Pintura náufraga

 

Fiz o texto da mostra Ilhas, que Raul Leal inaugura amanhã, quinta-feira, dia 16h, no Centro Cultural da Justiça Federal. Estendo o convite aos leitores do blog (Toc, toc, toc, tem alguém aí?) e compartilho abaixo meu pequeno ensaio para a exposição. Quem preferir imprimir ou ler a partir de um PDF deve clicar aqui.  Neste documento, há ainda uma conversa, feita propositalmente por e.mail, entre o artista e esta que vos fala.

 

RAUL LEAL1

 

 

Sentia-se muito jovem e, ao mesmo tempo, indizivelmente velha. Passava como uma navalha através de tudo; e ao mesmo tempo ficava de fora, olhando. Tinha a perpétua sensação, enquanto olhava os carros, de estar fora, longe e sozinha no meio do mar; sempre sentira que era muito, muito perigoso viver, por um dia que fosse[1].

É Mrs. Dalloway quem nos faz o convite para navegar pelas Ilhas de Raul Leal. Virginia Woolf inventou a personagem em 1925: socialite muito bem casada para os padrões de sua época, Clarissa Dalloway vivencia os incertos e assustadores anos do entre-guerras. O livro a acompanha na complexa tarefa de ir às compras. Ela circula pelas ruas de Londres escolhendo flores e procurando os ingredientes que faltam para um jantar formal em sua casa. Alterna estados de atenção: o foco na lista dos afazeres de uma boa esposa a mantém presa ao chão e ao movimento das ruas, fazendo-a constatar uma terrível solidão; já a entrada em um labiríntico estado de devaneio possibilita que a personagem e seu leitor devassem, juntos, alguns flashes do passado e de um possível futuro. Como numa ilha de edição, a memória permite retrocessos e avanços.  Lembrar pode ser projetar ou se arrepender. Quando entra nesse estado de suspensão, pairando acima da rotina, Mrs. Dalloway faz furos randômicos na gaiola que a protege e a aprisiona, vivendo experiências que ultrapassam o congelamento superficial do presente.

E se Mrs. Dalloway fizesse suas compras nas paisagens pintadas por Raul Leal? Para início de conversa, ela não estaria nas ruas, mas em um dos ambientes artificiais que o artista recria a partir de fotos que tirou em shoppings do Brasil e de outros países. Como defende Zygmunt Bauman, os shoppings pertencem a um grupo de prisões voluntárias que temos criado. O teórico polonês vem estudando a vida cada vez mais líquida que levamos e a fluidez de nossas relações, que nos impedem de cultivar vínculos.  Ele agrupa os shoppings aos reality-shows e aos condomínios fechados e seus circuitos de segurança – criamos grades que nos anestesiam e nos vigiam. Outro tributário do panóptico de Foucault, Jonathan Crary tem se debruçado sobre a comunicação depois da internet, a conexão 24/7 – 24 horas, 7 dias por semana -, que batiza seu último livro.  Não é difícil aproximar a teatralização dos selfies, os não-encontros e não-debates performáticos virtuais com o isolamento identificado por Bauman. A hiperconexão é mais uma prova da desconexão de nossos tempos. Buscamos os ambientes fechados e a virtualidade também por medo do outro, e em casos extremos este receio se transforma em ódio e desejo de exclusão.

Se Mrs. Dalloway saísse para as compras em um shopping, talvez se sentisse “diferenciada”, protegida “desta gente” periférica, divergente e ameaçadora, mas certamente perderia a noção do ambiente que a cerca. Não conseguiria sentir o passar das horas e nem as alterações meteorológicas. Não ouviria as britadeiras da obra ao lado, nem sentiria cheiro de grama cortada; não veria carros, nem o colorido espetáculo de guarda-chuvas abertos; não esbarraria em nada, dificilmente seria abordada por alguém. Teria, portanto, bem mais dificuldade para abrir clarões de devaneio e de memória na anestesia do presente.

O interesse de Raul Leal é perseguir esses clarões. Para transformar seu trabalho em para-raio de memórias, o artista encarna um Doutor Frankenstein digital, se apropriando das especificidades da arquitetura dos shoppings e reorganizando elementos a partir de uma lógica de sampler. Se na história da pintura há relações evidentes entre cor, forma e música, não deixa de ser interessante notar que a arte contemporânea aproximou artistas e DJs, que trabalham com processos de apropriação e resignificação.

 

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Leal é um pintor-pianista que domina com destreza um dispositivo importante em nossos tempos: os programas de manipulação de imagens. E é importante assinalar como as operações realizadas nestes softwares são semelhantes às da memória. Há apagamentos, enxertos, contrastes e brilhos provocados por decisões externas à imagem, do mesmo modo que podemos reinventar nossa infância, ficcionando a importância de determinado parente, ou mesmo lembrando um episódio esquecido a partir de um evento atual – um choque, um êxito –, que serve como ferramenta prospectiva, fazendo com que aquela fatia de passado ultrapasse a membrana da consciência e venha à tona.

Os shoppings-monstros de Leal-Frankenstein são feitos de fragmentos de espaço e tempo muito distintos, uma arquitetura de memórias estilhaçadas. A sensação de quem olha para essas pinturas recentes do artista pode ser a de que se está diante de uma paisagem extraterrestre, atualização pop do sentimento de exílio e não-pertencimento destacado pelos pintores e compositores românticos, como Caspar David Friedrich e Chopin, respectivamente. Este estado romântico de desencaixe e de certa paralisia diante da hostilidade do mundo é um elemento importante para o entendimento das Ilhas que Leal nos apresenta.

Em uma primeira mirada, de longe, cada tela-ilha parece ter a estabilidade de um instante congelado: a tinta acrílica é trabalhada como uma superfície aparentemente lisa; figuras humanas e os cacos de vitrines, lustres e escadas rolantes que compõem essas ruínas contemporâneas são pintados como silhuetas monocromáticas, quase carimbos.

De perto, no entanto, cada trabalho revela seus artifícios: os escorridos e as imperfeições próprias do fazer pictórico são deixados aparentes, se comunicando diretamente com as imagens ramificadas, espécies de infiltrações que Leal insiste em acrescentar aos seus ambientes. Se na já antológica tela Splash, de David Hockney, o movimento da água espalhada pelo salto na piscina furava a superfície quase fotográfica da pintura, no trabalho de Leal estas rachaduras (na imagem e na fatura) revelam a instabilidade presente em seus interesses formais e temáticos. Com elas, o artista transforma os shoppings em anti-totens, procurando levar essa redoma asfixiante e opaca ao estado de bolha de sabão: cápsula ainda fechada, mas de uma transparência díspar, furta-cor, prestes a se desintegrar a partir do contato com o mundo das coisas vivas, heterogêneas e em movimento.

Por ser um pintor da solidão e da incomunicabilidade que nos assola, talvez não seja um acaso Leal se interessar tanto por silhuetas. Apesar de sua aparência monolítica, elas são uma imagem que contém seu negativo, apontam para um estado de ausência, para algo que lhes foi suprimido. De mãos dadas com Mrs. Dalloway e com Virginia Woolf – a escritora também foi como um pássaro de olhos furados, que cantou alto, mas não suportou sua gaiola -, o artista expõe a dor das faltas e nosso estado de naufrágio. Das Ilhas, manda mensagens na garrafa, sem saber ao certo em que cais e em que tempo elas vão ser lidas.

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[1] A tradução de Mrs. Dalloway neste texto e na conversa com Raul Leal é a de Mario Quintana para a editora Nova Fronteira. O poeta gaúcho entendia bem de gaiolas e dos furos que precisamos fazer nelas: “Eles passarão, eu passarinho”.