Manoel Novello – A cidade que me guarda

manoel novello vista

Fiz o texto e a curadoria da exposição A cidade que me guarda,  que Manoel Novello inaugura amanhã, a partir das 19h, no Centro Cultural Candido Mendes, em Ipanema. Esperamos por vocês, enquanto aproveito para compartilhar a versão do texto para o ambiente expositivo – menorzinha do que a que irá futuramente no catálogo. Um beijo e até.

Pintura-canção

Há uma “rua que não tem mais fim” que desliza, aveludada, pela voz de Gal Costa. A canção que enche a sala é Três da madrugada, criada partir do poema de Torquato Neto. Sou tomada pelo som e pela cidade que me guarda. O título desta exposição de Manoel Novello saiu de um dos versos que agora também ouso cantarolar enquanto escrevo: esta “cidade me mata/ de saudade/ é sempre assim…”
As três grandes pinturas reunidas aqui aprofundam a relação de Novello com um léxico que vem da própria pintura. Batizadas com nomes que se referem a momentos do dia – Matinal, Vesperal e Noturno – elas enfatizam a relação com uma paisagem que o pintor enxerga da janela de seu ateliê, instalado em um importante prédio modernista do Rio de Janeiro. A cidade que muda na medida que engole as cidades que um dia já foi é absorvida pelo olhar do artista no seu cotidiano de trabalho. Uma transformação que contrasta com a imponência silenciosa do Pão de Açúcar e com os estados de humor do céu e as alterações de cor na Baía de Guanabara. A cidade que muda de roupa conforme o dia passa e vai se despedindo da luz, guardando alguns tons, revelando outros.
Este tempo que transforma a paisagem em território movente e em experiência talvez seja a grande inquietação do artista. Na história da arte, a pintura que um dia foi janela se soltou desta condição contemplativa e autocentrada para ganhar o espaço e se libertar do plano. Novello trabalha a partir dos índices desta transformação, arquitetando a geometria e a composição cromática de modo a fazer com que elas sejam também espaço reinventado, espécie de arquitetura canibal que devora as ruínas das áreas de cor e dos traços, que vão se sobrepondo uns aos outros. Esta (re)pintura – acho que posso batizá-la assim – não abafa totalmente aquela que suplanta, guardando para o trabalho uma memória daquilo que um dia foi.
Não me parece acaso que muito dos títulos de suas obras partam do nome ou de um trecho de canção: Novello pinta como quem faz música, evidenciando planos pelo rebaixamento de outros e criando um jogo extremamente potente com linhas diagonais, sempre postas em tensão com a grade de verticais e horizontais. As diagonais expandem a pintura para além da pintura, criam infiltrações no grid, perturbando e enchendo de ruídos a rede de segurança moderna.
As fotos reunidas aqui na Candido Mendes, que o artista apresenta pela primeira vez, evidenciam seu interesse por este duelo entre potências: a paisagem que engole e é engolida pela construção, o eixo cartesiano tentando domar e também sendo dominado por aquilo que não se encaixa nele. A montagem das pequenas aquarelas feitas em tons de azul, criada especialmente para o espaço da galeria, também enfatiza esta diagonal que parece querer levar a cidade de Novello para fora de suas fronteiras. No azul destes trabalhos, curiosamente pintados sobre cartões-postais, parece haver um quê de mensagem vinda de outro tempo. Os gregos acreditavam que o mar era um espaço traiçoeiro, porque as estradas que percorremos sobre a água são imediatamente apagadas pelas ondas. É lindo imaginar os oceanos como uma reunião de caminhos invisíveis, percorridos em diversas épocas. É bonito também enxergar a obra de Novello como a aparição de apenas parte das paisagens que ela ainda guarda. Escolhi pensar nisso, enquanto cantarolo com Gal e Torquato.

Daniela Name, setembro de 2014.

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