Palácio – entrevista de despedida

Amanhã, dia 7 de novembro,  é o último dia para ver a exposição Palácio, de Alvaro Seixas, Hugo Houayek e Rafael Alonso, no Palácio Gustavo Capanema, Funarte. Os artistas recebem o público para uma visita-guiada de despedida às 16h.

Se você ainda não viu Palácio, vá até a Cinelândia. O diálogo entre as obras destes três jovens artistas, todos egressos da Escola de Belas Artes da UFRJ, já vinha se desenhando há muito tempo, mas na mostra atinge um grau de ousadia muito raro. Há a preservação de cada identidade e, ao mesmo tempo, zonas de fronteira em que o trabalho de um espelha o trabalho de outro, fazendo-o ganhar outro rumo e significado. Há, ainda, uma conversa inteligentíssima com o prédio.

Enfrentar a arquitetura do Capanema não é para qualquer um. Além da forma vistosa, muito forte  – o que também acontece, para citar dois outros exemplos, com a França-Brasil e com o foyer do CCBB – o prédio do MEC ainda faz parte de um poderoso imaginário: o nascimento de nossa arquitetura moderna, combinado à presença de Le Corbusier no projeto, ao lado do jovem Lucio Costa e dos mais-do-que-jovens Niemeyer e Reidy.  Seixas, Alonso e Houayek chegam até o prédio como bambus: dobram-se a ele, sem no entanto ficar de joelhos. A presença das obras não compete com as janelas de vidro e nem com as colunas, mas também não se apequena diante delas. O espaço é tratado como uma praça, rompendo o limite de pilotis natural que caracteriza o grande vão em que as galerias da Funarte se transformaram. Os trabalhos são muito bons, isoladamente. Juntos e na comunhão com o prédio ganham ainda mais potência.

E, já que estamos falando de diálogo, a partir de agora converso com os três a partir de agora. Preservei a íntegra das respostas de cada um, enviadas por e.mail.

+A relação com das obras com o espaço, fundamental em qualquer exposição, tem sido para vocês três, cada qual ao seu modo, praticamente um elemento constitutivo do trabalho. Rafael tem desafiado os espaços que não são neutros, tem um certo fascínio pelo avesso do cubo branco, Hugo faz de sua pintura-escultura-instalação um espelho da sala (e da própria pintura, como meio) e no trabalho do Alvaro é muito difícil dissociar a montagem da individualidade de cada trabalho. Poderiam falar sobre isso?
ALVARO SEIXAS: No meu caso, penso muitas vezes que o ”espaço” no qual as obras são montadas trata não apenas da concretude da arquitetura, mas muito do contexto/situação em que determinadas obras estão inseridas. O que significa pintar simultaneamente grandes quadrados/cruzes negras, campos de cor, losangos amarelos e monocromos-penetráveis azuis, amarelos e vermelhos nos dias de hoje? O que significa encaixota-los no grande cubo de vidro da galeria da Funarte do Palácio Gustavo Capanema? De que maneira certas formas que artistas e críticos vêem como superadas ou já compreendidas podem vir a ser atualizadas, fazer parte do nosso presente? Trata-se de um desafio – o de nuançar, ressignificar e ativar criticamente o para muitos estaria fadado a um passado determinista e inativo.
RAFAEL ALONSO: Acredito que neste caso especificamente, é pouco provável que um trabalho consiga ser suficientemente eficaz sem algum nível de negociação com as particularidades desta arquitetura. Esta negociação compreende, em meu caso, na tentativa de lidar com toda a sorte de interferência que este mezanino envidraçado impõe, como por exemplo o imponente conjunto de colunas que geram um ritmo que não pode ser ignorado, mudanças significativas de luz ao longo do dia, sons, vento, a paisagem entorno, entre outros. Certamente, atrelada a esta conversa acerca da forma do trabalho está a questão de não ser um lugar qualquer, de ser uma edificação com grande carga histórica que tampouco pode ser ignorada.
HUGO HOUAYEK: Na exposição Palácio pensamos (entre outros conceitos) a questão da contaminação, de tal forma que todos os trabalhos se refletem e refletem o mundo lembrando da impossibilidade do projeto modernista do cubo branco como espaço ideal expositivo. Não existe um espaço separado, autônomo para cada artista. No meu entender o próprio prédio pensa um pouco nesse espaço separado, um prédio elevado por pilotis e afastado do mundo, da poeira, da luz e etc… Para ser mais claro, posso citar o meu trabalho que foi pensado especificamente para o espaço do mezanino, entre as colunas, para ocupar esse espaço e tentar trazer o mundo e seu tempo para dentro do espaço protegido pelo pano de vidro (a fachada envidraçada) do Palácio Capanema. Mas mesmo dentro deste espaço com delimitações fluídas, mesmo assim, paradoxalmente, cada artista pode ser nitidamente reconhecido por seu trabalho. Acredito que em toda exposição coletiva (mesmo entre amigos ou não) deva existir um respeito pelo trabalho do Outro.  Respeito no sentido que cada artista é total responsável pelo seu trabalho e tem total liberdade sobre este – mesmo que com esta possibilidade possa acontecer alguns transbordamento… O que nos traz de volta à questão do reflexo, os trabalhos se refletem entre si criando um jogo de reflexos no palco que é a exposição, onde os artistas, a instituição, os espectadores, as obras, a luz, a poeira e etc…, são atores neste teatro do Palácio
+Palácio ocupa o vão livre e envidraçado do Capanema. Não é um desafio qualquer, porque além de ser um espaço pouco neutro, é também um prédio imantado com uma história e uma herança muito poderosas para a arte e a memória desta cidade. Qual foi o desafio particular de cada um de vocês? O Palácio sugeriu ou determinou caminhos para Palácio?
SEIXAS: Realmente a porção do Capanema na qual estamos expondo não conta com a ”neutralidade” especificamente do”cubo branco”, mas é importante lembrar que esse grande espaço da galeria da Funarte, sustentado por pilotis, também remete a uma tentativa dos funcionalistas de maior ”flexibilização” dos espaços arquitetônicos – buscando uma mais eficaz circulação de luz, ar e pessoas…e também de facilitar a ocupação dos interiores por objetos/equipamentos. Mas, o que ocorre é uma situação mais complicada….a grande caixa de vidro do chamado  ”mezanino”, durante o dia é, justamente, invadida enfaticamente pelas diferentes luminosidades da cidade do Rio e também pelo desenho das edificações vizinhas e mesmo de outras partes da arquitetura do próprio Capanema. A exposição conta basicamente com a luz natural. Há momentos, portanto, que algumas obras de cores vibrantes ficam completamente esbranquiçadas, cinzas…em outros, diferentes partes da exposição são drasticamente intensificadas – as obras é que se ”flexibilizam” em função do espaço… também pelo fato de ser um edifício tombado pelo IPHAN. Gosto de pensar que o título da exposição aponta não apenas para o local onde se encontram expostas nossas obras, mas também para as ambições – e eventuais conquistas e fracassos – do funcionalismo e, em especial, do nosso modernismo arquitetônico, que teria ali fincado suas bases. Com o Palácio Gustavo Capanema começavam a se estabelecer nossos esperançosos prédios governamentais modernistas, pautados por muitas lições do purismo corbusiano, mas contaminados por uma espécie de barroco-surrealista-tropical, visível nos murais de Portinari, no terraço jardim de Burle Marx etc… A ”suntuosidade” – ou, melhor, riqueza crítica – desse palácio moderno talvez passe não apenas pela ”ornamentação” mesclada às estruturas funcionalistas, mas também – problematicamente – pelas ambições que justificaram seu erguimento e sobre o que ainda representa esse prédio nos dias atuais…
ALONSO: Não estar disposto a ouvir as sugestões do lugar impossibilitaria a constituição da uma obra. Para mim, o nome “Palácio” foi o suficiente, norteou meu trajeto, me permitiu fantasiar, me deslocar um pouco dos problemas arquitetônicos e históricos e propor uma espécie de ocupação “cênica” muito particular.
+Vocês são amigos há muitos anos e expõem juntos com muita frequência. Para quem está de fora, o diálogo e as influências mútuas são bastante claros – e fica ainda mais evidente no convite de “Palácio”. Em que medida esta simbiose é assimilada e pode ser um alimento de semelhanças e diferenças? 
SEIXAS: Acredito que sempre tivemos interesses em comum e eles, de certa maneira, se relacionaram muitas vezes à ”pintura”. Eu, pessoalmente, tenho percorrido há algum tempo não apenas essa ideia, mas também termos como ”vanguarda”, ”abstração”, ”modernismo”, e de que maneira esses termos – que muitas vezes parecem superados, ”empoeirados”, se ajustam ou se chocam com relação às nossas visões sobre o que é arte e seus limites/potencialidades. É claro que pela proximidade pessoal e profissional certos aspectos em minhas obras vêm de conversas com Rafael e Hugo e da convivência e observação de seus trabalhos. Nessa exposição há obras/montagens que partiram de consensos e outras de provocações de um artista com o outro — provocações sobre o que cada um de nós espera do trabalho do outro… as dissonâncias são tão importantes quanto os consensos…
ALONSO: Somos amigos, estamos sempre em contato e discutindo, sem dúvida há diálogo e algum nível de influência, mas acredito que seja em maior parte uma confluência de forma do que de discurso, nossas escolhas conceituais em relação aos trabalhos são bastante diferentes entre si. Tenho preocupações específicas em relação a pintura e suas possibilidades de contaminação pelo mundo que não são as mesmas de Hugo e muito menos de Alvaro. Colocando em em termos da biologia acho que a imagem mais interessante seria a da protocooperação (uma relação benéfica para ambas as espécies, embora não lhes seja indispensável. Os seres associados mantêm certa independência: apenas se beneficiam das associações mais ou menos duradouras que estabelecem.) e não da simbiose. Não tenho certeza sobre a utilização destes termos, nem um nem outro.
 
 

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