Juan Parada, jardineiro do ar


Fui convidada a escrever o texto de apresentação de Teto verde, instalação com que Juan Parada ocupa a galeria Amerelonegro. A inauguração é daqui a pouco (3a feira, dia 28 de abril, a partir das 19h). Às linhas:

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Com Teto verde, Juan Parada dá um salto – real e simbólico – rumo ao espaço. A instalação que compõe a mostra homônima na Amarelonegro amplia e aprofunda seu campo de pesquisa com esculturas feitas de cerâmica ou porcelana, plantas naturais e dispositivos low tech. A ideia de abrigo presente em um telhado aparentemente residencial e a menção ao tipo de construção ecológica, cada vez mais necessária nos dias que correm, reforçam a imbricada relação entre paisagem, escultura e tecnologia na obra do artista paranaense.
O jardim doméstico talvez seja o primeiro horizonte registrado e construído em nossa memória como paisagem. Se o jardim zen pode ser o espelho para uma vida harmônica nos palácios de Kioto, outros jardins foram um possível refúgio quando carne e pedra[1] começaram a se estranhar mais radicalmente com o crescimento das cidades no Ocidente. Parada cria um abrigo ambíguo: cobertura etérea e flutuante, plantação sem cercas. Seu jardim suspenso não se projeta da terra para o céu, escorrendo no sentido inverso como pequenas cachoeiras verdes, Babilônia silenciosa apontando para o chão da galeria.

A conjugação dessas duas direções – a estrutura que sobe, a vegetação que desce – aponta para a subversão que o artista faz em seu próprio processo criativo.  Se por um lado vemos uma minuciosa composição de fios e esculturas, que evidencia o desenho do telhado feito no ar, por outro temos as plantas engolindo Euclides e a pretensão de uma geometria controlada. Há a linha feita dos pontos de cada peça escultórica, projetada; e há a linha fluida e orgânica da vegetação. Parte do engenho e da beleza deste trabalho vem da sobreposição e do ruído entre os dois desenhos: o virtual, traçado no ar, e o novelo labiríntico e incontrolável das plantas.

Há em Teto verde uma paisagem que também é suspensa metaforicamente, fica entre parênteses e nasce do entroncamento nem sempre amistoso entre a razão e o fluxo da natureza. Tal curto-circuito está na origem da invenção da paisagem como modo de pensar a relação entre o sujeito e algo além dele, artifício laborioso[2] e motor da arte desde seus primeiros vestígios. Com Seurat ou Caspar Friedrich, com Leonardo ou Robert Smithson, a paisagem foi e é experiência e algum relato sobre o mundo. Por ser gerada no embate entre a experiência daquilo que nos cerca e o discurso sobre ela, obrigatoriamente ficcional, a paisagem sempre será uma invenção de mundos.  No invento de Parada, há algo ainda a se levar em consideração: o fato de a palavra “ecologia” ter origem no grego oikos, “casa”.  Com seu Teto verde, o artista parece se debruçar no beiral das telhas desse nosso século XXI, para talvez semear uma casa capaz de abrigar, simultaneamente, a linha projetada e a linha da vida em seus cômodos de ar.

[1] SENNETT, Richard. Carne e pedra. Rio de Janeiro: Record, 2010 (Edição de bolso).

[2] COQUELIN, Anne. A invenção da paisagem. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

# O título do texto foi inspirado afetuosamente em O fazendeiro do ar, de Carlos Drummond de Andrade.

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