Mundos cruzados

Trabalho de Marcos Cardoso: muxarabi para Reidy, Burle Marx, Weissmann e a paisagem do Aterro
Trabalho de Marcos Cardoso: muxarabi para Reidy, Burle Marx, Weissmann e o Aterro

Dá muito gosto ir ao Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro e encontrar a exposição “Mundos cruzados: arte e imaginário popular”, com curadoria de Marta Mestre e Luiz Camillo Osorio. Criada como um contraponto à mostra de Ione Saldanha – que mereceria  um post à parte, pois faz jus à importância desta grande artista-, esta coletiva montada com o acervo do museu subverte a suposta hierarquia entre “arte contemporânea” e “arte popular”. Os curadores aproximam Tarsila do Amaral, Marcone Moreira e Véio;  GTO, Efrain Almeida e Farnese de Andrade; brinquedos populares a Volpi e ao “Farfalhante” de Aluísio Carvão.

Muitas exposições dispensam pouca atenção à montagem, como se uma mostra  – qualquer mostra – pudesse deixar de fazer sentido como um acontecimento no tempo e no espaço. Isso vale para individuais – de artistas vivos ou antologias de já falecidos – e para coletivas. Uma montagem é sempre uma edição e um olhar específico, cheio de escolhas, sobre uma obra. Ou sobre a conversa possível entre várias obras. No caso de uma coletiva, uma boa disposição no espaço colabora para a compreensão do diálogo entre os trabalhos e sobre as intenções da curadoria.

“Mundos cruzados” não perde isso de vista.  Enxergamos a forma triangular de um trabalho de Manfredo de Souzanetto através de um vão da escultura lúdica de Barrão, escada instável apoiada em quatro carrinhos de brinquedo. As formas orgânicas e o amarelo de um trabalho de Ernesto Neto, do início da carreira do artista,  se comunicam diretamente com a grande escultura circular do cearense Eduardo Frota, logo na entrada.  A filmografia de Humberto Mauro é posta em telas de LCD ao lado de uma grande parede de vidro do museu, que ganha uma espécie de moxarabi com o trabalho de Marcos Cardoso, feito de tiras de sandálias havaianas e lacres de plástico. A paisagem do cinema se encontra com a paisagem do Aterro; a “arquitetura” de Cardoso, construção da gambiarra, convida para um novo mergulho na arquitetura de Reidy, autor dos projetos do Aterro e do museu, nos jardins de Burle Marx e na escultura de Franz Weissmann, que enxergamos lá embaixo através do colorido das sandálias.

A conversa com a obra de Ione é evidente nas cores, na escolha pouco usual de materiais e no delicioso desrespeito aos estatutos daquilo que pode ou não pode ser chamado de arte. Como sabor adicional, temos a equipe curatorial do museu dando nova perspectiva  a 50 peças de seu acervo, todas das coleções Gilberto Chateaubriand e Joaquim Paiva, algumas pouco exibidas. Um museu só permanece vivo se, além de grandes exposições temporárias, demonstra sua capacidade para renovar suas entranhas.  “Mundos cruzados” remexe o MAM por dentro, de forma simples e serena, mas muito consistente  e criativa. Que bom ver o museu respirando.

One thought on “Mundos cruzados

  1. Daniela, eu tive quase as mesmas impressões quando visitei o MAM na semana passada. Interessante notar um certo movimento de intensificação de investimentos nos museus brasileiros para a exposição de seus acervos e coleções. Um pulsar fecundo que vem das “entranhas” como vc menciona.
    Abs, Bianca Knaak

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