ArtRio: a vida até parece uma festa

OPAVIVARÁ! e o "Self service Pajé": congraçamento com o público é a marca da feira

Voltei ontem do Pier Mauá, da inauguração da primeira ArtRio, com a sensação de um filme repetido. Um filme bom, que traz  a certeza de que a grande vocação dos cariocas é fazer excelentes festas – usando-as para adoçar e amolecer a aridez dos eventos comerciais.

Minha memória viajou até 1999, quando o Sindicato Nacional das Editoras de Livros (Snel) renovou a Bienal do Livro do Rio de Janeiro transformando o Riocentro em uma grande celebração da literatura. Havia estandes de editoras e venda maciça de livros dos mais variados tipos, exatamente como na Bienal de São Paulo – que no mesmo período ameaçava a edição carioca com a ambição de se tornar um evento anual, competindo com o Rio no ano que deveria alternar com ele.  Mas o Snel deu o pulo do gato com a criação do Café Literário, grande salão projetado como um aquário de vidro em ponto estratégico do pavilhão. Autores vão até lá para debater, fazer leituras e podem ser entrevistados por grandes interlocutores. Até hoje, o público tem acesso a estes eventos através de distribuição de senhas gratuitas e pode ver e ouvir seus escritores favoritos enquanto degusta um capuccino ou um mate. Quem não consegue senha pode ver ao menos o que está acontecendo através do aquário, e também com o auxílio de caixas de som e telões.

Ana Maria Machado e Ruth Rocha no Café Literário da Bienal: autoras infantis mais perto do público e dos professores que adotam seus livros em sala de aula

Enxergar que o livro foi feito por um alguém de verdade, com corpo, olhares e sorrisos, deu humanidade à Bienal do Livro. O resultado? Aumento expressivo nas vendas. O evento também passou a ser prestigiado, naquela edição e nas posteriores, por autores do gabarito de José Saramago e Salman Rushdie; por grandes nomes nacionais, como Lygia Fagundes Telles; e por celebridades como Anne Rice (que voltou à feira este ano), Chico Buarque e Caetano Veloso.

O Café Literário foi a semente para muitas outras atrações que a feira exibiria ao longo de suas edições – caso, por exemplo, da Arena Jovem. A Festa Literária de Paraty, criada em 2003, roubaria um pouco este papel de centro das discussões sobre autores e livros. Mas a Flip não tem a venda de livros como foco principal, embora colabore decisivamente na divulgação de determinados autores. E seu isolamento geográfico faz com que se caracterize como uma espécie de “micareta literária”, no melhor dos sentidos: é uma maratona, um ponto de encontro para quem já foi seduzido pelo livro.  A Bienal continua concentrando a grande responsabilidade de atrair novos leitores. A festa carioca colabora de forma fundamental neste processo.

Ontem, no Pier, pensei que a ArtRio pode fazer o mesmo pela arte brasileira. Embora o papel pioneiro da SP Arte seja indiscutível e louvável, a versão carioca, que certamente será aperfeiçoada nos próximos anos, acertou logo de cara na captação deste espírito agregador da cidade.  As áreas de confraternização, à beira da Baía, são perfeitas para conversas mais demoradas, longe do estande, e também para descanso e até namoro. Vi vários casais ontem à noite aproveitando as cadeiras de praia do OPAVIVARÁ!, espalhadas estrategicamente ao longo da “orla”.

A atriz Zezé Polessa criou seu chá

O grupo, aliás, foi responsável por um momento da inauguração que sintetiza o espírito da ArtRio: a ampliação do trabalho Cerimônia do chá, apresentado pela primeira vez na mostra Jogos de guerra e agora rebatizado de Self service pajé, transformou-o em uma espécie de quiosque. O público recebe um sachê vazio e pode enchê-lo com a mistura de ervas que lhe convier – há dezenas delas disponíveis no mostruário oferecido pelo grupo. Feito seu próprio blend, é só receber um copo limpo, enchê-lo com a água quente que sai de chaleiras elétricas e degustar. Esta sensação de comunidade e de comunhão, estendida ao público, sempre foi um norte para o OPAVIVARÁ!

Parece ser também a bússola da nova ArtRio.

Mais chá, por favor, e um brinde pela vida longa.

(Ah, antes que eu me esqueça: viva o Rio de Janeiro!)

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RAPIDINHA, para terminar:

Outro ponto a favor da ArtRio é a arquitetura. Com todos os estandes no mesmo plano, há uma sensação maior de equilíbrio entre as várias galerias. As noções de centro e periferia, muito claras na distribuição entre os andares da SP Arte, aqui caem um pouco por terra. Não há favela – ou tudo é favela, o que pode ser ainda melhor.

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RAPIDINHA bônus:

Para matar a saudade de Mercadão de Madureira, parabéns pra você, trabalho do OPAVIVARÁ! na exposição Mapas invisíveis – Rio de Janeiro.

2 thoughts on “ArtRio: a vida até parece uma festa

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