Nino Cais por Fernanda Lopes

A sessão Autor Visitante, sazonal, volta a aparecer por aqui com um texto da curadora e jornalista Fernanda Lopes, que muda de mala e cuias para este espaço virtual para falar sobre a obra de Nino Cais. O artista abre sua exposição Pitoresca viagem pitoresca, amanhã, a partir das 12h, na galeria Oscar Cruz, em São Paulo.  Na mostra, Cais se aproxima da obra de Debret. A galeria também apresenta, no segundo andar, a primeira individual de Daniela Antonelli, no processo.

Vamos ao texto da Fernanda, então?

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Pitoresca Viagem Pitoresca

Há 10 anos, Nino Cais vem construindo um mundo para si. Panelas, xícaras e bules de ágata, escovas, colheres de pau, espátulas e ferramentas para pequenos reparos domésticos são alguns dos objetos que estão à nossa volta, ou melhor, à volta do artista, e que em seus desenhos, fotografias, vídeos e colagens vão dando vida a esse universo paralelo. Nele, habitam espécies de “seres”, metade pessoas, metade coisas, com seus rostos cobertos por objetos de uso cotidiano. Estes são como indícios de mundo, de um outro mundo, construído a partir da coleção e agrupamento de objetos que reconhecemos não só a forma como também a função e de uma espécie de tentativa de estabelecer uma relação menos automática com eles.

Os trabalhos de Nino Cais sempre nos levam a perguntar, questionar, olhar de novo, travar um novo contato com a realidade. Como é possível sentar nessas cadeiras? As pás acopladas aos pés de trás de uma delas e aos pés da frente da outra, provocam inclinações que tornam impossível seu uso convencional. Ao mesmo tempo, tanto as cadeiras quanto as pás só se sustentam na posição de frágil estabilidade na qual estão, porque estão juntas. Uma não resistiria sem a outra. Em qual tempo, em qual espaço geográfico é possível que esses seres existam? Forma humana e objetos se misturam, embaralhando a identidade reconhecida de cada um, criando uma nova, indefinida, como se ainda estivesse em processo de (trans)formação.

Mas não é só a maneira como esses objetos e seres se constroem que é importante para Nino Cais. Antes, o fato de serem construídos, tem peso fundamental. A cada trabalho, a potência da ação se reafirma. A série fotográfica como Maiastra (2006) revela algo como um estudo das formas do pássaro mitológico do folclore Romeno. O artista se equilibra em diferentes posições apoiando seu corpo em copos, jarras e garrafas de vidro. Não sabemos o que foi preciso fazer para que o artista chegasse até ali e nem como vai fazer para sair. Os objetos e imagens de Nino Cais se dão no tempo, resultado do acúmulo de ações encadeadas, mas que a nós só é dado a ver um pequeno instante, uma fração de tempo. É essa ação latente, em potência, que faz muitas vezes pensar que esses são registros de uma performance, sendo que o artista nunca realizou uma performance em toda sua trajetória.

As pequenas histórias e mundos de Nino Cais são construídas. Simbólica e arbitrariamente construídas, assim como a grande História e o nosso mundo. Talvez por isso, o artista tenha se interessado em se apropriar do grande conjunto de pinturas de Jean Baptiste Debret reunidos em A Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil (1834-1839). Símbolos e arbitrariedades que são na verdade demonstrações de poder. Foi, por exemplo, o Tratado de Tordesilhas, uma convenção de 1494 envolvendo apenas o Reino de Portugal e o recém-formado Reino da Espanha, e mais nenhum outro, que dividiu entre ambas as Coroas as terras fora da Europa “descobertas e por descobrir”.

Uma das conseqüências dessa arbitrariedade e de tantas outras aparece como assunto em Debret. Suas pinturas são consideradas os primeiros registros do cotidiano e sociedade do Brasil – mais especificamente do Rio de Janeiro – de meados do século 19. Acompanhadas de textos, as imagens trazem índios, aspectos da mata brasileira e da vegetação nativa em geral, escravos negros no pequeno trabalho urbano e nas práticas agrícolas da época, além de cenas do cotidiano e das manifestações culturais, como as festas e as tradições populares. Ao usar esse material, Nino Cais revela certa artificialidade que perpassa nas situações e encontros registrados por Debret. Não é natural que aqueles portugueses estivessem ali, como também ali não é o lugar daqueles negros, transformados em escravos. O artista olha para os registros pensando no acúmulo da História que levou aqueles homens até àquele momento e também toda a História que se construiu e se acumulou a partir dali, até hoje.

Esse acúmulo é também físico. É recortando, separando, sobrepondo, recombinando, colando, as cenas de Debret que cenas que nunca existiram na História ganham corpo, que personagens ganham vida, e convivem. A colagem é elemento estruturante desses trabalhos como também é de toda produção de Nino Cais. Aqui, pela colagem, o caráter escultórico da produção do artista se torna evidente. Corpos, paisagens e elementos arquitetônicos perdem referências, personalidade e individualidade, e são tratados como objetos, como elementos passíveis de manipulação. Corpos sem alma, como julgavam os portugueses durante a colonização. São combinados, recombinados, montados e desmontados. O artista reinventa o que já está inventado, olha de novo para o que está no mundo.

Paisagens são feitas de pedaços, recortes que são reagrupados e colados criando novos lugares. Esses lugares que nunca existiram são habitados por figuras sem cabeça, ou que têm seus rostos cobertos por adesivos aplicados pelo artista ou por outros elementos, como a cabeça de um animal, flores ou coroas gigantes. Há ainda aquelas imagens onde agora só vemos o que o artista não deixa velado. As molduras, aqui feitas de bandejas dessas de festa de aniversário infantil, em alguns momentos avançam pela imagem, invadindo aquilo que deveriam ajudar a deixar separado do mundo. O que sobra são pequenos detalhes. Nino Cais, que até então tinha sua imagem presente em seus trabalhos, agora age como um narrador, acompanhando a história do lado de fora, nos conduzindo por esses recortes, essas janelas, determinando o que se deixa ver e o que não se revela da cena.

Sim, esses trabalhos remetem a uma teatralidade, a uma encenação de histórias em andamento, pela metade. Algo que não sabemos o que é aconteceu até que tudo estivesse no ponto em que estamos vendo agora. E algo está prestes a acontecer, por isso a qualquer momento nada daquilo estará mais ali. Mas não é esse o movimento do mundo? Tudo está tudo bem, ou pelo menos parece estar.

Fernanda Lopes

São Paulo, maio, 2011

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