Patrizia D´Angello

"Banquete Babilônia", pintura que dá título à exposição

No dia 31 de maio, terça-feira, a partir das 19h, Patrizia D´Angello inaugura sua primeira individual, Banquete Babilônia, na galeria Amarelonegro. Tive o prazer de acompanhar o processo de trabalho da artista e assino a curadoria da mostra e convido todos os leitores do blog para a a noite de abertura, compartilhando com vocês o texto que escrevi para o folder-convite da mostra.

Vamos ficar contentes com a presença de vocês.

+++

A aquarela sobre papel "Volúpia": Patrizia e o espelho do universo ao seu redor

À mesa com narcisos

“Você tem fome de quê?”, pergunta Patrizia D’Angello. Decifra-te ou ela te devora. Libido e apetite em dia ao entrar nesta exposição, por favor. Comensal pode virar cardápio do dia se resolver catar comida.

Pratos na mesa, o banquete de Patrizia tem Sardinha. O bispo português que virou refeição dos índios caetés nasceu e morreu com nome de iguaria, vejam vocês. Presa fácil de Oswald em seu Manifesto, o religioso também traz para estas imagens de um Rio Babilônia o cardápio completo da antropofagia.

Vestida com o manto tupinambá, Patrizia serve Sardinha à milanesa – ela é D’Angello, capisce? -, como nos melhores botecos da Praça Mauá. Convida Lygia Pape para a cabeceira da mesa, onde a toalha da pintura pompier foi virada do avesso. Não há pompa nos excessos; apenas uma Babette zelosa pelo impacto de suas invenções. Comida como um pouco de cor e aconchego em todos os invernos. Como festa e comunhão, ora pro nobis. Ou como o último desejo do condenado, o derradeiro e prolongado gozo, petite morte. No fim das contas, comer também é uma forma de amar, não é mesmo?

Patrizia sabe. Ela passou a infância em volta das grandes reuniões gastronômicas da família italiana – mangia che te fa bene. Dona da própria casa, fez dela um salão de festas que acompanha sua própria carreira e a de muitos amigos artistas. Comida e bebida são ali moedas de afeto, negociadas em um câmbio sempre favorável. Há troco na troca. Garfos podem ser compartilhados, beijos roubados aqui e ali, mas cada um monta seu prato. No de Patrizia, uma das combinações traz Wayne Thiebaud cheio de pimenta, Hopper com a melancolia amolecida no leite, Zerbini como sobremesa nada light. Mas ela consegue conciliar sabores aparentemente tão díspares quanto as frutas de Archimboldo e o feijão de Anna Maria Maiolino; os vídeos de Cindy Sherman e o ego em exposição de Andy Warhol; os retratos de Vermeer, a pop, a pulp, a Nova Figuração. Como há cerejas no bolo de Patrizia. E como ela transforma as voluptuosas bolinhas vermelhas na base de seu cardápio. Os detalhes de nossa vida ordinária são o que há de mais extraordinário na obra desta artista. Em Banquete Babilônia, pintura que dá título a esta individual, ela nos convida para um sobrevoo ao apartamento de um amigo. Objetos, móveis, restos de cenário e roupas espalhadas formam o que Chico Buarque cantaria como “as sobras daquilo que chamam lar”. Estes refugos de uma possível existência nos oferecem planos e superfícies muito distintos, arranjados em uma engenhosa composição.

São uma natureza-morta? Poderiam ser, mas um cachorro à direita da cena, vivíssimo, perturba a possibilidade de classificação. E situa o trabalho da artista em uma zona de fronteira que reúne o reprocessamento de três pilares básicos da pintura: somam-se à já citada natureza-morta o retrato e a paisagem. Nesta última, é preciso falar de um determinado ângulo enunciado quase sem querer com a palavra “sobrevoo”. Esta perspectiva de quem pinta um mundo que é visto de cima é reincidente em todos os seus trabalhos, fruto talvez de um tempo em que nos acostumamos a reconhecer lugares e nos aproximar de esquinas estrangeiras com a ajuda do Google Maps.

Nas aquarelas em que retrata comidas – os frios e queijos no balcão da Pizzaria Guanabara os ou doces de uma fina pâtisserie do Leblon, ambas vizinhas de sua casa -, Patrizia deixa isso ainda mais claro. Seu olho é o da gaivota, que paira sobre as águas escolhendo o melhor peixe. Há nestas telas e desenhos um brilho que também há no mar. A artista volta e meia se encanta por superfícies reflexivas. São vitrines, fogões, panelas e prateleiras de metal que demonstram sua extrema habilidade técnica e transformam a presa em espelho, o que é retratado em autorretrato.

O banquete de Patrizia é perfumado por narcisos. Estes objetos brilhantes conseguem criar um diálogo fértil com os autorretratos da artista, sobretudo com os do vídeo e das fotos em que aparece devorando salsichões, manjar de coco e um ovo cozido, explorando o erotismo destes alimentos. Comer e “comer”, com toda a ambiguidade que os brasileiros criaram para a língua portuguesa, passam a ser a mesma coisa. A antropofagia vira autofagia.

Patrizia é meio caeté e devora o mundo como se ele fosse o bispo Sardinha. Ele é seu diverso, seu Outro, e ela o engole para roubar-lhe a força. Mas o que ela come não é um mundo qualquer, e sim aquele que pode chamar de seu: comidas, amigos, a cabeceira de sua cama entulhada de bibelôs. Uma gaivota tem bico apenas para um peixe de cada vez, e Patrizia escolhe retratar aquilo que já lhe pertence, reprocessando seus arquivos­­.

A pintura vem se mantendo viva na história da arte como um espectro de Narciso. É um espelho do mundo e, afogada no fundo do lago, devolve ao nosso olho o que enviamos a ela, imagens filtradas e embaçadas pelas águas. Com sua potência vinda de um universo submerso, algumas destas imagens triunfam e conseguem nos trazer outras, ainda mais antigas, que tinham sido engolfadas pela oferta de janelas em LED, por controle remoto e touch screen, próprias da vida contemporânea.

Com Patrizia, o espelho da pintura é posto numa casa de mágico, onde há outros espelhos tomando as paredes. Ao refletir o mundo, é como se a pintura recebesse de volta um novo reflexo numa espécie de pingue-pongue infinito. Espelho como desejo, necessidade e vontade.

Você tem fome quê?

Está na mesa.

One thought on “Patrizia D´Angello

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s