Suzana Queiroga e o Complexo da Maré*

"Mapamaré": desenho subjetivo das trilhas das crianças moradoras do Complexo de favelas

Há três espécies de homens: os vivos, os mortos e os que andam no mar.

Platão

 

O encontro entre a obra de Suzana Queiroga e o Complexo de Favelas da Maré começou muito antes de Mapas invisíveis, na exposição “Velofluxo”, que a artista realizou no Museu Chácara do Céu no início de 2009. Crianças do projeto REDES, que une arte e educação na favela, foram visitar a mostra, que trazia a interpretação de Suzana para mapas de cidades como Berlim, Milão, Londres e Brasília. Ao observar o fluxo de cores sugerido pelas ruas, rios, praças e avenidas, as crianças enxergaram a Maré naquele possível espelho.

Um ano depois, elas conheceram Queiroga pessoalmente e viraram suas parceiras: junto com a artista, construíram um dos trabalhos da exposição. Mapamaré é uma imensa rede formada pela sobreposição dos trajetos desses meninos e meninas em um território que ora é familiar, ora é estrangeiro.

 

Vista parcial da Maré em 1971: água e palafitas desapareceriam com os sucessivos aterros

Dividida entre 16 comunidades distintas, controladas por grupos criminosos rivais – não por acaso, a via principal tem o apelido de “Faixa de Gaza” – a Maré impressiona por ter em seus domínios esta “vizinhança distante”. Um morador pode ser muito popular em um dos lados da “faixa”, sobretudo se exercer uma atividade comunitária; e um completo desconhecido no outro lado, mesmo que ele fique a poucos minutos a pé da região onde vive.

As crianças desenharam seus caminhos dentro da favela para chegar até a sala de aula. O mapa comum, pintado em nanquim sobre papel kraft e recortado por Queiroga, significou um reconhecimento de território. Ao construir a Maré – a sua Maré, que era somada à do colega morador de outra comunidade –, cada menino tomou posse de seu mapa e conquistou seu lugar. A experiência se completou com uma troca de visitas: assim como a artista e sua equipe visitaram o Complexo algumas vezes, os alunos e sua professora, Suélen Brito, foram convidados a concluir o trabalho em seu ateliê, em Laranjeiras.

 

"Spin City I" (2007): crianças da Maré enxergaram o lugar onde moram nesta série de pinturas e desenhos

Reconhecer seu próprio mapa e encontrar seu lugar no mundo é uma questão básica para qualquer psique. Pobres ou ricos, todos nós precisamos fundar nossos territórios, físicos e afetivos. Se uma casa tem vizinhos, a fundação psíquica passa, como definiu Freud, por “atravessamentos”.  A constituição de um indivíduo está sujeita às ações e emoções dos mais próximos e à sua experiência de vida.

Construir seu lugar no mundo talvez seja mais difícil quando se vive em um mapa instável como a Maré. A favela começou em 1940, com a formação da comunidade do Timbau,[1] em uma área elevada entre os alagadiços do mangue, próxima à praia de Inhaúma. Muito próximo dali, o quartel do 1º Regimento de Carros de Combate do Exército sempre exerceu uma política de controle sobre os moradores, que, nos primeiros anos de ocupação, foram impedidos de construir moradias de caráter permanente. A proibição e a falta de recursos configuraram a Maré como uma favela de casas de palafita, sobretudo depois da ocupação da segunda área mais antiga: a da Baixa do Sapateiro,[2] que, como o nome sugere, fica numa região mais plana, frequentemente alagada. Foi ali que começaram os primeiros aterros de toda a extensão do mangue, criados por iniciativa da comunidade. Nas décadas seguintes, o poder público acabaria com canais e restingas e colaboraria com a extinção da flora e da fauna do mangue, prejudicando a pesca, uma das fontes de subsistência dos moradores.

 

"Stein und Fluss" no Parque Lage: cidade começa a se insinuar na pintura da artista

Em 1960, o governo de Carlos Lacerda foi o responsável pela criação de um enorme aterro ao lado da comunidade Parque União, formada na década anterior. Na região que ficaria conhecida como Nova Holanda,[3] Lacerda despejou os desabrigados de outras favelas desocupadas pelo Estado, como a do Esqueleto, que ficava no terreno do Maracanã, onde hoje existe a Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), e a da Praia do Pinto, no Leblon. Sem território, privados de sua geografia íntima e de suas raízes, os novos moradores da Maré precisavam enfrentar outro desafio: não serem vistos como invasores por quem já estava ali.

O trabalho de Queiroga atravessa – para repetir uma palavra emblemática escrita anteriormente – todas essas histórias, sem, no entanto ilustrar nenhuma delas. Isso ocorre não só porque se trata de uma grande artista, mas talvez porque ela também tenha sido atravessada pela potência das histórias da Maré.

 

"Velatura" (2005): pintura, corpo, cidade e abrigo

Seu segundo trabalho apresentado em Mapas invisíveis talvez comprove isso. Chroma é um vídeo que investiga as características da pintura como um fluxo, sujeito a marés. A violista Rúbia Siqueira criou improvisos musicais a partir das imagens criadas por Queiroga e registradas por Ícaro Lima. Iuri Nicolsky trabalhou na trilha sonora. Juntos, som e imagens convidam à introspecção e se apresentam quase como um testemunho das transformações por que passou a trajetória de Queiroga nos últimos anos.

Pintora formada pela chamada “Geração 80” do Parque Lage, ela vem expandindo a pintura para o espaço. Começou esse processo de forma mais radical nas telas a óleo da série Stein und Fluss (2004), em que figuras geométricas verdes bailavam em um fundo vermelho graças aos efeitos ópticos criados pelo choque entre as duas cores – por sinal, as duas gamas que dominam Chroma.

 

A artista em seu "Voo velofluxo", de 2008

Tempo e movimento, conceitos tão presentes e importantes na arte contemporânea, começaram a ganhar novo motor na carreira da artista a partir de sua aproximação com a cidade.  Ela criou infláveis azuis e vermelhos que eram ao mesmo tempo cidade medieval e arquitetura marinha, nave espacial e útero materno… Mas sempre pintura e sempre um lugar. Pesquisou ainda os mapas turísticos de cidades brasileiras, americanas e europeias, criando colagens e pinturas em que sobrevoa esses lugares, transformando a cartografia em desenho, movimento e cor.

O auge desta pesquisa foi Voo velofluxo, imenso balão cor de rosa com que Queiroga voou sobre Brasília e sobre o Rio de Janeiro, convidando o público a fazer o mesmo.  O traçado urbano nunca aparece em seu trabalho de forma literal, mas como um “retrato de mapa”, e nem como uma insinuação subjetiva, algo como “um mapa para o fluxo da vida”. Queiroga investiga, sobretudo, os caminhos e os territórios possíveis para a arte e para a pintura, como territórios navegáveis nos fluxos da cidade.

Mapa movediço e escorregadio, a Maré foi ao encontro da artista em Mapamaré. Chroma é a resposta de Queiroga, depois de ela ter se olhado no espelho.

 


[1] Os nomes das comunidades da Maré formam seus próprios Mapas invisíveis. Palavra tupi-guarani, Timbau quer dizer “entre as águas”, uma referência ao fato de ser uma área seca entre os manguezais que margeiam a Baía de Guanabara, como conta Lilian Vaz em História dos bairros da Maré (UFRJ, 1994).

[2] A origem do nome da Baixa do Sapateiro é controversa. Existem três versões: que seria uma homenagem à Baixa do Sapateiro em Salvador, Bahia, dada a grande quantidade de nordestinos na Maré; que um sapateiro teria sido o primeiro morador deste bairro; que seria uma referência à Rhizophora mangle (mangue vermelho), chamada popularmente de sapateiro. A planta era usada na fabricação de tamancos, calçado muito comum no Rio até os anos 60, graças à influência portuguesa.

[3] O grande aterro que forma este bairro da Maré recebeu o nome de Nova Holanda porque, como boa parte do território holandês, também está abaixo do nível do mar.

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* Texto que fiz sobre os trabalhos da artista para o catálogo da exposição Mapas invisíveis, na CAIXA Cultural do Rio de Janeiro. O lançamento da publicação será no dia 17 de março, com um grande debate reunindo os artistas participantes, críticos de arte, arquitetos e urbanistas no auditório da CAIXA.

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