Luiza Baldan, começo e fim

O sábado é agitado, com muitas aberturas desafiando aquele tipo de carioca de papel, que odeia chuva. Tem livro-catálogo  de Sonia Andrade sendo no HO, emoldurado pela exposição de Weissmann; Ivens Machado abrindo na Casa França-Brasil; Marcus Lontra com a coletiva Pop Popular no Parque das Ruínas. E tem Luiza Baldan, início e fim. O fim: último dia da exposição Insulares e marginais, na galeria Mercedes Viegas, na Gávea. O início: Algumas séries, panorama da trajetória da artista no Museu de Arte Contemporânea, em Niterói, a partir das 17h.

A mostra da Mercedes é feita de fotos e um texto produzidos em uma residência na Península, onde Luiza morou um mês para fazer  o trabalho da exposição Mapas invisíveis, da qual assinei a curadoria (leia o texto aqui). Eu e Fred Coelho, que assina o texto de Insulares e marginais (leia aqui) aproveitamos esta duplicação na agenda da artista e formamos também uma dupla. Com duas perguntas cada, fizemos uma entrevista relâmpago com Luiza, que oferecemos agora para vocês.

No MAC, a curadoria é de Guilherme Bueno (texto aqui) e Algumas séries mistura imagens de vários grupos de trabalhos.  

Ao papo, então:

A piscina do "Raposão", em Santa Teresa, residência feita este ano

DANIELA NAME: As residências no Pedregulho e sobretudo na Península, somadas a sua dissertação de mestrado, passaram a enfatizar a importância da palavra na sua obra. Como você foi se dando conta disso e como esta presença da narrativa – ainda que de uma narrativa esgarçada, sem começo, meio e fim – alterou o seu método de trabalho e de captação de imagens?

LUIZA BALDAN: Quando eu entrei no Pedregulho em 2009, já estava cursando o mestrado. Naquela época, meu orientador, Milton Machado, me questionou sobre os bastidores do ato fotográfico. Ele quis saber como se davam as cenas. Então, para bolar a narrativa, eu revisitei mentalmente os espaços vividos, criando ficções sobre as experiências, baseando-me nos fatos reais. Foi assim que comecei a misturar o factual ao biográfico nos textos, inclusive na própria dissertação, quando usei do mesmo procedimento para descrever as ambiências de todas as casas onde vivi quando criança, procurando relações entre a memória infantil e o meu trabalho em arte.

FREDERICO COELHO: Até que ponto sua imersão pessoal nos lugares de trabalho – como no Pedregulho, no Rapozão (Santa Teresa) e na Península – são fundamentais para sua obra? Ela é uma espécie de “ritual” que lhe deixa disponível para a invenção de um olhar específico em cada local?  

LUIZA BALDAN: As imersões são fundamentais e elas acontecem em diferentes escalas. Digamos que o formato “residencial”, como se dá de 2009 até agora, seja o mais radical porque preciso adaptar a minha rotina a um novo esquema de vida dentro da minha própria cidade, e tudo isso em um tempo relativamente curto e intenso. Mas se você pensar que eu trabalho basicamente com o Rio de Janeiro, minha cidade natal e residência fixa, a maioria dos demais projetos que continuam em andamento – Diário Urbano, Pinturinhas, etc. – também são imersivos, porque vivo aqui e me relaciono diretamente com a urbe. A imersão, então, me ajuda a construir um olhar mais atento sobre as pequenas sutilezas do cotidiano porque me tira da superfície do primeiro impacto visual nos lugares, para atingir situações corriqueiras que continuam me impactando dia a dia. Morar lida com a adaptação, com a intimidade, com o afeto ou a hostilidade que as relações de moradia me obrigam a enfrentar, e tudo isso modifica significativamente o meu olhar.

DANIELA NAME: A noção de ruína, muitas vezes uma ruína de futuro – ou “ruína do que ainda não é”, como vc definiu em texto recente – é muito presente em seu trabalho. Poderia falar um pouco mais desta relação entre arquitetura, abandono e memória no seu trabalho?

LUIZA BALDAN: Acho que a relação entre arquitetura, abandono e memória está na maneira de trabalhar com o tempo. No meu caso, atraio-me pela ideia de suspensão, suspense. A arquitetura no meu trabalho é a estrutura que abriga, que protege, como em Tugúrios, minha série que lida mais diretamente com ruínas. Os espaços arquitetônicos, além de servirem como cenário, trazem as referências históricas do período da construção e, quando em ruína, trazem as marcas desse tempo de uso e até de deterioração. No meu caso, por não me interessar por ruínas-monumentos, mas por ruínas-casas, ainda em atividade, trabalho com a intenção de cruzar esses tempos remotos, o histórico e o atual, fazendo com que um alimente o outro, contribuindo para a tal suspensão que comentei antes. É como perder a noção em qual tempo se está, porque não há indícios concretos de que a foto é de 2011 ou de 1948. Eu brinco sempre com isso, de diversas maneiras possíveis, não só através da arquitetura. Quando você fala de abandono, é a mesma coisa. Os espaços estão de fato abandonados ou é um mecanismo de suspensão temporal na imagem? Porque os lugares aparecem muitas vezes abandonados, ou sem a presença humana, mas os vestígios da ocupação estão lá, mostrando que há trânsito e, portanto, ação. É na abstração de um tempo preciso que eu abro a brecha para ficcionalizar e permitir que o espectador possa fazer o mesmo, reconhecendo um lugar sem nunca haver estado nele, rememorando uma história há muito vivenciada ou simplesmente criando novos questionamentos sobre o cenário da imagem.

FREDERICO COELHO: Sendo uma artista que trabalha com fotografia em uma época lotada de estímulos visuais e banalizações digitais da imagem, como você localiza a especificidade da fotografia no atual momento da arte contemporânea brasileira? E do seu trabalho em particular?

LUIZA BALDAN: Acho complicado falar de uma especificidade da fotografia. Talvez prefira falar de um mundo de possibilidades que as imagens digitais trazem – daí entra o vídeo também – que é totalmente contemporâneo e fértil para as artes. E para mim, também há um mundo riquíssimo que a fotografia analógica continua me proporcionando. As minhas fotos são bastante tradicionais e se relacionam formalmente com a história das imagens, que antecede e muito a invenção das máquinas fotográficas. Não me importa se é analógica ou digital, mas se a imagem expõe efetivamente a intenção de quem a fez. Não se trata necessariamente de haver um conceito, mas de se ter uma intenção clara e objetiva, ainda que seja para fotografar a si mesmo. E este é um problema que sempre existiu, mas que se agrava com a proliferação desvairada da produção imagética atual, porque é enorme o número de pessoas que não sabem o que querem dizer com suas imagens, mas fazem questão de mostrá-las ao mundo como sendo uma obra de arte. E talvez a questão da banalização não venha tanto da facilidade em se fazer a imagem, mas em exibi-la. 

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s