Moacyr Scliar (1937-2011)

Moacyr Scliar morreu hoje de madrugada, depois de um AVC que o mantinha no hospital desde o dia 17 de janeiro.

Era um grande escritor. Um ótimo papo. Um lugar de destaque na minha estante brazuca – e continuará sendo.

Era um cavalheiro, que evitou criar polêmica com o escritor canadense Yann Martel, vencedor do Booker Prize de 2002 com o livro A vida de Pi, um plágio descarado de sua novela Max e os felinos (1981).

Fiz esta reportagem para o Globo. Não me lembro exatamente a razão para isso, pois já havia migrado da literatura para as artes visuais. Mas mantive uma relação de filha pródiga com minha área original e jamais larguei os livros, até porque eles nunca permitiram. Até hoje, basta que eu me distraia e eles voltam a cair no meu colo, nas mais variadas circunstâncias.

Talvez esta espécie de lei do karma tenha feito algum “passarinho” me contar a boa história do plágio. O fato é que, depois de criar uma operação de guerra para comparar a trama dos dois livros e de ouvir a opinião de alguns especialistas, liguei para Porto Alegre para falar com Scliar.

A conversa foi para mim um espanto – e também um encanto. Do outro lado da linha, com uma serenidade de dar inveja a monge, ele reconhecia em off – isto é, em declaração impublicável, num acordo amistoso entre entrevistado e entrevistador – que sim,  A vida de Pi era uma cópia floreada e alongada do seu Max e os felinos, escrito mais de duas décadas antes.

Porém, na hora do preto-no-branco, Scliar optou pela conciliação. Não quis fazer barulho e argumentou que um disse-me-disse não acrescentaria nada à sua obra literária, embora pudesse prejudicar a reputação do colega agraciado pelo Booker, um dos prêmios mais importantes do mundo. (O site Digestivo Cultural cita esta reportagem do Globo e parte do novelo que desenrolei aqui).

Scliar alfinetava o canadense apenas no momento em que dizia que, se tivesse sido plagiado, não seria o primeiro brasileiro a passar por isso. Nunca processou Martel, que assumia ter lido Max e os felinos (o livro foi editado no Canadá, na Inglaterra e nos Estados Unidos) e havia construído a trama central de seu livro à imagem e semelhança da criada pelo brasileiro. Diante da polêmica, passou a diminuir a obra de Scliar, desclassificando-a de todas as maneiras.

O plagiado, vítima, continuou pacífico, mas seu editor nacional nem tanto – e com razão: diante dos comentários grosseiros de Martel, Luiz Schwarcz, da Companhia das Letras, desistiu de representar o autor canadense no Brasil (lembre aqui).

Vou recordar Scliar por causa de sua reação ao plágio, é claro, porque vivi uma parte desta história com ele. Há sempre um homem por trás do autor. Naquele momento, conheci um que era tão grande quanto sua obra.

A herança mais forte que ele me deixa, no entanto, não é esta memória de redação. Seu legado são os risinhos nervosos e amarelos que esbocei ao ler romances como O centauro no jardim e Um sonho no caroço de abacate. Sua prosa pega bifurcações inimagináveis e encontra desfechos surpreendentes, redentores, que às vezes têm com os personagens a mesma compaixão que o escritor demonstrou com seu plagiador. Gosto ainda mais de seus contos. Quanto mais econômico era no texto, mais Scliar deixava visíveis suas virtudes.

Judeu-gaúcho, ele reunia na prosa o humor agridoce e autorreferente que permeia estas duas culturas.

Para Scliar – e para Max, Guedali e tantos tipos dignos de riso, de raiva, de pena, de amor – minha homenagem e minha saudade.

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