Paula Rego

"Na companhia de mulheres": baseado em "O crime do Padre Amaro", de Eça de Queirós

A Pinacoteca do Estado, em São Paulo, apresenta até 5 de junho magnífica retrospectiva da artista portuguesa Paula Rego. No fim deste texto, quatro pintores residentes no Rio que viram a mostra fazem comentários sobre ela: Patrizia d´Angello, Bruno Miguel, Jozias Benedicto e Raul Leal.

Os depoimentos, enfáticos e emocionados, evidenciam a importância do feito da Pinacoteca, que reuniu pinturas, gravuras, pastéis, trabalhos híbridos de suporte inclassificável e oferece ao visitante um panorama que exige fôlego e pede disponibilidade de muitas horas. O banquete de Paula Rego não é nada frugal, às vezes é propositalmente indigesto – e é preciso tempo para processar as informações.

Trazer a múltipla obra da artista para junto do olhar dos brasileiros significa preencher uma lacuna de muitos anos. Uma ponte foi construída em nossa visualidade, não há dúvida.

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Nascida em Lisboa, em 1935, Paula Rego tem a obra apresentada em São Paulo através de uma montagem cronológica. O visitante vê desde seus trabalhos como estudante de arte, ainda nos anos 195o, até obras recentes, em que ela mergulha em sua própria biografia. Nos trípticos The Fisherman (O pescador) e The pillowman (algo como O homem-almofada ou O homem-travesseiro), Paula combina motivos literários tendo roupas usadas por seu pai como suporte. Em Misericórdia I, tem como ponto de partida a morte da mãe.

"Mulher-cão", uma obra-síntese da pintora

Foi morar em Londres adolescente: sua família acreditava que viveria melhor longe da austeridade e do conservadorismo portugueses. Passou a estudar na London School of Fine Arts, onde foi formada pelos mesmos professores que Lucien Freud, e é uma das herdeiras da tradição de pintura do pós-guerra, se aproximando do próprio Freud e de Francis Bacon. Consegue, no entanto, superar as limitações formalistas, que focam apenas no campo matérico, para percorrer um tempo que vai além da superfície da pintura, agregando às obras uma narrativa subjetiva.

A literatura é um fio sempre muito presente nesta obra. Paula criou obras como The company of women (Na companhia de mulheres), de 1997, e Angel (Anjo), de 1998, a partir do romance O crime do Padre Amaro, de Eça de Queirós. É curioso que tenha se debruçado justamente sobre este livro de Eça, já que é nele que o escritor se debruça no tema do aborto, tão importante em sua trajetória como pintora. As criadas é claramente inspirado no texto homônimo de Genet, em que as empregadas planejam a morte da patroa – que tem aparência de um homem. Figuras masculinas travestidas são recorrentes na obra de Paula – e a Pinacoteca apresenta outro belíssimo quadro que comprova isso: Olga. Mais uma vez, o homem aparece em situação ambígua, entre o algoz e a vítima, entre a posição de mando – patrão, em As criadas; figura central em Na companhia de mulheres, lembrando a figura do próprio Padre Amaro, que na infância era vestido com roupas femininas pelas moças de Leiria; alguém que recebe sexo oral, nesta terceira pintura. Servido em sua libido, o homem não parece estar feliz, não parece ter conforto neste mundo. Conforto, aliás, é uma sensação praticamente impossível no universo de Paula Rego. O Padre Amaro de Na companhia das mulheres  encara quem está olhando a pintura e compartilha com seu espectador sua sensação de desamparo. Com ele, Paula subverte o sentido de sua própria narrativa para nos mostrar que, assim como as mulheres que eventualmente fere, subjuga e oprime, aquele é também um oprimido pelos códigos de conduta de um grupo social, de uma nação.

O tríptico "The pillowman", feito sobre roupas do pai da artista

Fã de Doré, Paula usa a fantasia para conduzir o espectador para um mundo de terror. Suas telas são de uma brutalidade tremenda: denunciou a bizarria de se manter os abortos clandestinos em Portugal e a condição de menos-valia das mulheres em uma sociedade profundamente machista. Dog woman (Mulher-cão) é uma obra emblemática e sintética destas preocupações. Ao olhar para as pinturas sobre aborto, a vontade de fugir da sala, presente em todo o percurso da exposição, atinge seu grau máximo. Mas não fazemos isso, porque a esta altura já estamos completamente absorvidos e hipinotizados pela atmosfera criada pela artista.

Primeira parte de um dos trípticos sobre os avestruzes de "Fantasia" (1995)

A mesma sensação de desconforto e encantamento têm os trabalhos em pastel em que ironiza personagens de contos de fadas, como Branca de Neve e Cinderela, e os avestruzes de Fantasia, clássico filme musical de Walt Disney.  Nesta série de trabalhos, Paula põe mulheres nos lugares das aves de Disney. No fim dos anos 1980, a troca feita foi inversa: prestes a perder o marido, vítima de esclerose múltipla, Paula transformou-o em um cachorro, que, numa série de gravuras, é cuidado e protogido por uma figura feminina. The policeman´s daughter (A filha do policial), de 1987, ano da morte de seu parceiro, também parece ser uma referência a esta perda. Uma mulher, zelosa, engraxa a bota de alguém que vai sair para uma caminhada. A presença de um gato preto na imagem – gatos frequentemente simbolizam a ligação entre o mundo terreno e o mundo dos mortos – colabora com esta aproximação.

"The policeman´s daughter": possível alegoria para morte do marido

Percorrer as salas do histórico prédio da Luz é lembrar um pouco de Goya – O sonho da razão cria monstros. E também das clínicas clandestinas, nas baixadas e nos bairros endinheirados, que matam com precariedade para defender a moral. Um pouco portugueses, um tanto melancólicos e ainda bastante oprimidos, os brasileiros têm um espelho mais cruel que o da madrasta em São Paulo. Mas como é preciso estar diante dele!

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Deixo agora vocês com os comentários dos pintores que foram à mostra:

Patrizia d´Angello: 

Paula Rego toca fundo, muito fundo em mim. Depois de umas 4 horas só, mergulhada naquelas salas, alheia aos grupos escolares que iam e vinham, saí da exposição num estado de suspensão, sentindo uma empatia fortíssima, um sufoco encantado-angustiado. Aquele universo produziu um eco profundo com a minha mais tenra percepção do mundo, um lugar onde a opressão feminina é vingada na perversidade dos jogos sócio-familiares, onde o lúdico dos contos infantis sutilmente se transmuta numa crueldade oculta, mas que sempre ali esteve, sem falar na  série sobre o aborto, sucinta, seca, quase elegante, que sem apelo fácil exerce sua imensa potência de sentido pra quem as vê.
Sempre tive Paula no meu panteão particular, mas a experiência de me inserir ali, cercada por todos os lados pela sua narrativa irônica e visceral, pela virtuosa diversidade de meios, e pela riqueza de espectros da sua obra, posso dizer que quando crescer quero estar ali, bem junto dela.

Bruno Miguel:

É curiosa minha relação com o trabalho de Paula Rego. Presente em minha formação e na descoberta da pintura no começo da faculdade, sua obra andava meio esquecida em minha prateleira de referências. Como tenho dupla cidadania, e toda minha familia é portuguesa, sinto uma aura social familiar à minhas lembranças infantis. A casa dos meus avós, histórias dos lugares onde meus pais moraram, os costumes, objetos e trajes tradicionais portugueses se confundem presentes nos trabalhos de Paula Rego e no imaginário perdido em minhas memórias. Tecnicamente impecável, um universo grotesco velado pelas grossas cortinas da tradição lusitana, apresenta aquilo que se sabe e não pode ser dito sempre sob olhares maliciosamente inquisitórios.

"Swallows the poisoned apple": Branca de Neve assustadora, como a vida real

Jozias Benedicto:

Domínio técnico completo: óleo sobre colagem, tinta acrílica, desenho, pastel, gravura em ponta-seca, água-forte, lito. Mas o trabalho de Paula Rego é muito mais que isso, que o virtuosismo técnico. É o desvendar de um universo completo em sua estranheza e pervesidade, infantil e adulto, mulher e homem e andrógino, feto abortado e animais à espreita, personagens de contos de fada e de Sade. Em salas e quartos de classe média-alta, famílias se dedicam a jogos dúbios, de prazer e de horror, enquanto sobre o tapete passeia um inocente animal de estimação, um pequeno javali de dentes afilados ou a filha masturba a bota do pai ao engraxá-la. Bailarinas musculosas, um anti-Degas, ajeitam os tutus e se preparam para entrar em um palco  que nunca aparece, o espetáculo é a espera do espetáculo. Mulheres que abortam, solitárias, dor e sangue discretos, recolhidos, fetos, bonecas destruídas, criaturas do mar. Azulejos portugueses, Portugal que lida com as décadas de brutal repressão e atraso, a tristeza do fado e a nostalgia de um antigo império hoje decadente, a herança moura, os muxarabis, as mulheres encarceradas. Uma exposição para ser vista e revista, com vagar, mergulhando neste mundo cruel e pulsante, ameaçador e ao mesmo tempo tão familiar, de histórias infantis, de dores e de sangrar. Ao mesmo tempo um mundo tão real: basta olhar em volta. Basta ter olhos e ver. Ou fechar os olhos e sonhar os pesadelos de Paula Rego.

Raul Leal:

Quando entrei na primeira sala já senti uma energia diferente no ar, ao olhar os trabalhos uma série de referências me veio à mente, Goya, Daumier, Schiele, De Chirico, Degas, no entanto, tudo é só dela o tempo todo, sem concessões a artista nos mergulha num mundo de pesadelo e perversidade no qual  é preciso tomar um fôlego, sair e respirar um pouco antes de passar de uma série para outra. Paula Rego tem uma personalidade titânica. Como disse uma amiga, ela é uma força da natureza. Fazendo um paralelo com o mundo da música poderia pensar em Martha Argerich. Não vou nem falar no domínio absurdo das técnicas de pintura, gravura e pastel, isso é detalhe diante da força das imagens e do carrossel de memórias e emoções desordenadas em que somos jogados sem a menor misericórdia.

4 thoughts on “Paula Rego

  1. Saí da exposição imperdível de Paula Rego atravessada de tal forma, que um estado de urgência, ainda permanente horas depois, se tornava incômodo no monótono andar e parar do trem do metro. A obra de PR é de tamanha potência, que questiono aí, profundamente este falso divisor de águas entre a pintura e a arte contemporânea que ainda insiste em um discurso nas entrelinhas, de classificar, ordenar, dividir, catalogar artistas e sua forma de discurso. Vide os queridos convidados a falar no post (com muita propriedade aliás), todos pintores.
    Paula mais do que atravessa, trespassa, transpassa, perpassa, entre, sob, sobre, talvez. Literatura, psicanálise, arquetipias, mitologia, tradição da pintura, ambiguidade, acidez, são alguns dos poucos ingredientes desta artista. Não importa a forma. A forma importa. O conceito é contundente, quase esmagador de tão presente. A urgência que mais tarde se transformou em aprofunda ngústia pela sensação de atraso na dedicação do trabalho de ateliê ainda me habita. E não deixo de ser grata por isso. Clarisse Tarran, – (artista multimidia?), maio de 2011

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