Raul Mourão e a cidade do afeto

“Toque devagar”, último dia na Praça Tiradentes

Hoje é o último dia para ver as exposições de Raul Mourão Toque devagar, na Praça Tiradentes, e Processo, no Centro Carioca de Design. Paralelamente, o CCD também apresenta uma prévia de Casas, individual que Luiza Baldan inaugura no dia 9, terça-feira. Às 18h, uma palestra com o Pedro Rivera e outros convidados mergulha a obra de Mourão em uma conversa com a arquitetura e o urbanismo.

Ainda quero escrever com calma sobre o impacto do que vi na Praça Tiradentes. Na correria deste sábado, digo que as peças gigantescas feitas de tubos de metal que tomaram a praça em Toque devagar apontam para um tipo de intervenção pública muito peculiar. Nada é para sempre, e a ocupação do espaço se dá de forma rápida, muito barata, como um convite à interação dos passantes.

Toque devagar destaca ainda a transformação por que passou a obra de Mourão nos últimos anos. Ela ficou mais clara depois de uma parceria do artista com os bailarinos da Intrépida Trupe – já um momento em que a obra se abria à interferência e ao ruído de outras pessoas. O movimento  passou a ser elemento e motor de sua criação e, amadurecida esta curva em sua trajetória, o escultor vem fazendo de sua obra quase um espelho do Rio de Janeiro ao longo das últimas duas décadas.

Se no início da carreira Mourão falava de grades que interditavam e protegiam o Rio de todos os medos, agora ele compartilha com o público obras que se movem, como talvez esteja se mexendo e se transformando o sonho dos cariocas. É uma escultura que se abre, como esta cidade, para novas perspectivas.

A monumentalidade cigana, transitória e lúdica proposta em Toque devagar também aponta para uma arte – e para uma cidade – cujas marcas podem se fazer de formas menos impostas. A ideia não é eternizar uma assinatura na paisagem com um elemento externo, e sim encontrar com um lugar – neste caso específico com a histórica Praça Tiradentes – durante um  determinado um tempo, ressaltando-lhe belezas e imperfeições, conversando com seu monumento dedicado a Pedro I, com seus teatros, seus mendigos, seus transeuntes.

Como seu nome sugere, Toque devagar não fala de um contrato eterno entre a obra de arte e o lugar onde ela se encontra. Não se trata de um casamento forçado entre as partes. O que há, entre escultura e cidade, é um namoro, cheio de cantadas apaixonadas. Flertando com a praça e com o Rio, Mourão nos mostra que a arte e a cidade podem estar entrando no tempo dos afetos. Vamos a eles.

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