Arte contemporânea no hospital de House

House e o elefantinho com câmera escondida usado na performance da paciente

O episódio final desta 7a temporada de House, de número 23, já foi ao ar nos Estados Unidos e suspeito que deve ser o primeiro passo para o fim da série na 8a temporada.  Vai ficar difícil manter a participação de Cuddy (Lisa Edelstein) depois do surpreendente desfecho e das atitudes cada vez mais descompensadas do personagem-título, vivido por Hugh Laurie.  Mas o que mais me chamou a atenção no capítulo – que, confesso, já andei assistindo por aí – foi a presença de uma discussão importante sobre os limites da arte contemporânea.

Moving on, título do episódio, começa convidando o espectador da TV a se tornar também um espectador de arte, assistindo a uma performance da grande artista Afsoun Hamidi (vivida pela convidada especial Shohreh Aghdashloo). Ela propõe que a plateia use objetos presentes no ambiente da ação para fazer o que bem entender com seu corpo. Ah, claro: qualquer semelhança com Marina Abramovic não é mera coincidência.

Marina Abramovic, possível inspiração para a personagem do episódio

No desenrolar da participação da plateia, um homem pega querosene, molha o vestido da artista e, com uma caixa de fósforos na mão, está prestes a atear fogo em seu corpo, quando um assistente dela interfere no trabalho, contendo-o e chamando os seguranças. Depois de demonstrar revolta com o assecla, Hamidi começa a passar mal e é internada no hospital de House.

No decorrer do tratamento, como sempre acontece na série, o problema da paciente serve como espelho para o que aflige House e sua equipe. Começamos, então, a desconfiar, junto com Foreman, Thirteen e seus colegas, que Hamidi está simulando a própria doença para testar os limites de seu trabalho, filmando os médicos com uma câmera instalada em um elefantinho de pelúcia. Isso acontece no momento em que o método embasado em “os fins justificam os meios” de House na obtenção de diagnósticos vive uma radicalização e um esgarçamento, motivado pela sua fragilidade emocional depois do rompimento com Cuddy.

A discussão é interessante, tanto na arte quanto na medicina. De médicos e remédios não tenho como falar, mas paro um pouco diante da pergunta: “Um artista realmente tem o direito a fazer tudo para atingir os seus propósitos?”.

A meu ver, a resposta é simples: não, não pode.

Faz parte do impulso criador romper regras e limites pré-estabelecidos. Faz parte, ainda, o artista violar privacidades e entrar em territórios que pertencem a outros indivíduos, outras subjetividades. É aí que eu acho que cada criador precisa saber que está correndo riscos, está sujeito a punições. Não podemos fazer tudo quando há outra individualidade envolvida. Há o limite do respeito e do real propósito de uma ação, com a medição de sua abrangência e de seu potencial. O equilíbrio entre estes fatores é que torna uma obra de arte válida e procedente. O desequilíbrio deixa o artista exposto a penalidades que, eventualmente, são a meu ver mais do que justas e necessárias.

Não temos parado para pensar  no rastro de nossas ações em nenhuma área da vida. E os artistas, sobretudo os mais jovens, deixam de fazer isso de vez em quando também. Cildo Meireles queimar galinhas vivas em Tiradentes (1970), em plena ditadura militar, tinha uma consonância com a violência do momento que nem todo trabalho de arte contemporânea possui. E alguns não são feitos com bichos, é bom que se diga. Alguns usam a imagem alheia sem autorização, expoem pessoas ao ridículo e ao vexame.

Repito: se o impacto e validade disso são reais, o trabalho se justifica. Se não há amarras e consistência que segurem esta entrada no território pantanoso do desrespeito… Acho, sim, que o artista deve arcar com as consequências. O que não significa que o trabalho não deva ser feito, muito pelo contrário. Ficou difícil entender o raciocínio? Pensemos juntos, então.

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Veja abaixo o trailler do episódio Moving on:

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