Sonia Andrade – último dia

Uma das ratoeiras de "A caça"

Termina hoje, no Centro de Artes Hélio Oiticica, uma das mais importantes exposições apresentadas no circuito carioca este ano. Se você não viu Sonia Andrade – Retrospectiva 1973-1994, recomendo que corra para o HO. Com curadoria de Marisa Flórido, a mostra apresenta um panorama da obra da artista e evidencia a força de sua obra para muito além do decantado e evidente pioneirismo nas experiências com videoarte no Brasil.

"Intervalo", de 1983

Logo na entrada do HO, Sonia é apresentada a partir daquilo que mais se conhece dela: um conjunto de vídeos realizados na Suíça, em Paris e no Rio de Janeiro. Marcados pela ironia e pelo uso do corpo como um objeto perturbador e político, em situações que avizinham seu trabalho da obra de Letícia Parente, recentemente revista em outra ótima exposição  no Oi Futuro. Rever estes trabalhos de Sonia já seria motivo suficiente para ir até a Rua Luis de Camões, mas o segundo e o terceiro andares do HO revelam aspectos surpreendentes para quem tem menos intimidade com um panorama mais completo da atuação desta artista tão potente, que vem criando a partir de meios variados: foto, vídeo, caligrafia, instalação e arte postal.

Merece atenção especial a série Hydragrammas, no segundo piso. Apresentado pela primeira vez no Museu Nacional de Belas Artes, em 1993, este conjunto de mais de 100 objetos é uma espécie de inventário subjetivo, cartografia e dicionário de procedimentos e formas artísticas. Como um baralho de tarô, apinhado de imagens arquetípicas, os Hydragrammas se apresentam como uma espécie de vestígio arqueológico, mas do tempo presente. Não é possível passar imune à sala e a cada objeto nossa visão é assombrada por imagens de Duchamp, Louise Bourgeois, Artur Bispo do Rosário, como se a coleção de Sonia pudesse conter tudo o que já foi visto, embora nada seja apresentado de maneira didática ou explícita. Enxergamos tudo de relance, como no flashback de uma vida inteira que passa na memória de alguém que sabe estar prestes a morrer afogado – imagem usada por Henri Bergson para explicar o que seria a sensação de dejà vu.

No terceiro piso, vê-se a série A caça, em que imagens sacras são misturadas a ratoeiras, e um conjunto de instalações que têm como ponto de partida a relação com a fotografia. Em um dos trabalhos, Sonia apresenta fotos que tirou ao longo de oito anos e retratam o céu em uma situação específica: quando ele é marcado pela passagem de um avião, que deixa ali um rastro, como uma nuvem, desenho que marca um corpo virtual, que não está mais lá. A ideia de um inventário de coisas do mundo é mais uma vez muito marcante, assim como no trabalho vizinho, em que ela une camafeus de louça que mostram pequenos pés, como se estivessem em lápides, a uma fileira de sapatos dourados. Ascensão. E, como num bis, a ativação de uma matéria ausente, memória do corpo.

A visita se completa com o trabalho de arte postal apresentado pela artista na Bienal Internacional de São Paulo de 1977. Em um tempo no qual a internet ainda não existia, Sonia conseguiu formar um sistema radial e propositivo com os visitantes da exposição. Eles participavam de uma série de ações, entre elas enviar por Correio, para o Pavilhão do Ibirapuera imagens de suas cidades que “atualizavam” antigos postais, descongelando ícones e estereótipos e desencadeando uma reflexão sobre o  lugar que cada um ocupa no mapa. Encontrar seu lugar no mundo é, afinal de contas, a condição primeira para que se acredite na própria existência.

Parte da série “Hydragrammas”: inventário arquetípico da arte

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Eu poderia falar muito mais desta exposição que mexeu tanto comigo. Mas prefiro resumir tudo em uma única palavra, para que o eventual leitor do blog não perca tempo: vá.

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