Ele é o rio, ela é a nuvem.*

O rio cai em ribanceiras da parede, gruda no piso, se divide em afluentes e se multiplica em satisfações ao tingir o branco da galeria com lagos vermelhos, cachoeiras roxas, piscinas de mil azuis naturais, uma Atlântida doce e furta-cor… Ou um Reino das Águas Claras revelando seus palácios, belezas submersas. Há ainda poças prateadas, holográficas, que de relance servem de espelho para a vizinhança. Esta superfície brilhante pode ser uma das maneiras para avistar o horizonte onde ela, a nuvem, já se insinua.

 Ah, a nuvem. Ela parece discreta até que se nota sua capacidade de ganhar todo o ambiente, mais a parte de fora e a de dentro de nossas ideias. Com a cabeça nas nuvens – ela também se ramifica para frutificar – enxergamos seus desenhos de metamorfose. Variam, é claro, de acordo com a imaginação: são mandalas, flores, o peixe e a rede, animais de todo tipo. A nuvem é teia, adere às quinas e às vigas com um trabalho paciente de conquista do espaço. Muda de cor, tira partido da luz, oferece sutilezas ao humor. Vaporosa, às vezes é carneirinho, em outras relampeja… Enquanto se movimenta na direção do rio.

Este é o ponto de encontro: Pedro Varela, o rio; Carolina Ponte, a nuvem. Ela pode chover e engordar o rio. Ele pode evaporar e ampliar a nuvem. Um pode se alimentar do outro sem deixar de ser quem era. A manutenção de cada identidade passa justamente pelo ligeiro abalo que vem do embate com uma potência que é outro estado do mesmo elemento. Luta e cópula com o igual que é diverso.

“Como o rio as nuvens são água,/ Refleti-las também sem mágoa/ Nas profundidades tranquilas”, escreveu um dia Manuel Bandeira. Tão diferentes e tão semelhantes, este rio e esta nuvem. Tão autônomos e tão cúmplices – na carreira e na vida – os dois artistas desta exposição.

De suas pororocas e suas enchentes nascem mais dois encontros. O primeiro entre as obras de Varela e Ponte – dois talentos da jovem geração da arte contemporânea carioca – com o público da CAIXA Cultural de Salvador. Há ainda o cruzamento entre este prédio histórico da capital baiana e os desenhos-pinturas-esculturas (a classificação não importa, são estados da mesma arte). Feitos em papel, adesivos ou crochê, eles se oferecem à arquitetura peculiar e sinuosa da Galeria dos Arcos. A sala, por sua vez, permite que suas curvas se transformem em leito fértil para o rio; em céu de brigadeiro para a nuvem.

A própria CAIXA é o ponto de equilíbrio para esta água boa.

Vai ter colheita.

*Este é o “texto de parede”, como chamamos no jargão da área, que escrevi para apresentar Pontos de encontro, exposição de Carolina Ponte e Pedro Varela, ao público baiano. A mostra será inaugurada terça-feira, dia 19, na Caixa Cultural de Salvador. 

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BASTIDORES DA EXPOSIÇÃO:

Conversa com educativo:

Carolina

Pedro

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