Quebrar o gelo

Sobre baleias encalhadas no Ártico e os dilemas da minha geração

Uma das cenas de "O grande milagre": esquimós, empresário e Greenpeace se unem para salvar as baleias, apesar das divergências
Uma das cenas de “O grande milagre”: esquimós, empresário e Greenpeace superam divergências e se unem para salvar uma família de baleias encalhada no gelo

QUEBRAR O GELO

Minha geração foi espremida entre decepções. O muro caiu, o capitalismo endoideceu, não existe mais possibilidade de escolha bipolar, nem uma aposta em um caminho hierárquico salvador, em um “cara lá em cima” (no Planalto, na estratosfera) que vá resolver os problemas. Nada deu certo. As vias foram interditadas. A crença no paizinho organizador e redentor – seja de direita ou de esquerda, noções que hoje se embaralham – entrou em falência.

Ontem, na praia, tomando um vinho que levamos geladinho dentro de uma bolsa térmica (high e low, tudo junto e misturado, como pedem os dias atuais), comentava com um amigo como estamos cansados. Eu pelo menos estou, sobretudo das barbaridades que leio por aqui, neste mundinho azul. Mas procuro entendê-las como fruto deste esmagamento que nossa galera, a que tem entre 30 e 45 anos, vem sofrendo.

Depois da conversa e da praia, vi na TV um filme aparentemente bobo, “O grande milagre”, em que Drew Barrymore é uma ativista do Greenpeace que precisa salvar três baleias encalhadas no gelo do Ártico. As baleias viraram minhocas fertilizando minha cabeça, e acho que o fato de Drew Barrymore ser a menininha de “ET, o extraterreste” ajudou muito nisso. Ela é das nossas, cresceu conosco, e nós crescemos a vendo crescer.

O fato é que não há mocinhos no salvamento de duas das três baleias – uma, o filhote, apelidado de Bambam, acaba morrendo (sorry, that’s a little spoiler!). Ah, sim, ainda há este detalhe: pai, mãe e filho da família de baleias recebem o nome de personagens de “Os Flintstones” – Fred, Vilma e Bambam (não dava para ser Pedrita, era macho). Com o coração derretido por esta outra madeleine, quebrei o gelo e mergulhei o pensamento na gente – em mim e em meus contemporâneos.

Em plena Era Reagan, os EUA precisaram contar com a ajuda de um quebra-gelo soviético. Mas o que é decisivo para abrir caminho para os animais é a ação conjunta de Drew Barrymore, esta ativista um tanto autoritária e cheia de preconceitos, e dois supostos inimigos: o povo esquimó de uma pequena comunidade do Alasca, que caça baleias para sobreviver, e o empresário que quer explorar petróleo na região (que a Drew também odeia, vcs podem imaginar). Um repórter de uma pequena TV local acaba projetando a história das baleias para o mundo. Ele é ex-namorado da moça do Greenpeace e, mesmo achando que ela é um tanto descontrol e às vezes meio mala, em dado momento abre mão de novos “furos” de reportagem para cavar buracos no gelo. Este jovem jornalista e dois malucos do Minnesota que inventam uma engenhoca que derrete o gelo completam um time nada clássico de heróis.

A história é real. Este grupo bizarro, formado por gente como a gente, cavou 465 buracos no gelo, ao longo de 8 quilômetros, para que as baleias encontrassem uma trilha para o oceano, e contassem neste caminho com intervalos para respiração na superfície.

E o que as baleias do Ártico têm a ver com nossa geração?

Acho que estamos precisando de rotas alternativas e de gestos simples. Talvez ajude se a gente deixar de olhar para nosso quintal como propriedade para entender que é parte de uma grande teia. Talvez fique mais simples se a gente parar de olhar de lado para nosso vizinho, nosso outro, nosso interlocutor divergente.

No buraco que garantiu a sobrevivência das baleias do Ártico coube Reagan, e também couberam a URSS, ecologia, vida comunitária, sustentabilidade local. Precisamos de um buraco que nos ensine a reinventar nosso mundo, e de uma trilha alternativa que nos faça chegar ao oceano. As antigas rotas não servem mais. Se permanecermos nelas, vamos parar de respirar. Nosso tempo talvez esteja acabando.

 

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