Geração 80

O cartaz da exposição de 1984
O cartaz da exposição de 1984

Os 30 anos da histórica exposição “Como vai você, Geração 80?” foram comemorados no ultimo dia 14 de julho. O jornal O Globo me convidou para escrever um artigo crítico a respeito do período, um dos complementos à ótima reportagem especial de Nani Rubin, publicada no domingo, 13 de julho. Você pode ler este texto correndo o cursor aí para baixo.

Revisitar a década de 1980 teve um sabor especial, já que defendi dissertação sobre o tema no mestrado em História e Crítica da Arte da EBA-UFRJ (“Geração de afetos – Pintura brasileira da década de 1980) e, graças a um convite de Marcus Lontra, fui curadora-adjunta da exposição “Onde está você, Geração 80?”, realizada em 2004, no CCBB.

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Muito além da pintura

 

“Geração 80” entrou para a História como o termo-síntese para o grupo de artistas brasileiros que despontou no início da década de 1980, mas é a outra parte do título da exposição de 1984 – a calorosa pergunta “Como vai você?” – que parece apontar para pontos em comum dessas obras tão heterogêneas. Sim, heterogêneas. Apesar de ter sido estudada como a década da “volta da pintura”, essa é uma época que traz à tona questões um pouco mais complexas do que a mera recuperação nostálgica de um meio de expressão.

“Como vai você, Geração 80?” não causou furor por acaso: além de reunir 123 artistas de várias partes do país, se apropriou do prédio neoclássico do Parque Lage como uma grande instalação site specific. A abertura foi uma festa, ecoando o título proposto pela curadoria. Ao perguntar “Como vai você?”, Marcus Lontra queria dar conta não da “volta da pintura”, mas de seus contemporâneos. “Como vai você, que cresceu à sombra de 20 anos de ditadura militar?” Algo como “E aí… Beleza?”. Ou ainda: “Toc, toc, toc. Tem alguém aí?”.

Tinha, é claro. Quando o mesmo Lontra me convidou para ser curadora-adjunta da coletiva que comemorou os 20 anos da exposição do Parque Lage (“Onde está você, Geração 80?”, realizada em 2004 no CCBB-RJ), constatei que muitos artistas que haviam sobrevivido ao tempo eram mesmo pintores, caso de Leonilson, Daniel Senise, Luiz Zerbini, Beatriz Milhazes, Leda Catunda e Cristina Canale. Mas também havia um número significativo de artistas cujas trajetórias passavam ao largo da pintura, caso de Barrão, Angelo Venosa, Analu Cunha, Milton Machado, Ricardo Basbaum, Ana Tavares e Cristina Salgado. E ainda outros que haviam ramificado suas obras para múltiplos suportes: Nuno Ramos, Suzana Queiroga, Ana Miguel e Jorge Duarte.

Esse panorama evidencia que os anos 1980 não foram mera “volta à pintura” e sim um caminho de reaproximação com a imagem. Posta em xeque pela chamada desmaterialização da arte e pelo conceitualismo nas duas décadas anteriores, a imagem voltou a ocupar um lugar de destaque na produção do período. A pintura foi apenas o meio mais usual e frequente para essa imagem ser acessada, pesquisa e amada. Falo de amor não por acaso: o afeto é um dado importantíssimo nesta produção, e norteia a relação com a imagem. Nas obras de múltiplos suportes, estas imagens tanto podem ser uma citação à história da arte quanto vir da tampa de um perfume. São rearranjadas sem qualquer hierarquia, criando arquivos pessoais, bibliotecas íntimas, diários de viagem. Essa carga afetiva fica evidente nas obras de Leonilson e Zerbini, e a obra policromática e polifônica deste último é crucial para que se perceba outra característica dessa geração: o raciocínio fragmentado, randômico e ruidoso, muito claro também na maneira com que Venosa, Senise e Milhazes lidam com suas obras. Mesmo nas obras menos cromáticas, como as de Senise e Venosa, vem à tona também uma carga expressiva, barroca e muito ligada à fatura manual.

Outra constatação da mostra de 2004, esta menos feliz, foi que muito pouco havia sido escrito sobre aquela década. Embora críticos como Paulo Herkenhoff, Tadeu Chiarelli e Agnaldo Farias tenham publicado ensaios fundamentais sobre essa geração, há uma carência de reflexão sobre a época, que começa a ser suprida por um esforço de meus contemporâneos. Aí se destaca a pesquisa de Ivair Reinaldim, que aponta para o enorme vácuo analítico deixado sobre a crítica nacional e de fora do país.

Acredito que, no Brasil, essa lacuna foi fruto de uma bipolarização extremamente política. Uma espécie de Fla X Flu foi formado por aqueles que eram pró ou contra a Geração 80, e nem um lado e nem outro foi capaz de criar um amálgama crítico que analisasse de forma mais completa e transversal a produção da época. Entre os entusiastas, o discurso ficou restrito ao “prazer de pintar”, misturando de maneira equivocada aqueles jovens com o desbunde pós-Anistia. Do outro lado, aqueles que temiam que aquela “volta à pintura” significasse uma onda de arte comercial. Esse grupo transformou o silêncio em arma, optando por não escrever sobre os jovens artistas (nem bem, nem mal), para que, quem sabe, caíssem no esquecimento.

A estratégia não funcionou: passados 30 anos, alguns dos nomes mais importantes da arte brasileira saíram daquela década. Mas há uma história em curso, e aquela pergunta de 1984 continua exigindo respostas mais profundas para o seu “Como vai você?”.

Read more: http://oglobo.globo.com/cultura/artes-visuais/artigo-como-vai-voce-geracao-80-muito-alem-da-pintura-13235615#ixzz382dHlMXF

2 thoughts on “Geração 80

  1. Oi Daniela Parabéns pelo artigo. Primoroso. Como sempre você brilhou. Achei muito importante o fechamento do seu trabalho no qual contata que a estratégia de silêncio sobre a geração de 80 não funcionou e onde deixa a pergunta: “Passados 30 anos, alguns dos nomes mais importantes da arte brasileira saíram daquela década. Mas há uma história em curso, e aquela pergunta de 1984 continua exigindo respostas mais profundas para o seu _Como vai você?.” É muito importante que esse silêncio crítico seja quebrado para benefício das gerações posteriores de artistas brasileiros Beijão Ana Grebler On Dom 20/07/14 21:00 , Daniela Name comment-reply@wordpress.com sent: WordPress.com danielaname posted: ” Os 30 anos da histórica exposição “Como vai você, Geração 80?” foram comemorados no ultimo dia 14 de julho. O jornal O Globo me convidou para escrever um artigo crítico a respeito do período, um dos complementos à ótima reportagem especial de Nani Rub”

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