vilaça este ano. Foi por causa deles que criei o Banco de Portfolios, tateando uma forma de tornar o contato entre artistas e curadores algo mais constante. Pelo menos comigo – comemoro batendo palminhas (clap, clap, clap) – já está funcionando.

Esta foi, também, a inquietação da artista paulista Alice Shintani ao deixar um comentário aqui no blog. Ela cutucou o meu desconforto, o que me fez responder imediatamente. Precisamos ser mais artísticos e menos técnicos nos júris e premiações. Dá para fazer isso? Como? Sintam-se cutucados, também.

Eis nossos bilhetes:

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De Alice para Dani

23/02/2011  – 22:58:42

Querida Dani,

Acho a iniciativa aqui do banco super-louvável, mas juro que queria ver uns portfólios “errados” também.

Eu tenho dúvidas sobre o quanto o artista precisa realmente “mastigar” a apresentação de sua pesquisa numa linguagem que facilite a vida para nós, que nos acostumamos a querer ver o máximo de coisas e a “zapear” rapidamente quando algo está “equivocado” ou dá um pouco mais de trabalho para compreender.

Tudo bem, você quer passar num edital e quer enviar as informações num formato que facilite a vida dos jurados. Mas acho que tem um limite aí nessa facilitação, e que depende da poética particular de cada artista.

A gente fica tão acostumado a essa lógica profissionalizante do mundo corporativo, de objetividade, clareza, coesão, de padronização para facilitar a comparação, avaliação, etc, etc [e fico bem à vontade para falar disso porque venho desse universo], que esquecemos que estamos falando também de arte, de artes visuais, de artistas, e de liberdade.

É claro que gosto de ver “bons portfólios”, mas também adoraria ver aqui uns papéis de pão rabiscados [em pdf!], ou umas coisas muito “erradas”, fora do padrão, e ter que me desdobrar para fazer a minha leitura sobre o trabalho, sobre o artista… E me encher de dúvidas. Algo que considero ser uma experiência diferente de “avaliar”.

+++ +++ +++

De Dani para Alice

24/02/2011 – 7:15:38

Oi, Alice!

Adorei seu comentário. Uma de minhas reflexões quando comecei a analisar o Marcantonio Vilaça este ano foi justamente a questão do portfolio. Não considero que esta “profissionalização” tenha que ser a única regra para se julgar um artista. Ao “subir” os portfolios para o Banco, não estou julgando carreira do artista, trajetória, qualidade dos trabalhos… nada. Estou apenas pedindo que tenha alguma narrativa e os contatos do artista, além de estar no formato PDF, porque, como sou uma só, não consigo dar conta de subir arquivos de formatos diversos. Alguns emails chegam com 8 ou 9 links (!!!). Como postar, né? Mas vou torcer para alguém usar esta “plataforma” para fazer o portfolio em papel de pão, tecido, rabiscado… e ponha seu email e telefone na última página, ou na primeira. heheheheheh

+++ +++ +++

Obs. Ah, Alice tem um “bom portfolio”, em termos técnicos (veja aqui). E uma boa trajetória, inquestionavelmente. Não tive o prazer de conhecê-la ao vivo e em cores, mas há muito acompanho seu trabalho. Sua presença – com o portfolio e com este comentário tão sagaz – engrandece nosso Banco.

3 thoughts on “O ‘bom portfolio’

  1. Daniela Name & Alice Shintani

    Penso que a Narrativa, em Arte, pertence à História.E que não é possível narrar-se o Ato Criativo, sendo dêle a Obra resultante.Que se mostra aberta ao mundo.À espera de significações.

    Talvez, daí, a dificuldade de se dar conta de uma Obra de Arte.Esse dar-se conta necessita, a meu ver, de um espaço em aberto para acontecer.Que, na maior parte das vezes, não encontro muito, nos dias atuais, em textos críticos e curatoriais e tbém em portfolios.

    Porém, aproximações narrativas no sentido desse dar-se conta, são possíveis e bem vindas.Ajudam-nos a tbém vivenciar a Experiência da Arte.Vivida pelos Artistas.Uma experiência, encarnada em Obra, sempre em transformação.E re-significada a cada abordagem.Seja ela de que que ordem for.

    Pois é, Daniela.Muito boa essa troca de bilhetes entre Você e a Alice.E a questão que se colocou.Incomoda-me muito o pretenso saber imediato a respeito de uma Obra de Arte.E tbém a sua apresentação de uma forma “mastigada”.Sempre bom lembrar:Art is Free!

    Abs para as duas.

    Affonso Leitão

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  2. Esse assunto é tão interessante porque reflete um sentimento da inquietação que todos possuimos nos momentos da escolha. Imagino as dificuldades de curadores e responsáveis por selecão de trabalhos em editais… mas todas as expressões da natureza seguem um padrão e tudo o que fazemos ou percebemos é um reflexo disso. Temos a monumental capacidade de transformação e percepção de novos padrões. No último século a matemática evoluiu de tal forma que nos colocou muito rápido em um novo mundo de percepção de padrões. Por exemplo esse meio aqui e agora… cada letra é um número, cada cor é um número, cada traço é um número, cada código e cada um de nós aqui o que somos? Um portfolio em papel de pão seria um maravilhoso novo padrão, poderia até virar moda. O que nos faz, todos artistas, é o espaço vazio entre a percepção e a fórmula, entre a escolha e a certeza. Esse espaço permite a expressão através das palavras, do som, das cores, das formas, no paladar da cozinha ou ao segurar nas mãos de uma outra pessoa… então, minha resposta pra sua pergunta é: Sim, podemos ser mais artísticos, esqueça o menos técnico, a técnica é fundamental em tudo, desde uma obra prima até um pequeno pedaço de papel de pão com duas letras que digam, “sou alguém…”. Como? Sendo capazes de ultrapassar a arte e superar a beleza criada pela mulher ou pelo homem. Só então percebemos o que é absolutamente inexprimível e o último sentimento que nós temos é o da certeza. Um grande beijo.

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  3. Prazada Dani e Alice

    Oportuníssimo a observação e a resposta.Eu tenho enorme dificuldade com essas coisas.Também faço tudo sozinho.Mas acaba saindo.
    Porém dificuldade mesmo são os editais para captação de patrocínios.Meu Deus que é aquilo! É pior, está em minha língua,tenho certeza que está rsrs…
    Mas não entendo nadica de nada.
    Aprovei,no Minc,um projeto para 5 exposições,em nov.2010.O único edital que
    consegui preencher de cabo a rabo,até hoje se quer soube se chegou ao seu destino.Desculpe-me o desabafo.Reitero mais uma vez os meus parabéns à sua iniciativa,Dani.Abraços.Levy Hu

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