Mangueira a todo vapor

Cartola como imperador na Comissão de Frente da  Mangueira em 1978
Cartola como imperador na Comissão de Frente da Mangueira em 1978

Em 1978, a Estação Primeira de Mangueira levou para a Avenida o enredo “Dos carroceiros do Imperador ao Palácio do Samba”, desfile com o qual seria vice-campeã naquele ano. Cartola ainda estava vivo e desfilou à frente da escola com uma coroa verde-e-rosa. Foi fotografado por Aníbal Philot e eternizado em um de seus retratos mais difundidos como o imperador do samba carioca – o que de fato ele era.  Do mesmo desfile, uma conversa no meio desta madrugada trouxe à baila a alegoria em que era possível ler a  frase:

“A Mangueira é o povo, é o povo, é o povo”.

Desde o ano passado, quando levou para o Sambódromo um enredo sobre o Cacique de Ramos, a Mangueira parece cumprir a profecia desta afirmação. Com  muitos problemas internos, que fizeram com que precisasse de verba complementar para finalizar o desfile deste ano, a escola tem surpreendido pelo poder de superação de seus componentes e,  mais do que isso, pela capacidade de inovação em um segmento do desfile que é crucial, mas vinha sendo tratado nos últimos anos apenas como um acessório, não só pelos comentaristas, mas pelas próprias escolas.

Na era dos desfiles televisionados, a imagem é rainha. Temos privilegiado o espetáculo visual e a interatividade, tudo o que é surpresa nesta parte do desfile. O senso-comum discute nas redes sociais qual foi o desfile “mais bonito”, acoplando a ideia de “beleza” àquilo que é visual. Não se discute o “melhor desfile”  e sim o “mais belo”, o “mais rico”, o “que inova (no campo visual)”. A Mangueira, que nunca se impôs pelo luxo e pela riqueza, prova, desde o ano passado, que um desfile vai muito além disso. Com ousadia, flertando com imensos riscos, vem fazendo manobras com sua bateria que, antes de serem uma firula, uma “paradinha” – uma cereja do bolo, enfim – lançam holofotes para o coração de uma escola: o samba, mantido aquecido pelos instrumentistas que fazem sua cozinha.

Ontem, a Mangueira esquentou um enredo dificílimo sobre Cuiabá com uma estratégia genial de seu carnavalesco, Cid Carvalho, que uniu a ideia da Estação Primeira – presente no nome da escola – com o tema patrocinado sobre o Centro Oeste do Brasil. Carvalho propôs uma viagem de trem com a Mangueira até Mato Grosso, fazendo da escola espelho para seu tema, emprestando alma verde-e-rosa a um corpo que antes seria estrangeiro.  Cuiabá virou Mangueira e o resultado foi um grau de identificação tão alto com os componentes que ele foi capaz de contagiar a Sapucaí desde o Setor 1.

As duas baterias da Mangueira na noite de ontem: a Surdo Um, de verde, e seu duplo, de rosa
As baterias da Mangueira na noite de ontem: a Surdo Um, de verde, e seu duplo, de rosa

Mas isso não foi tudo: a escola ainda fez, como todos sabem, uma troca de baterias em plena Avenida.  Não sou especialista em música, mas sei que marca da bateria verde-e-rosa é o surdo de primeira, o que faz com que ela seja chamada de Surdo Um. Ora, o surdo de primeira, marcação dos batimentos cardíacos de uma escola, geralmente recebe uma “resposta” do surdo de segunda, criando um intervalo onde todos os outros instrumentos se encaixam. Na Mangueira, este intervalo sempre foi livre, aberto, já que o surdo de primeira caminha sozinho, sem resposta, dificultando a vida dos mestres de bateria e conferindo um grau de ousadia permanente aos arranjos dos intrumentos. Ao propor uma “troca” de baterias na Surdo Um, o instrumentista Ivo Meireles, presidente da Mangueira, perseguiu esta resposta do surdo de segunda. Em termos sonoros e visuais, o que se viu na Sapucaí foi o surdo de primeira encontrando seu interlocutor.

A troca de baterias completou, ainda, aquilo que já havia sido feito por Cid Carvalho no enredo: nos carros, nas fantasias, na letra do samba, Mangueira virou Cuiabá, a escola deu seu corpo para outro. Do mesmo modo, a Surdo Um se olhou no espelho para virar outra, se calou para que a “bateria rosa”, que evoluiu na Avenida depois da “bateria verde”- a original da escola – fizesse seu som. Este grupo rosa foi formado com instrumentistas de outras escolas de samba do carnaval carioca. Era uma heterogênea bateria de elite, selecionada em um concurso dificílimo, composta pelas influências rítmicas de outras agremiações que fazem a história do samba no Rio de Janeiro.

O que é incrível na ousadia da Mangueira não é apenas a performance. Não se trata de substituir a acrobacia visual, vista em escolas mais ricas, pela sonora. O que fica de mais bonito é este amálgama em que a escola se transmuta na espinha dorsal dos desfiles, iluminando o samba, tão esquecido em um lugar chamado Sambódromo.

Em 2012, com o enredo sobre o Cacique de Ramos, a escola já havia feito isso com sua “paradona”. Antes de ser uma exibição de seu virtuosismo técnico, o silêncio da bateria tinha, mais uma vez, uma função de base, de enredo. Ao se calar, a Surdo Um fez com que toda a escola se transformasse no pagode de fundo de quintal do Cacique de Ramos. Um carro com cantores marcantes na história do Cacique, como Beth Carvalho, Dudu Nobre e Fundo de Quintal, trazia uma roda de pagode e passava pelo meio dos instrumentistas. Isso acontecia em um momento crucial da letra do samba, em um longo “Siiiiiiiimmm”, lembrança do verso “Sim, é o Cacique de Ramos” na canção “Tamarineira”, de Luiz Carlos da Vila. A bateria se modificava a serviço do enredo, para transformar “Cacique e Mangueira num só coração”, como propunha o samba cantado pelos componentes.

O que é lindo, nesta proposta da Mangueira, é que os holofotes que ela volta para o samba não lançam luzes apenas sobre a própria escola, mas sobre tudo o que ela canta e irradia. Ficou mais claro o que era o Cacique depois do desfile de 2012. Ficou mais claro o que é a estrutura de uma bateria – com seus surdos de marcação – depois dos desfiles deste ano. “Ah, mas o povo não entende isso”, podem dizer alguns. Não “entende”, mas intui, o que também é uma forma de compreensão. Do contrário não teria comprado os desfiles da Mangueira, sobretudo o deste ano, de forma quase instantânea.

A verde-e-rosa vai enfrentar sérios problemas com o estouro do tempo. Provavelmente já perdeu o campeonato e talvez nem volte no Desfile das Campeãs, pelas regras que temos hoje. Quando ainda se vivia o drama dos poucos minutos que restavam,  Cid Carvalho foi abordado por um repórter e afirmou: “Vamos correr atrás dos décimos que perdermos depois, nos quesitos, mas não vamos correr no desfile”. O cantor Seu Jorge, também entrevistado na dispersão, disse: “A orientação foi a gente se divertir e tentar contagiar o público com esta alegria”.  A escola escolheu seu desfile, belo e “imperfeito”, fora dos padrões, em vez de escolher as regras. Cartola é o imperador do samba, mas o samba deve ser o imperador do carnaval. Aconteça o que acontecer, a Mangueira já é campeã na memória de quem viu este desfile. É o que fica de 2013, assim como o que ficou de 2012, entre poucas outras coisas, foi a “paradona” do Cacique.

Quando o estouro do cronômetro da Mangueira já era realidade, uma repórter abordou Ivo Meireles com uma pergunta capisciosa: “A bateria foi a responsável por este atraso?”. A pergunta, na verdade uma afirmação bastante inábil, recebeu uma resposta ríspida: “Você está me dizendo que estas arquibancadas cantando não significam nada? Gol é gol!”. No samba é assim: quando o surdo de primeira toca, o surdo de segunda responde.

Já eu, se pudesse escrever apenas uma frase depois do que vi a Mangueira fazer horas atrás, ela seria a do desfile de 1978:

“A Mangueira é o povo, é o povo, é o povo”.

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As fotos deste post são do saudoso Aníbal Philot (Cartola, 1978) e da amiga Ana Pacheco (baterias da Mangueira, ontem).

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