+ Shima – Cara de pau sem limites

"Remember forget", de Shima: organizadores da festa que usou imagem acham que estavam no seu direito. É para ir ou para chorar?

Publicamos na última sexta-feira a história do uso indevido da imagem da obra Remember forget, de Shima, pela festa Let´s Deejay Consuelo (lembre aqui). Na ocasião, disse no artigo que havia mandado uma mensagem privada para os organizadores da festa, através do perfil do evento no Facebook.

Ontem eles me responderam, mostrando que a cara de pau não tem limites. Assim como a desinformação – porque é sempre melhor acreditar que há uma parcela de ignorância, não é mesmo?

Sem se identificar pessoalmente, os organizadores postaram a seguinte resposta, em tom de revolta:

“Queria saber se avisaram a Da Vinci sobre esta imagem aqui”

E a seguir postaram o link que você vê clicando aqui, com a imagem da Monalisa adulterada pelo bigodinho de Salvador Dalí.

Talvez muito jovens, os organizadores da Let´s Deejay Consuelo ignoram o que é domínio público. E não entendem, também, que uma paródia dentro da própria arte faz parte das características de um sistema de referências. Mas ainda assim Andy Warhol correu riscos calculados ao usar a imagem de Jackie Kennedy ou Marilyn Monroe em algumas de suas obras. Elas podiam, de fato, ser proibidas. Não foram porque, diferentemente da Let´s Deejay Consuelo, Warhol era um artista renomado e as pessoas compreenderam o tipo de apropriação que estava fazendo.

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Dupla vergonha. Além de acharem que podem usar a imagem do Shima, desconhecem – ou fingem desconhecer – que o direito à imagem é resgardado por nosso Código Civil. Portanto, desrespeitá-lo é crime. No caso do Shima, a questão é bem mais complexa:  há o direito de imagem comprovado – é o próprio artista que está na foto, e há inúmeras testemunhas desta ação (inclusive esta que vos fala). Mas, além disso, se trata de uma obra de arte  e ele é seu autor. Há, então, duplo crime: atentado ao direito de imagem e atentado ao direito autoral.

Para quem não está a par, segue abaixo o trecho do Capítulo II do Código Civil, que fala sobre os Direitos da personalidade: 

Salvo se autorizadas, ou se necessárias à administração da justiça ou à manutenção da ordem pública, a divulgação de escritos, a transmissão da palavra, ou a publicação, a exposição ou a utilização da imagem de uma pessoa poderão ser proibidas, a seu requerimento e sem prejuízo da indenização que couber, se lhe atingirem a honra, a boa fama ou a respeitabilidade, ou se se destinarem a fins comerciais.

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A imagem do trabalho de Shima já saiu do perfil do Facebook, mas o artista tem toda a documentação de seu uso como material de divulgação no caderno RioShow, do Globo, e também a imagem adulterada na versão anterior do perfil do evento na rede social. Além disso, o artigo deste blog também serve como um registro processual.

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Para que não haja dois pesos e duas medidas

Recentemente, uma ex-BBB proibiu um trabalho de um artista contemporâneo que usava sua imagem na capa de uma revista masculina. Na época não me pronunciei, mas digo agora que, apesar de adorar o trabalho e a trajetória do artista, compreendo o lado da moça. Se ela liberasse, mostraria sua cabeça aberta e faria um bem à arte. Não liberando, no entanto, estava apenas exercendo o seu direito à própria imagem. Que ela tinha cedido à revista masculina, mas não ao artista.

10 thoughts on “+ Shima – Cara de pau sem limites

  1. Concordo com o Caio e acrescento que não esqueçamos de contextualizar esse “incidente” levando em consideração o como lidamos com novas realidades atuais, inclusive a internet.

    Supervisionar e fiscalizar todos os usos de imagens, textos e conteúdos diversos que estão na internet é algo quase sobre-humano, dado a velocidade de publicação e utilização desse conteúdo (ctrl + c/ctrl + v, salvar como, downloads, arquivos encaminhados por e-mail etc). Sou artista visual também e não sei se, nesse exato momento, alguém está copiando, manipulando, divulgando, fazendo cópias etc do material que publico no meu site. Mas, tenho consciência desse risco. Aliás, todo o conteúdo que deixo disponível na internet é pensado, de certa forma, para essa plataforma: vídeos/imagens com menor resolução, Creative Commons (quando é o caso) e seleção do material a ser publicado tendo em vista a diversidade de utilização desse conteúdo.

    Quanto à questão da arte, acho um grande retrocesso mapearmos o que é ou o que não é arte, fechá-la em sistemas ou gerarmos lutas classistas. Sim, existe o artista enquanto profissional e “pertencente”, digamos assim, ao que se convencionou chamar sistema de arte, mas não acho que isso seja e deva ser um elemento validador ou que dê força de julgo sobre tanto os outros artistas fora desse sistema como manifestações diversas fora desse sistema também. O que aconteceu com a imagem do trabalho do Shima pode/talvez esteja/está acontecendo com dezenas de outros artistas pelo mundo inteiro. Esse é o fato.

    Bem, para não ficar listando um série de pontos contra o texto da Daniela – o Caio já o fez e, ao me ver, o fez muito bem – e/ou fazer um “e-book” compartilhando indignações, vamos ao ponto: acho que bom senso e diálogo (querer e saber ouvir/falar/querer e saber ouvir…) é uma das mais saudáveis ferramentas. Se o objetivo, de fato, é um bem-estar coletivo e aprendizado comum, onde ambas as partes entendam o fazer/intento do outro e suas implicações, é possível chegar a um denominador comum (num primeiro momento, ambas as partes como: 1) Shima, o artista 2) Equipe da festa, os “interventores”), sem que se caia na berlinda – delicada, nesse caso – de simplesmente eleger um culpado.

    Penso que a arte é um território de encontros, diálogos, reflexões, aprendizados. Esse é o lado bom da coisa. Prefiro encarar esse “incidente” mais como um mote para aprendizados dentro desse território – que vai além das instituições e profissionalizações – do que mote para mais conflitos.

    Enfim, prefiro ver e ficar com o lado bom das coisas, da arte e suas implicações/contaminações/exposições.

    Um grande abraço a todos,

    Davi

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    1. Davi, obrigada pela sua participação educada. Os seus argumentos podem ser usados pela festa em juízo, porque apropriação indevida é crime. A única coisa que faço questão de frisar é que sim, é importante definir o que é o que não é arte. Um flyer promocional não é. A foto do Shima é. Este é meu trabalho. Sou curadora. Abraços.

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  2. Daniela, como amigo pessoal dos produtores da festa me senti, ao ler seus posts, no direito de deixar meu comentário, não no lugar deles, mas sim por trabalhar já há algum tempo com questões de direto autoral e afins.

    Primeiramente, queria dizer que apesar da minha relação pessoal com os produtores, entendo e apoio a sua iniciativa de trazer à luz essa questão tão frágil que assombra tantas mentes criativas ao redor do mundo. Sei o quão obscura se encontra a situação de artistas que buscam o devido reconhecimento por suas obras, principalmente quando inseridos em um mundo como o nosso; virtualizado e carente de toda e qualquer barreira.

    No entanto, gostaria de desviar a atenção para um lado menos infame dessa questão, que é justamente o lado da promoção gratuita que muitos artistas recebem, as vezes sem saber. Sei que não houve a preocupação em dar os devidos créditos ao autor da obra, mas seria isso culpa dos organizadores da festa ou culpa do site que disponibilizou a imagem sem tais informações? Ou então, falando de maneira mais abstrata, seria isso culpa da atual postura social/virtual na qual nos apoiamos? Postura essa que nos permite transmitir informações, imagéticas ou não, apenas por seu resultado, que nesse caso, agradou, sem que nos preocupemos com o processo e nem tampouco com seu idealizador.

    Concordo com você que, pelo menos no papel, esse tipo de transmissão e “apropriação” é errada. Mas o mundo, Daniela, não é preto e branco, e você como curadora, jornalista e sobretudo como uma apaixonada pela arte e seu processo criativo, deveria entender. E mesmo se fosse preto e branco, as simples nuances de cinza nos permitiriam agir de maneiras tão diversas que seria impossível regrá-las.

    Acho um tanto quanto paradoxal o seu pensamento sobre o assunto. Pontualmente ele está corretíssimo, volto a dizer. Mas será mesmo que se tratando de ARTE, em seu sentido mais plural, devemos olhar para essas questões com o olhar “militarizado” e seco que você demonstra em seus posts? Eu digo que não. A arte não é encarada desta forma desde o tempo que as grandes Academias perderam sua credibilidade crítica. Em pleno século XXI, apelar, como primeira opção, para a Justiça, um sistema de arestas definidas e impassível de qualquer flexibilidade ao falarmos de arte e processos criativos me parece impensado e injusto.

    Sei que os organizadores da festa não pretendiam que essa imagem fosse vinculada em jornais ou qualquer tipo de mídia. Como você deve ter lido na matéria (ou não) a festa em questão foi divulgada somente no facebook para amigos e amigos-de-amigos.

    Além disso, criticar a intervenção gráfica feita sobre a obra me pareceu um ato de agressão gratuita. Mais uma vez, você como curadora e apreciadora da arte em suas mais diversas formas deveria reconhecer que é justamente a falta de pretensão de tal intervenção que valida, de certa forma, o uso desta imagem. É por essa falta de pretensão que deveríamos concluir que o uso desta imagem não foi de má fé para com o autor. Por ter recebido “remendos primários” como você mesmo disse, essa imagem não convida crítico algum a dar sua opinião sobre ela, pelo menos não um crítico sério, que por assim ser deveria guardar seus comentários para obras que, de fato, estão ali para serem avaliadas. Obviamente não é o caso. E não estou dizendo isso por conhecer os produtores, mas sim por entender, do ponto de vista visual e conceitual o que a imagem se propõe a fazer e dizer.

    Com isso deixo aqui mais uma vez o meu apreço por sua atitude de defender os direitos do autor em questão.

    Quanto a resposta que você recebeu de um dos produtores, deixo que eles mesmos lidem com isso.

    Um abraço,

    Caio

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    1. Caio,

      Obrigada pelo seu comentário.
      Só existe promoção com a anuência do criador. Não houve crédito, nem autorização.
      No site de onde eles chuparam a imagem do Shima aparece, sim, crédito do artista e do nome da obra.
      É uma das primeiras imagens que aparecem no Google – e sem dúvida a mais interessante – quando se escreve a expressão “Post it”.
      Uma intervenção numa obra que não foi autorizada, grosseira, e que não é arte e sim material promocional, é uma atentado à obra de qualquer artista. E também ao meu trabalho no meio de arte. Todo mundo perde e o seu comentário só denota a falta de conhecimento sobre o assunto, me desculpe a sinceridade.
      Vacilo completo da produção. E respostas amadoras que só mostram que eles precisam fazer um cursinho antes de abrir um evento ao público.
      Amadureçam, informem-se, reflitam sobre onde começa o espaço do outro e portanto termina o de vocês.
      Abraços, obrigada mais uma vez pela sua participação,
      Daniela

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    2. Olá Caio,

      A questão é que a festa usou a imagem do Shima como ilustração de um convite para um evento comercial. Primeiro sem, e depois com a tal intervenção. Eles não usaram a imagem em uma nova obra artística, caso em que o debate seria completamente outro.
      Mas mesmo sendo em uma obra artística, acho que temos a obrigação de sermos elegantes, educados e éticos: pedir a autorização não dá tanto trabalho assim!
      abraços
      Fábio

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  3. Dentro da arte, apropriação tem uma conotação e tem sido utilizada desde muito longe. Fora, como é este caso “Deejay”, pode dar sinais claros de oportunismo (sem nenhuma preocupação ética).
    Acho que Shima tem mais é que levar adiante esta “ação” judicial, e fazer disso também uma outra “ação” – pois que provocar a reflexão é uma das maiores contribuições do fazer artístico.

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    1. Exato Khalil, esse é o ponto de distinção entre uma apropriação ética e uma sem qualquer ética. Talvez tenha sido ingenuidade, mas… quem é capaz de articular uma festa com acesso à midia, não acredito que possa ser tão ingênuo assim.
      abraços!

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