Hora da vidraça

Ou: como votei no PIPA 2011

Fui uma das indicadoras do Prêmio PIPA este ano. Agora que a organização já divulgou todos os indicados, sinto-me na obrigação de explicar como cheguei à minha lista de cinco. Jamais vou revelar os nomes em que votei, mas sim os critérios que me nortearam até eles, argumentando sobre como eliminei outros artistas que admiro muito – e com os quais, na maioria dos casos, privava de intimidade maior do que a que mantenho com alguns que ficaram com uma “vaga”. Um de meus indicados nunca vi pessoalmente. Conheço a obra, há anos, e ela sempre me surpreendeu.

Talvez a minha não-escolha tenha significado uma não-escolha do prêmio – isto é, o fato de eu não ter listado determinado nome tenha acabado colaborando para uma não-indicação daquele artista na lista final de 2011. Por este motivo, é ainda mais importante revelar como foi feita a seleção, já que todo prêmio e todo júri têm diante si a responsabilidade de estarem lidando com as expectativas de inúmeros criadores.

A situação fica ainda mais grave se pensamos que vivemos em um país onde os prêmios e salões são praticamente os únicos incentivos, em termos financeiros e de visibilidade, que eles têm para seus trabalhos. Há pouquíssimas bolsas fora do meio acadêmico; não há cursos, não há programas de aprofundamento. Graças a isso, por uma distorção que precisa ser cada vez mais debatida, prêmios e salões viram ao mesmo tempo bússola e vitrine para a nova produção.

A história de um prêmio de arte precisa entrar em consonância com a história do meio em que está inserido. Usei este blog para alavancar um debate a partir da divulgação dos  30 pré-selecionados na última edição do Prêmio Marcantonio Vilaça (lembre aqui). A discussão acabou nos levando ao Banco de Portfolios, ferramenta totalmente gratuita que tem como objetivo diminuir a distância entre o trabalho dos artistas de várias partes do país e críticos, curadores e pesquisadores que moram em outros estados.

Por tudo o que foi dito acima, é importante para mim tentar demonstrar alguma coerência na hora de minha própria escolha. Toda lista é subjetiva, no fim das contas, porque, mesmo quando há critérios – e é preciso que haja -, a escolha desta regra em detrimento daquela é feita sob o crivo imperfeito de nossa humanidade.

Vamos então ao meu código de conduta, neste momento em que preparo minha própria vidraça.  Com a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo.

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Critérios de seleção para o Pipa 2011 – Daniela Name

Este texto é uma adaptação da minha justificativa de voto, enviada ao PIPA de forma espontânea, como um anexo às justificativas (opcionais) que os indicadores são convidados a fazer sobre cada nome que escolhem. Optei por justificar longamente cada um que indiquei e ainda demonstrar como cheguei a eles. É uma adaptação desta segunda etapa que apresento abaixo.

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Dois tópicos do regulamento do prêmio me chamaram a atenção:

 1)   O artista deveria ser conhecido no Brasil; logo, na minha interpretação, deveria ter feito pelo menos uma exposição individual, de preferência institucional, fora de sua cidade de origem. Eliminei de minha lista inicial os que não se enquadravam no caso.

2)   O prêmio deveria “fazer diferença” na carreira do artista. Depois de pensar nisso, eliminei artistas que foram premiados ou pré-selecionados recentemente em outras iniciativas, caso da edição deste ano do Marcantonio Vilaça, e/ou já têm carreiras sólidas no campo institucional. A carência de iniciativas que alicercem as carreiras dos artistas brasileiros além de salões e premiações precisa entrar em pauta. Doeu na minha carne – razão e emoção – cortar de minha lista final nomes que já tinham estado em outra premiação apenas para ampliar o leque de visibilidade para outros. Alguns dos artistas que acabei eliminando são excepcionais. Gostaria de ter um leque maior de indicações.

Criei ainda regras próprias para chegar aos 5 nomes de uma lista inicial de mais de 50:

 3)   Não considerei artistas que já têm longa trajetória (em anos) no mercado de arte brasileiro. Este é um prêmio para artistas emergentes e creio que a lista do PIPA ano passado foi imprecisa ao contemplar artistas de qualidade inegável, mas que há muito deixaram de ser emergentes. Um artista nascido nos anos 1940 que tenha começado a ganhar notoriedade nos últimos 10 anos pode ser votado, sua idade não importa. Mas um artista até mais jovem que o desta primeira suposição, mas que tenha começado a expor há mais de 20 anos, na década de 80, por exemplo, não faz parte do perfil desejado pelo prêmio. Obs para o blog, apenas: a lista deste ano ainda trouxe alguns nomes neste tipo de desvio, digamos assim. Mas acredito que a compreensão do regulamento foi maior por parte dos indicadores.

4)   Impus a mim mesma que houvesse artistas de pelo menos 3 estados brasileiros. Assim, os cariocas poderiam até ser maioria, por motivos óbvios: vivo e trabalho no Rio. Mas não seriam os únicos. O Brasil é grande e um centro irradiador não é necessariamente o único centro produtor. Fui obrigada a pesar e cortar o nome de muitos artistas que acompanho com admiração desde os tempos de jornal O Globo. Não só do Rio e de São Paulo, mas também de outras praças. Fui ainda mais dura comigo mesma nos casos em que tinha escrito criticamente sobre determinado trabalho, embora haja em minha lista final caso(s) em que isso tenha ocorrido.

5)   A participação em exposições institucionais, fora de galerias, foi fundamental para reconhecer artistas que já têm maior envergadura, foco do PIPA. Assim, entre um artista que já tinha isso no currículo e outro que não tinha, apesar de seu potencial, fiquei com o primeiro.

6)   Procurei criar uma lista com cinco linguagens bastante distintas entre os indicados.

7)  O corte de determinados nomes não tem nada a ver com qualidade. Como disse, minha lista inicial tinha mais de 50 pessoas. E poderia ter mais. O Brasil é muito rico quando o assunto é arte contemporânea. Sei que até mesmo as regras que criei para mim são subjetivas. Mas pelo menos elas existem. Se estes tópicos formarem, para alguns, um jogo de 7 erros, pelo menos terão sido algo. Publicá-los é assumir meu compromisso com a trajetória deste prêmio, honrando o convite que me fizeram.

O texto que seguiu para os organizadores do PIPA era mais detalhado, já que citava nomes nos tópicos de corte. A menção destes artistas – que poderiam estar na minha lista, mas não estiveram, sobretudo por falta de espaço – não foi depreciativa, muito pelo contrário. Foi uma forma que encontrei de reafirmar para os criadores do prêmio o grande universo de escolhas sobre o qual cada indicador foi obrigado a caminhar.

Não há uma reunião entre os indicadores, que votam sozinhos, de suas casas. Portanto, não há como saber quem está sendo indicado pelos colegas de júri. Isso aumenta a responsabilidade de cada indicador – o que é ótimo -, mas por outro lado zera sua margem de barganha e negociação. Se eu pudesse ter certeza de que um de meus colegas indicaria um dos nomes maravilhosos que eu precisei cortar talvez tivesse ficado mais tranquila.

A divulgação da lista final, hoje, me deixou muito chateada por algumas ausências. Mas, quando há um limite de cinco nomes, alguns riscos e algumas perdas fazem parte do jogo, não é mesmo?

Continuemos em campo.

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Desejo voos lindos para os que foram indicados. E ainda mais incríveis para quem não entrou na lista este ano. Há entre os que eu pessoalmente não listei artistas ao lado dos quais espero estar pelo resto de minha vida profissional. Sempre trocando, sempre em diálogo. Quem sabe até empinando pipas.

6 thoughts on “Hora da vidraça

  1. Dani, mais uma vez tenho q me levantar para te aplaudir. Discordamos de algumas coisas e tenho meus receios com o prêmio, mas suas colocações foram justas! como comentei no post sobre o premio MV, há uma falta de clareza e regimentação nos prêmios e salões. vc acabou de cumprir uma dessas lacunas.
    parabéns e abraços!

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  2. Realmente uma árdua tarefa escolher os cinco nomes mais significativos dentro dos parâmetros estabelecidos. Fico também com a impressão de que o que fica de fora, acaba por nos preocupar (ou talvez assombrar… ) mais do que os nomes escolhidos. Acabei enviando minha lista no último minuto, ficava contemplando o meu mapa de selecionados e colocava e retirava nomes. Cada artista, um universo de razões para a escolha dentro de propostas tão distintas. Criei um questionário com as razões para a escolha. Olhava o nome do/a artista e ia respondendo os itens… Como estabelecer um instrumental mínimo para aferir as qualidades e as vulnerabilidades de cada um/a?
    Gostei muito de conhecer os seus critérios, agradeço a generosidade e torço para que sirva de estímulo para desdobramentos em futuras conversas. Quem sabe o PIPA não promove uma mesa redonda aberta ao público?

    Beijo, Gê

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  3. Parabéns Dani, por trazer a público seus critérios de indicação. Não que você deva alguma coisa a seja lá quem for, ao escolher seus indicados, mas justamente porque não tem que fazer isso, é que foi bacana demais ter feito. E isso também, quem sabe, poderia iniciar um debate maior sobre o tema.

    Agora se me permite aproveitar o seu post para fazer um comentário sobre a lista final como um todo, apenas porque você de certa forma tocou no assunto.
    Meu comentário é à lista divulgada, e não aos seus critérios, claro!

    – O Pipa é um prêmio para artistas emergentes e a lista do PIPA ano passado foi imprecisa ao contemplar artistas de qualidade inegável, mas que há muito deixaram de ser emergentes.

    Pois isto ocorreu novamente. Adoro Laura Lima, a artista e a pessoa. Mas ela não precisa deste prêmio, já que ele deveria ser para alavancar carreiras de artistas emergentes. Assim como Ricardo Basbaum. Basbaum foi meu veterano de faculdade, e meu professor no Parque Lage e no MAM!! O cara é praticamente uma “marca” (afinal, o trabalho dele não é sobre isso?) na arte brasileira.
    O trabalho dele, assim como de Vânia Mignone, Mauro Restiffe, Arto Lindsay, Alexandre da Cunha, Rivane Neuenschwander, é ótimo, vários destes artistas eu aplaudo na primeira fila, mas já deixaram de ser emergentes há muitos anos!

    abraços
    Fábio

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  4. Parabéns Daniela, você deu uma demonstração da seriedade e do rigor impostos à sua carreira. Divulgar os critérios deixou claro sua necessidade de fazer o melhor de maneira isenta. Imagino como deve ter sido duro em deixar amigos próximos. Eram apenas cinco. Com minha admiração. Marcio

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