Conversa de artista

JULIA DEBASSE: "O início do mundo"

A exposição Conversa de artista, em cartaz na Amarelonegro, é um curioso exercício de curadoria. Integrantes do casting da galeria convidaram artistas que, no seu entender, estabelecem um diálogo com seu trabalho. Nesta entrevista coletiva – no sentido mais amplo do termo -, abro o espaço do blog para que as conversas entre os artistas se transformem em palavra. Os integrantes de cada dupla fazem uma pergunta para seu interlocutor, que devolve a resposta e uma nova pergunta, respondida pelo outro.

Ler as respostas gera uma sensação parecida com a de percorrer a montagem – que, apesar da quantidade de obras, conseguiu ampliar o pequeno espaço da sala em Ipanema: recosturamos devagar as associações pensadas pelas duplas. Algumas se resolvem já no campo visual, como ocorre, por exemplo, com os retratos realistas de Patrizia D’Angello e Matias Mesquita. Outras são mais enviesadas, como a que aproxima o estado de permanente evanescência, dispersão e melancolia que atravessa as obras de Raul Leal e Maria Mattos. Outras podem ser visuais e narrativas, como a que une os desenhos de Danielle Carcav e Julia Debasse.

Segui nas duplas de perguntas e respostas a mesma ordem do percurso da galeria. E, dentro de cada dupla, o artista anfitrião sempre questiona primeiro o artista visitante, abrindo sua casa para a tal conversa.

Espero que gostem – eu adorei o que li.

 

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Raul Leal conversa com Maria Mattos:

Vejo no seu trabalho uma insistência no uso de materiais frágeis, moles mesmo. Fale um pouco sobre isso e sobre as questões que podem ser levantadas a partir daí.

MARIA: Optei por montar as ” imagens-paisagens” com materiais frágeis e flexíveis, pois eles adicionam e sustentam essas paisagens com uma nova coloraçāo. Quando completo o quadro com os pequenos objetos, a luz e a fotografia, todas essas camadas sāo reposicionadas no mundo real, que é sustentado por esta nova construção.

Maria Mattos conversa com Raul Leal:

Como acontecem as escolhas das suas imagens que passam por uma diluiçāo e fragmentaçāo ?

LEAL: Minhas escolhas partem do registro de momentos do cotidiano, faço muitas imagens e depois seleciono as que se encaixam na minha ideia para o trabalho. Fiz uma série grande com imagens de espaços externos de circulação, agora estou trabalhando com espaços internos, me interessam esses lugares de passagem, sem muita identidade.

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Danielle Carcav conversa com Julia Debasse:

Por que a palavra se faz constante dentro do seu processo?

JULIA: O verbo é a incubadora de toda ideia… É como ela nasce e como ela se justifica para o mundo. O meu trabalho, sendo sempre tão narrativo, às vezes depende da palavra mesmo quando ela não é uma presença gráfica – depende de um título, de um verso. Eu não busco, deliberadamente, usar a palavra – mas ela se faz necessária. Meu trabalho não pensa a arte através da arte – ele pensa a arte através da literatura, da canção popular, enfim, de formas de arte onde a palavra não é opcional. O verbo encarna as coisas do mundo, e, às vezes, torna o que é claro, dúbio…

 Julia Debasse conversa com Danielle Carcav:

Vendo os seus trabalhos recentes lembro de um verso de uma canção do Bob Dylan que diz: “some of thse memories you can learn to live with/ and some of them you can’t”. Como a memória e a dor se relacionam no seu trabalho?

DANIELLE: Na verdade, dentro do meu processo existe uma personificação da memória através de como ela se estabelece na emoção. Percebo a memória como uma permanência ausente, que se justifica pelo nível de apego que se dá a ela. Assim, uma lembrança pode reverberar num estado emocional que se torna parte de você ou, às vezes, se torna você. Um amor é um ente, uma raiva é um ente e uma dor também é um ente.

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 Andréa Facchini conversa com Rebeca Rasel:

 Queria saber um pouco mais da sua relação com esta “memória dos objetos”, que são apropriados em teu trabalho, sejam eles fotografias, páginas de diários e revistas, mobiliário, máquina de escrever etc, e como eles dialogam neste seu trabalho em colagem.

REBECA: Gosto de dizer que cada objeto apropriado se torna um elemento estruturante para o trabalho. Por exemplo, se em uma colagem acrescento acrílica ou nanquim sobre uma página ou fotografia, é porque tenho interesse pelo sentido de velatura que o branco e preto destes materiais podem agregar ao trabalho; mais que escolhas formais, cada elemento (a fotografia antiga, a tinta, a página de livro…) é parte de uma “gramática” que constrói o corpo (no caso, a “escrita”) de minha pesquisa. Pois a colagem é mais que uma “composição e/ou rearranjo a partir de fragmentos outrora dispersos”; acima de tudo, é uma construção de sentido.  Em nossa Conversa de artista, apresento um díptico de colagens chamado Monumento II: Retrato e(m) marulho. Escolho este trabalho, Andréa, pois vi em tua imagem de infância e(m) desaparição (isto é, os corpos que, como a lembrança, se diluem, dispersam) uma proximidade com a construção de corpo e lugar em meu trabalho. Retrato e(m) marulho parte então da colagem sobre tela e papel para falar da impossibilidade de reconstrução deste corpo e lugar. Pois “marulho” pode tanto ser os fragmentos de fotografias mares e rios como também um sussurro, uma lembrança nem sempre possível. Assim como a idéia de “retrato”, que carrega a de pose, que é gesto forjado e ainda intuitivo. E é neste ‘guardar o melhor gesto e lembrança de si’ que vejo um diálogo entre nossos trabalhos, posto que a cada momento reativamos – e revisitamos – lugares sensíveis de infância e devir.

 Rebeca Rasel conversa com Andréa Facchini:

 Como se dá a relação deste lugar da vivência pessoal, do encontro com as fotografias e álbuns de infância, com o teu pensamento em pintura e desenho?

ANDRÉA: Fugidios, como a memória que vem e vai, vultos de meninas, numa materialização sugerida por vestidos em movimento, passam pela tela neste jogo entre presença e ausência, em fragmento de ciranda, pique-esconde de imagens. No trabalho que apresento nesta Conversa de artista, ainda estão os tecidos de pinturas anteriores, agora habitados mais claramente pela memória. Pois, de fato, para mim, este repertório temático sempre foi impregnado da memória do feminino familiar, das costuras e dos bordados. Esta é uma relação importante que vejo entre estes momentos da minha pesquisa. Mas, diferentemente dos trabalhos anteriores em pintura, “Pique – Some” parte de referências fotográficas pessoais, de antigos álbuns, carregados de significados. Mais que reeditar uma cena procuro a conexão com sensações fugidias que povoam a memória íntima de experiências vividas, o seu compartilhamento e ressignificação. Neste contexto, uma cor/ carimbo, substitui a exuberância cromática anterior e o excesso, dilui-se nos vazios. Na série dos tecidos, vejo-os como corpo com fluxo e energia próprios e suas estampas, como tatuagem sobre pele. Agora, sob os tecidos animados, é o próprio corpo que se apresenta no seu desaparecer, revelando-se/escondendo-se em movimento e flutuação constantes. Neste povoamento de personagens e no pertencimento ao território do lúdico é que este mais recente trabalho se conecta, também, com os meus desenhos.

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Patrizia D’Angello conversa com Matias Mesquita

Como vc pensa a separação entre artista e artesão na arte contemporânea? Essa separação dá conta das questões que se apresentam hoje?

MESQUITA: Na verdade, a questão da separação vem dos tempos áureos da pintura clássica, quando o termo artesão começou a ser dissonante aos ideais próprios de cada artista dentro do universo sensitivo, num momento em que as artes plásticas não eram reconhecidas como tal. Antes disso, a busca pelo fazer e a descoberta do conhecimento através da experimentação formavam praticamente um caminho espiritual para os artesãos daqueles tempos remotos. Era necessário estar presente em tantas áreas de atuação quanto as encomendas que lhes eram incumbidas – de um delicado afresco até uma igreja inteira, se possível. Tenho comigo que um artista, com real comprometimento com seu próprio trabalho, traz consigo esse mesmo movimento em sua essência. Para a construção de uma linguagem própria, fazemos uso de todos esses elementos. A maestria está no equilibrio harmônico entre o aprimoramento técnico, a poética visual e a idéia fundamental que dá sentido a obra. Nos vemos então mergulhados em tantas áreas de atuação possiveis na busca de um sentido mais amplo e corpo ao nosso trabalho. Talvez a separação agora não seja nem a questão em si, pois é muito provável que sejamos os novos artesãos do século XXI.

Matias Mesquita  conversa com Patrizia D’Angello

A pintura e o desenho figurativo costumam trazer consigo discussões acaloradas sobre o que é artístico ou meramente ilustrativo. Partindo do principio que a Arte hoje em dia já não se sustenta em regras ou julgamentos preconcebidos, quais são as fronteiras para se definir o que é uma obra de arte ou o que seria uma ilustração?

PATRIZIA: De fato, a questão ainda gera discussões acaloradas, mas me parece um tanto anacrônico que ainda se encare a pintura e o desenho figurativo como meras tentativas de representar o real, por mais que os exemplos em questão possam se aproximar da percepção visual que se tem do mundo. Essa concepção que associa a figuração realista à simples mímesis fazia sentido num contexto repleto de cânones, de como a arte deveria ser, mas, num tempo onde nem a própria fotografia pode mais dar conta dessa função de representação, me parece óbvio que colocar num mesmo saco toda e qualquer imagem que se aproxime, na aparência, do real é no mínimo ingênuo, pois, desde as Brillo Box do Wahrol, não se pode mais determinar se algo é ou não uma obra de arte simplesmente a partir da visualidade da mesma. Os juízos de valor não podem mais ser absolutos, devem ser relativos, o que não quer dizer que tudo possa ser relativizável. Não temos mais princípios críticos fechados, pré-estabelecidos. Portanto, é na relação com o trabalho que eles vão se dar, não há como definir de antemão. A grande questão é resignificar, os princípios hoje são provisórios, valem aqui, mas ali podem já não mais valer. De um modo geral, tendo a pintura podido resgatar sua dimensão narrativa sem correr o risco de não ser considerada arte, acredito ser ilustração aquilo que nasce com o propósito de ilustrar algo, seja uma matéria de revista, um livro infantil, um manual de instruções… digo isso de maneira bem relativa, pois até mesmo aí podemos estar cometendo alguma inapropriação. Por outro lado, não quer dizer que qualquer imagem que nasça sem um propósito funcional, ilustrativo, possa por isso ser considerada arte. É somente no embate com a obra em questão e a poética do artista que se pode formular algum juízo de valor.

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RAFAEL ADORJÁN - "Central", da série Urbelux

Rafael Adorján conversa com Juliana Borzino:

Na própria montagem, conversamos sobre isso. Observando a sua pesquisa atual a partir da série exposta, é possível perceber uma  atmosfera sequencial, mas isso não necessariamente implica em uma ordenação. Diante disso, como você lida com essa questão processual? Quando você acha que é realmente o momento de entregar o trabalho ao mundo?

JULIANA: Lido com a questão processual diariamente, tanto através de pesquisas, caminhadas e sketchbooks, quanto através da busca por materiais, como papéis, enciclopédias antigas e revistas. Não existe uma ordenação em si, mas o processo dos desenhos se inicia ao mesmo tempo, e geralmente se inicia a partir de um determinado espaço, onde, ao longo do fazer, eles se encaixam. O momento de entregar ao mundo vem quando os limites do espaço e da linha falam por si.

Juliana Borzino conversa com Rafael Adorján:

De que maneira a sua relação com o espaço entra no seu processo de trabalho com a fotografia?

É uma busca constante, justamente a condição sine qua non pra que de fato exista ou aconteça algo. Lidamos com o espaço todo momento, seja ele construído ou imaginado. Dentro desses espaços, que podem ser preenchidos de vestígios, ausências ou mesmo intervalos, habitamos certos lugares e outros não-lugares, onde são criadas diferentes relações, que podem trazer referenciais ligados à memórias e afetos ou que simplesmente apresentam uma condição de deslocamento, onde não se deixa de estabelecer uma forma de relação. Na verdade, o que costumo dizer é que preciso sempre estar atento.

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João Penoni conversa com Tiago Rivaldo:

Por que transformar um quarto de barco em uma câmera obscura?

RIVALDO: Eu estava muito impressionado com a paisagem amazônica, de um jeito que nunca imaginei que a natureza poderia me surpreender. Aí convidei a tripulação do barco para visitar a câmara e os vi entusiasmados, encantados com a deformação daquela imagem de cabeça pra baixo que vem da mesma paisagem que eles vêem todos os dias e que não os impressiona como a mim… Talvez fazer do meu quarto camera obscura tenha sido tentativa de me familiarizar, deixar me invadir, tornar meu. Mas de qualquer maneira acho que tudo é pretexto para a imagem, para a imaginação.

Tiago Rivaldo conversa com João Penoni:

Em geral eu realizo trabalhos em viagens que se dão por motivos alheios a isso. Como é isso para você? Que importância têm as viagens e como se relacionam com os trabalhos?

PENONI: No início, a paisagem não era tão presente no trabalho. O corpo quase sempre aparecia em situações controladas de estúdio. Mas com o tempo fui aproveitando os momentos de viagens para lugares inóspitos e novas situações foram aparecendo. O que mais me interessa nesses trabalhos que venho inserindo o corpo em paisagens é o fato de não poder controlar as coisas. Os lugares é que vão sugerindo as situações. Por exemplo, quando fui para Pernambuco e conheci os manguezais incríveis e enormes, percebi uma oportunidade perfeita para fazer minhas experiências do corpo em movimento, se pendurando pelas raízes e se fundindo com entorno.

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