Cícero viu o mundo

O casal Dias em Paris: jantares que incluíam pernoite para convidados durante a Ocupação

Ainda era 2011 quando recebi em casa Cícero Dias Eu vi o mundo, edição caprichadíssima da Cosac Naify com as memórias do pintor Cícero Dias. Como o tempo na web é ainda mais elástico, acho que nada me impede de escrever sobre ele agora, não é mesmo?

Com notas de Augusto Massi e posfácio de Mario Helio Gomes, o livro reúne ainda um depoimento da viúva de Cícero Dias, Raymonde, que forneceu à editora a primeira organização do material. A embalagem luxuosa é coroada por imagens pouco vistas em exposições, como os croquis dos figurinos feitos pelo artista para o balé Maracatu de Chico Rei, de Mário de Andrade, dançado em 1934 no Municipal de São Paulo. Há ainda fotos da rotina de Dias em Recife, no Rio e em Paris – foi na capital francesa que ele passou boa parte da vida.

O livro mostra de maneira cristalina que Cícero Dias é um dos pilares de um sofisticado pensamento moderno que nasce no Recife ainda nos primeiros anos do século XX.  Foi para mim um alimento, já que preparo, ao lado de Marcus Lontra Costa, a exposição Modernismos, que vai discutir justamente a impossibilidade de se estabelecer a primazia apenas de São Paulo na orquestração do sonho moderno brasileiro.

Além das relações com figuras nacionais do porte do já citado Mário de Andrade, Manuel Bandeira ou Gilberto Freyre, Dias construiu uma rede importantíssima em Paris. Foi amigo de Picasso e Louis Aragon e algumas das histórias mais saborosas do livro narram os bastidores de uma cidade-luz que teve seus momentos de agonia e apagão.

Selecionei um destes trechos abaixo, em que o texto fluido e saboroso narra a chegada de Freud, fugido de Viena, na Paris ocupada pelos alemães durante a Segunda Guerra. Nele, Dias também relata como ele e a mulher faziam para contornar o toque de recolher: ao convidar os amigos para jantar, distribuíam camas extras pelo apartamento. A refeição incluía pernoite. A passagem é um dos motivos por que vale muito a pena ler e ter este livro:

‘A maldição desceu sobre Viena’

Um pouco antes da guerra, Freud ainda estava em Viena quando os nazistas começaram a perseguir os judeus. O embaixador americano foi buscá-lo e ajudá-lo a ganhar Londres. Pernoitou em Paris num pequeno hotel do Quartier Latin chamado Hotel Du Brésil. Quando os estudantes foram informados, mestre Freud já tinha partido. George Hugnet esteve com ele em companhia de Allendy. Freud contou a Hugnet todas as atrocidades alemãs na Áustria. Disse: “A maldição desceu sobre Viena”. Os nazistas perderam esta presa simbólica. Louis Aragon o procurou para conseguir uma entrevista com Freud. Este, porém, recusou devido aos compromissos com a Embaixada americana, que o conduziria a Londres, rumo aos Estados Unidos.

Nessa Paris ocupada pelos alemães, justificou-se o mercado negro. Restaurantes de categoria não estavam sujeitos a restrição alimentar. Caso do Maxim’s: sua clientela era composta especialmente de altas patentes do exército alemão. Eu só freqüentava pequenos bistrôs onde o dono conseguia preparar ótimos pratos na base do mercado negro.

Os ocupantes obrigavam a população francesa a se submeter a um regime rigoroso de tíquetes, agravando a saúde das crianças e dos idosos, medida esta que veio desenvolver o mercado negro.

Qualquer jantar que eu oferecia era obrigado a colocar camas disponíveis para os convidados. Eles não podiam se arriscar a andar à noite pelas ruas após o toque de recolher, o chamado couvre-feu. Todas as janelas estavam vedadas, pintadas de azul escuro, isolamento total. Nenhum sinal luminoso seria percebido do exterior. Bleu total.

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