[fotografia]³

RAFAEL ADORJÁN - Não Lugar 3 - Overbooking - Série Não Lugares

Fernanda Antoun, Julia Pombo, Julio Callado, Juliana Borzino, Rafael Adorján e Stéphane Dis estão em [fotografia]³, mostra que inaugurou o Anexo para projetos especiais da galeria Luciana Caravello, em Ipanema. Com curadoria de Beatriz Lemos, a exposição é um projeto da Belvedere – que recentemente também produziu a exposição de Daniel Lannes no Foyer do MAM (o portfolio do artista faz parte de nosso Banco, clique aqui para ver).

O cubo é a figura que apoia o conceito desta coletiva. Com seis faces, o sólido espacial geométrico se refere não só ao número de selecionados, mas também à quantidade de trabalhos de cada um deles na empreitada. Muito bem montada no espaço físico da galeria, a mostra encontra um espelho ainda mais perfeito em seu catálogo, assinado pela Inventum, do designer Sergio Filgueiras.

É lá que se vê que o cubo tem seis lados autônomos – apresentada como uma pasta, a publicação reserva uma lâmina para cada artista, que é percorrida pelo leitor como um baralho. Em sua “carta”, o artista tem um pequeno perfil, a foto que está na galeria em destaque e outras cinco imagens que não estão no espaço físico, mas que compõem ali, no papel, uma exposição expandida, virtual, que aprofunda a visão sobre aquele trabalho.

A figura do cubo projeta seu volume virtualmente, dá corpo à superfície plana e estéril do quadrado no campo de nossa imaginação. Um processo semelhante ao papel que a fotografia exerce hoje no mundo. Susan Sontag (1) nos ensinou que “a necessidade de confirmar a realidade e de realçar a experiência por meio de fotos é um consumismo estético em que todos hoje estão viciados. As sociedades industriais transformam seus cidadãos em dependentes de imagens, é a mais irresistível forma de poluição mental.”

Neste tempo cada vez mais saturado de imagens, a arte tem usado a fotografia para realizar deslocamentos nos significados daquilo que clicamos, que pinçamos para guardar para uma “posteridade” cada vez mais fugidia. Ainda assim, a fotografia continua nos dando a impressão de que o mundo visível, externo às nossas retinas, pode encontrar ecos em nossa cognição e nossa sensibilidade. Uma imagem na vitrine fotográfica pode nos levar até os arquivos que o cérebro, esta enorme ilha de edição, deixou empacotados em algum lugar, silenciando um pouco a oferta de lembranças para que não enlouqueçamos.

Trabalhe ou não com a fotografia, um artista atende ao chamado de um arquivo ou grupo de arquivos latentes, que brigam para vir à tona apesar do cérebro-filtro, cérebro-editor. Espelho tecnológico e imaterial de nossa existência moderna e pós-moderna, a foto transmite ao espectador a sensação de que é possível ter um outro acesso mais rápido às suas pastas e caixas mentais. Reconhecemos-nos ao reconhecer cada uma destas imagens pinçadas, como alguém que puxa da estante o livro certo. Perturbamos-nos, como algumas vezes acontece na exposição da Luciana Caravello, porque tirar um livro do lugar pode deixar toda uma prateleira remexida, criando um efeito-dominó em regiões inteiras daquilo que resolvemos guardar.

STÉPHANE DIS - Antiquário

A heterogeneidade dos trabalhos da mostra aponta para os diversos caminhos pelos quais se chega a esta outra percepção. O suporte é apresentado como uma linguagem em expansão, tanto real quanto simbolicamente. Há o partido low tech de Fernanda Antoun, que fotografa com toy cameras – equipamentos artesanais, de baixa qualidade, que registram a imagem de maneira analógica -; a fronteira entre performance, escultura e fotografia de Julia Pombo; o diário de viagem de Julio Callado; as apropriações e os jogos com o acaso de Juliana Borzino; o estado de suspensão criado por Rafael Adorján; o mergulho na memória de Stéphane Dis.

Neste projeto, em que todos os artistas têm qualidades, destacaria as seleções de imagens destes dois últimos e de Julia Pombo. Faço isto por acreditar que são as que melhor apresentam a potência de uma jovem carreira que, se fosse uma foto analógica, estaria na sala escura, acordando do processo de fixação.

Adorján é o que equilibra com mais propriedade a nitidez de suas escolhas e o resultado final de cada trabalho.  Na foto em que apresenta a alteração de cor pela luz  nos painéis de vidro de uma sala de espera no aeroporto ou na que mostra uma roda gigante cortada ao meio – e que, desta forma, deixa de ser roda, parece paralisada no ar -, fica clara sua aproximação daquilo que Marc Augé (2) definiu como um “não-lugar”. Este é, aliás, o título de uma de suas séries de imagens. Caminhando sobre este mapa instável, transitório e inclassificável, o artista apresenta o mundo como um conjunto de imagens solitárias, abandonadas, vindas do naufrágio e da dispersão de nossos excessos visuais.

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Veja abaixo todas as obras de Adorján em [fotografia]³; destaques dos demais artistas e o registro do catálogo da mostra:

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(1) SONTAG, Susan. Ensaios sobre fotografia.  São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

(2) AUGÉ, Marc. Não-lugares: introdução a uma antropologia da supermodernidade. Campinas: Papirus, 1994.

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