Autor visitante – Marcelo Janot compara ‘Cisne Negro’ e ‘De olhos bem fechados’

Foliã do Cordão do Boitatá: Cisne Negro foi "a" fantasia do carnaval de rua este ano

Não gostei de Cisne Negro, mas saí incomodada do cinema. Talvez por isso este texto de Marcelo Janot, publicado originalmente em seu blog na home do Telecine Cult, canal do qual é apresentador, tenha me chamado tanta atenção.

O cinema é uma área em que jovens críticos têm como único salvo-conduto para publicar o que escrevem o fato de que assistem a muitos filmes. O texto de Janot impressiona pelo respeito a um elemento inerente à crítica de arte, mas constantemente desprezado nos veículos de imprensa: a relação com a História. Com tranquilidade, ele traça uma espécie de “árvore genealógica” para Nina, personagem vivida por Natalie Portman. Depois disso, desagua em sua tese particular – o que também é fundamental em um bom texto crítico. Para ele, Cisne Negro é um parente próximo do último filme feito integralmente por Stanley Kubrick: De olhos bem fechados, de 1999.

Li a crítica de Janot depois de perceber que o fenômeno Cisne Negro é de fato popular, ultrapassando em muito o reconhecimento do Oscar para sua protagonista. A Nina “do mal” foi  “a” fantasia do carnaval carioca este ano: estava praticamente em todos os grandes blocos de rua da cidade. Isso só acontece se um filme, mesmo quando desagrada, toca as pessoas em algum lugar.

Fala, Janot:

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CISNE NEGRO – Marcelo Janot

 

Nina (direita) e a rival, Lily (Mila Kurnis): odisseia noturna libera desejos reprimidos

Faz parte do ofício do crítico situar o filme historicamente, relembrando parentescos temáticos e estéticos com outras obras cinematográficas. Uma rápida olhada em sites como o metacritic.com, que costuma compilar as críticas publicadas nos Estados Unidos a respeito de determinado filme, pode nos deixar com a impressão de que Cisne Negro é uma mera reciclagem de idéias já utilizadas. Sapatinhos vermelhos, A Malvada, Carrie, a estranha, Nasce uma estrela e até Showgirls são apenas alguns dos filmes que teriam parentesco com Cisne Negro ou servido de inspiração para Darren Aronofsky e seu trio de roteiristas. Mas a maioria avassaladora das críticas é positiva, com elogios quase unânimes, o que mostra que não há problema algum em retrabalhar certas ideias, desde que a forma seja apropriada.

Curioso não ter encontrado, em nenhuma das críticas lidas ou em entrevistas dos realizadores, uma única menção a De olhos bem fechados, de Stanley Kubrick. O parentesco com a obra derradeira do maior cineasta americano foi o que mais me chamou a atenção no filme, e talvez o que mais me tenha feito apreciá-lo. Se lida apenas como a história de uma talentosa bailarina que precisa ver seu lado “ cisne negro” aflorar para conquistar um papel de destaque, tendo que enfrentar uma concorrente na companhia, a sinopse do filme de Aronofsky pode soar banal, assim cmo a história de um jovem milionário novaiorquino atrás de uma noite de aventuras para se livrar do tédio de seu casamento, vista em De olhos bem fechados.

A odisseia existencial de Bill, o personagem de Tom Cruise, é muito semelhante à enfrentada pela Nina encarnada com brilhantismo por Natalie Portman em Cisne Negro. Cada um com suas particularidades, ambos questionam internamente os modelos de perfeição e felicidade que a sociedade lhes impôs. Em sua viagem errática por bares, lojas de fantasias e orgias secretas, Bill parece vagar por um universo completamente estranho e diferente da Nova York do seu dia a dia. O mesmo se aplica a Nina, a jovem reclusa em nome da disciplina espartana do balé e da paranóia da mãe, uma bailarina que abriu mão de sua carreira por conta da maternidade (idéia reciclada de Momento de decisão, de Herbert Ross).

Os fantasmas que assombram Nina assustam e seduzem, encontrando eco nos participantes mascarados da orgia onde Bill vai parar (lembre trechos no vídeo acima). As duas trajetórias desembocam no final catártico e libertador para cada personagem. Os mundos criados por Kubrick e Aronofsky correm em paralelo, encontrando o ponto de interseção no fato de criarem uma atmosfera singular para seus filmes, cada qual a seu modo. Em Kubrick, o minimalismo e o rigor absoluto nos enquadramentos, na música, na ambientação. Em Aronofsky, a grandiloqüência despudorada, o banho de sangue, o frenesi da câmera que funga no cangote da personagem como se lhe impusesse as doloridas e necessárias chagas negras.

Em uma cena-chave de Cisne Negro, o diretor da companhia, vivido por Vincent Cassel, aconselha Nina a liberar seu impulso destrutivo e a buscar a imperfeição para melhor poder encarnar a personagem do cisne negro no balé. É um conselho que o diretor leva ao pé da letra. As imperfeições sublinham a visceralidade de Cisne Negro, e se por um lado incomodam seus detratores, por outro o transformam em uma experiência fascinante para os que forem absorvidos por aquele universo.

 

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