Missa para Paulo Reis

Detalhe de "Sete Quedas", de Reginaldo Pereira, incluída por Paulo Reis na Paralela 2010, em SP

Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!

Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza…
A um morto nada se recusa,
Eu quero por força ir

Fim, de Mário de Sá-Carneiro

+++

A marchande Paola Colacurcio, da Projetti, marcou Missa de Sétimo Dia para o querido Paulo Reis (1960-2011). O curador, crítico de arte e jornalista faleceu em Lisboa, no último dia 23 de abril. Vai ser lembrado nesta sexta, 29, em cerimônia que começa às 18h na Igreja Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores, na rua do Ouvidor, 5, Centro.

Eu me despeço dele mais uma vez com um detalhe de Sete Quedas, trabalho de Reginaldo Pereira incluído por Paulo na exposição A contemplação do mundo. A mostra, Paralela 2010 da Bienal de São Paulo, impressionava pela relação criada pelo curador entre arte e água. Impregnado pelo mar de Portugal, ele unia artistas de poéticas muito diversas – Marcos Chaves, Sandra Cinto, Laura Vinci, Thiago Rocha Pitta, Pedro Motta, Paulo Nenflídio, Felipe Barbosa, Adriana Varejão, Márcia Xavier – tendo a água como fio-condutor.

Não fui à abertura, queria ver a exposição com calma. Cheguei ao Galpão perto da Luz no dia seguinte ao vernissage e encontrei Paulo atendendo jornalistas. Plácido, feliz. Tentei ficar quieta, para não atrapalhar, mas ele parou o que estava fazendo para vir conversar. Comentamos trabalhos, falamos da vida e ele me deu dicas e conselhos, sem que eu pedisse, como era sua característica. Todos maravilhosos. No fim do papo, uma ordem: “Seja ainda mais rápida que a sua pressa, mas se divertindo. Bota a mala nas costas, se avia, fica um mês em Berlim, vem mais para São Paulo. O mundo é de quem ganha o mundo e você nasceu pra isso, mocinha”.

O “mocinha” foi mais uma generosidade sua, Paulo. Comprei até mala nova em Salvador, pensando em você, dias antes de você partir, dada a minha disposição em te obedecer. Mas infelizmente vou rever Lisboa – esta cidade tão aquática – sem comer contigo o pastel de nata que a gente se prometeu. Eu também lavo meu rosto com lágrimas salgadas ao lembrar deste momento gostoso naquele galpão quase vazio, feliz por ter te conhecido.

Um beijo, querido. A única certeza é a de que qualquer dia a gente se vê.

One thought on “Missa para Paulo Reis

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s