Tecer mundos

Carolina Ponte inaugura individual na Zipper, em São Paulo, neste sábado, 19 de março, a partir das 12h. Além da exposição da artista, para a qual fiz o texto abaixo, a galeria estreia o seu espaço Zin’Up com a coletiva Presenças, com curadoria de Mario Gioia. O sábado em São Paulo está animado. Há ainda retrospectiva de Paula Rego na Pinacoteca; abertura da individual de Tatiana Blass na CAIXA Cultural da Sé; e a remontagem das obras de Leonilson para a Capela do Morumbi. São Paulo vai estar até no Rio: o MAM inaugura, também no sábado, uma seleta de obras que estiveram na última Bienal. Ê, terra boa.

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No crochê, qualquer ponto que vai adiante precisa voltar, concluindo assim o arremate que evita que o tecido esgarce. Os desenhos e trabalhos com crochê que Carolina Ponte apresenta nesta exposição mostram um momento da carreira da artista em que ela faz com a própria obra o mesmo movimento que executa com linhas e agulha.

Se um dia o crochê foi uma forma de descanso para o desgaste dos desenhos – ou um jeito de desenhar com mais fluidez -, hoje o desenho se transformou em algo mais coeso graças à prática da artista como escultora tecelã. Quando um trabalho consegue se dobrar sobre si mesmo é sinal de que ganhou estrutura – e o uso desta última palavra também não é um acaso, já que as formas e padronagens dos trabalhos mais recentes de Carolina estão diretamente ligadas à arquitetura e à construção de um universo muito peculiar.

A artista aprendeu a fazer crochê porque queria roupas novas para suas bonecas. Destruía as antigas e criava seus figurinos, que depois também envelheciam e iam para a zona de descarte juntamente com os modelos originais. Agulha e carretéis de linha eram mantidos em atividade contínua, quase obsessiva, com o trabalho manual servindo de motor para que ela tecesse seu próprio mundo.

Não muito depois de abandonar as bonecas, ela descobriu que queria ser artista e deu seus primeiros passos na pintura. Suas passagens pela Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro e pelas salas de aula do Parque Lage fizeram com que descobrisse uma nova linguagem, o desenho, mas também a intimidaram. Nem sempre as águas de um rio conseguem suportar as margens que lhe são impostas. E a artista padeceu com uma espécie de enchente interna, afogando seus impulsos nos medos de não se encaixar aos modelos.  Muitos param neste ponto. Carolina sobreviveu ao redescobrir seu fluxo.

O estouro da represa se deu com um trabalho fronteiriço, de 2006, que é desenho, mas também pintura e escultura. Munida de um arsenal de miçangas e canutilhos coloridos, compôs um fio com cerca de 100 metros de extensão, em que criava uma sequência de cores que podia ser um caminho direto para a geometria lúdica e caleidoscópica de Paul Klee.  Ou um sobrinho da Medusa (1969), um clássico de Amélia Toledo. Com o fio, Carolina redescobriu o prazer de uma execução mecânica, próxima da meditação, hoje uma característica indissociável de sua trajetória. Esvaziar a cabeça com o trabalho duro e repetitivo é uma forma híbrida, entre o intuitivo e o racional,  de harmonizar cores e formas.

É curioso ter lembrado Amélia Toledo ao falar de fluxo, já que a Medusa é feita de tubos plásticos cheios de líquidos coloridos. Embora nunca tenha usado água ou fluidos em seus trabalhos, Carolina migrou das miçangas e canutilhos para um desenho em que as áreas de cor pareciam boiar no espaço do papel. Em alguns deles, a aplicação de uma “aguada” de tinta no fundo reforça esta impressão de um mundo submarino e silencioso, onde as formas se atraem ou se repelem de acordo com sua vibração cromática.

No crochê, todo ponto que vai adiante precisa voltar – dissemos acima. Ao se transformar em filha pródiga de seu primeiro impulso criativo e voltar a tecer, Carolina pôde, enfim, tomar posse de seu território. Inicialmente uma espécie de hora do recreio para os desenhos, o crochê virou outra forma de desenhar, para logo a seguir ganhar o espaço com formas que escorriam para o chão ou escalavam o teto num ritmo quase líquido, como uma fonte de jorro incessante ou mesmo pequenos vazamentos, goteiras e infiltrações.

As mandalas coloridas feitas de linha levaram Carolina a um mergulho mais profundo no universo da padronagem. Depois dela, a ex-estilista de roupinhas de boneca vem criando um repertório artístico que não deixa de ser vizinho da moda, tanto de clássicos da Pucci como da estamparia contemporânea de Catalina Estrada. O ornamento, desde sempre uma “beleza sob suspeita” (1) e absolutamente sedutora, poderia também aproximá-la da pintura de Beatriz Milhazes, enquanto o crochê, este suporte tão pouco usual, poderia levá-la até Leda Catunda, Ernesto Neto, Marcos Cardoso ou aos bordados de Leonilson.

A viagem que faço no rio da artista é, no entanto, um pouco mais longa, sobretudo depois de ver seus trabalhos mais recentes. Seu desenho detalhista e quase compulsivo se aproxima do Barroco, não apenas por sua atmosfera excessiva e pela contraposição de cores, mas por realizar um tipo de composição que vai e volta ao tema, acrescentando a ele, a cada retorno, um pouco mais de informação.

Olhar para os desenhos ou ver uma de suas esculturas é algo como ouvir o Cânon em Ré Maior, de Pachelbel, em que um violino executa a melodia-base, constante, mas a cada recomeço há a entrada de um novo instrumento, com outro fraseado musical. As voltas às primeiras notas provocam um acúmulo de melodias e sonoridades diversas, porém sem esconder em nenhum momento a estrutura inicial.

Ornar é diferenciar. Nos desenhos recentes, Carolina se apropria de padronagens egípcias, orientais, latino-americanas ou brasileiras para criar uma espécie de léxico particular, próximo à Gramática do ornamento, publicada em 1856 por Owen Jones. Constrói com esta estamparia brasões e bandeiras que lembram o Rococó muito mais pelas plantas arquitetônicas (2) de suas igrejas – com a nave principal se dividindo em múltiplos altares laterais – do que pela citação evidente a motivos florais e marítimos ou a volutas e outras formas típicas do estilo. A relação com a arquitetura está cada vez mais forte também nas peças tridimensionais. Elas ganharam suportes de madeira que são, ao mesmo tempo, sustentação e ornamento.

Todo ponto que vai precisa voltar para o arremate. Sempre que retorna ao rio principal de sua obra, Carolina redesenha seu mapa de navegação com a descoberta de novos afluentes, provando já ser a comandante de seu barco.

 

(1)    PAIM, Gilberto. A beleza sob suspeita – O ornamento em Ruskin, Lloyd Wright, Loos, Le Corbusier e outros. Rio de Janeiro: Zahar, 2000.

(2)    OLIVEIRA, Myriam Andrade Ribeiro de. O Rococó Religioso no Brasil e seus antecedentes europeus. São Paulo: Cosac Naify, 2003.

 

3 thoughts on “Tecer mundos

  1. Belo texto, bela obra. O olhar fica mais esclarecido e afetuoso ao tomar conhecimento das origens poéticas do trabalho. Lembro ainda, além dos artistas citados, a presença de crochê no trabalho do grande Walter Goldfarb. Parabéns!

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  2. Daniela, deslumbrante e emocionante este trabalho. Traz em si algo do imaginário dos bordados e crochês que aprendi com minha avó na infância… mas o que mais me impressiona é como a força das tramas, dos volumes, enreda e abarca nossas mais tênues emoções submersas. Como você diz: “Nem sempre as águas de um rio conseguem suportar as margens que lhe são impostas”. Percebo que a artista não somente rompeu a represa, mas conseguiu promover uma avalanche de avassaladoras cores, capazes de arrebatar nossa alma. Parabéns para a artista, mas principalmente não poderia deixar de mencionar seu magnífico texto que capturou o espírito da obra no âmgo de sua essência. Excelente! Abraços, Cláudia

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  3. Que legal!
    Eu há tempos buscava um artista brasileiro contemporaneo que trabalhasse com crochê, pq aqui no canadá essa mídia é muito explorada na linguagem contemporânea!
    VALEU- AMEI e espero poder ver ao vivo!

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