Sobre a farofa

Ontem postei na página do Rio $urreal – NÃO PAGUE* um texto sobre a farofa – a real e a figurada. Espero que gostem.

capaJá houve um tempo em que “farofeiro” era xingamento. Talvez ainda seja, para mentes que não fizeram aquela necessária faxina em antigos preconceitos. Aqui no Rio $urreal – NÃO PAGUE, a gente acha que “farofeiro” é o máximo. Mais: a gente DESEJA que toda esta nossa deliciosa comunidade seja uma nação de orgulhosos farofeiros. Assim mesmo, sem as aspas escoltando a palavra, e com a farofa já incorporada ao nosso comportamento e à nossa alma.O escritor, historiador e folclorista Luís da Câmara Cascudo (1898-1986) acreditava que a mandioca era a ”Rainha do Brasil”, por considerá-la o mais legítimo e popular alimento do nosso país. Sim, a mandioca (ou aipim) é um tubérculo nativo, tipicamente brasileiro. Desde os tempos ancestrais, as tribos indígenas de nosso território usavam a mandioca para fazer farofa, mas sem nenhum tempero.E eis que vieram os portugueses, com seus “mexidos” de carnes desfiadas, com os ovos dando “liga”. E eis que chegaram os negros africanos, e nos ensinaram o apreço pelas pimentas e como fazer um prato aproveitando as sobras de comida da casa grande no tacho da senzala. Vai para panela sua criatividade enviesada – a mesma que moldou o sincretismo religioso, sobrepondo São Jorge a Ogum, Oxum a Nossa Senhora da Conceição. Negros que adoçaram uma língua portuguesa pontiaguda e sibilante, abrindo a pronúncia de vogais como “A” e o “O” e tornando-as mais felizes e mais ternas. Nossa cultura negra é um amálgama para todas as heranças. E este caldeirão de diferenças é nosso trunfo e nossa festa.A farofa é o espelho desta muvuca brasileira. É nossa miscigenação no prato. Ela junta ingredientes inimagináveis (ovo com banana? fica ótimo! linguiça com passas e milho? não é que combina?) e nos ensina que coisas aparentemente distintas podem ficar apaixonantes bem juntinhas.Farofa também demora a estragar e é por isso que os bandeirantes desbravaram o interior deste país levando farofas variadas e carnes secas no lombo dos burros. Talvez venha daí a farofa ser sinônimo de “merenda”, de lanche portátil. Companhia perfeita da galinha – e também da vitrolinha, como nos ensinou o Ultraje a Rigor – a farofa chacoalha para garantir um lugar na areia.

O Rio de Janeiro, porto aberto para o mundo, sempre foi a cidade da farofa, das múltiplas influências. A praia, as praças e as ruas do Rio são de todos os cariocas, os da gema e os de adoção. Pretos, brancos e mestiços vindos da Zona Norte, da Zona Sul, da Zona Oeste e das comunidades são os donos de nossos pedaços. Nenhum bairro é só de quem mora nele, nenhum lugar público pode ser privado. Uma cidade é feita de trocas e de circulação.

Rio $urreal foi criada não apenas porque preços caros são incômodos, mas porque a especulação ataca características fundamentais dos cariocas. Preço caro gera ostentação, limita o acesso, divide, afasta, sufoca esta “alma encantadora das ruas” que é o espírito do Rio de Janeiro. Somos do boteco, somos das cadeiras na calçada. Aplaudimos o por-do-sol. Adoramos uma laje. Então, se as comidas e bebidas estão sendo vendidas por cifras impraticáveis, vamos voltar a ser bandeirantes e a carregar nossa merendinha.

Vamos fazer farofa, não apenas porque é uma alternativa viável economicamente, mas porque é uma espécie de vocação, está no DNA: nossa origem pode ser a nossa salvação.

Viva a mistura.

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*Rio $urreal é uma página que denuncia e boicota preços abusivos no Rio de Janeiro, criada por mim e por Andrea Cals e Flavio Soares, e este último também assina nossa identidade visual, que está sendo exportada para outros $urreais no Brasil: já foi para Porto Alegre, e vai para São Paulo, Brasília e Salvador. Mantemos a página com a preciosa colaboração de Mariana Claudino e Luisa Wasserman e temos aproveitado as mais de 130 mil curtidas em apenas 10 dias de existência para discutir também o consumo consciente e as formas de viver com mais simplicidade, graça e despojamento, como convém aos cariocas.

2 thoughts on “Sobre a farofa

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