O giro do urubu – Ivan Grilo

Eu quero ver,  individual de Ivan Grilo na galeria Casa Triângulo, é uma exposição sobre a força da invisibilidade. É também a mais concisa mostra apresentada pelo jovem artista paulista – e por isso mesmo a melhor. Dissolvidas as ansiedades naturais em todos os começos, Grilo caminha mais seguro e mais silencioso em direção àquilo que o move.  A pele curtida, resultado desse amadurecimento, parece ter vindo de uma odisseia rumo ao sol e a um Brasil que o próprio artista enxergava pouco. Foi o encontro com esse outro país, aparentemente distante de seu universo, que trouxe Grilo para mais perto de si mesmo.

Como destaca Ricardo Resende no texto crítico de apresentação, a mostra na Triângulo une duas pesquisas distintas. A primeira se iniciou em uma viagem à Bahia, em que o artista fez descobertas em acervos visuais e orais de nossa tradição africana, e que também gerou uma exposição anterior, no Centro Cultural São Paulo. A outra veio de um mergulho nos arquivos do Museu de Arte de São Paulo (Masp) sobre a arquiteta italiana Lina Bo Bardi – ela própria uma estudiosa da herança e do repertório de nossa negritude. Do encontro dessas águas – as salgadas, que trouxeram os escravos da África; as doces, da cachoeira e do lago que Lina mantinha na Casa de Vidro, dedicados respectivamente aos orixás Xangô e Oxum – nasce a força e a vertigem de uma foz. Ali, o rio é obrigado a morrer um pouco, mas também pode ganhar o mundo ao se abraçar com o mar. Grilo gira nessas ondas de águas misturadas, expelindo para fora do vórtex algumas marcas de formação que não lhe pertencem mais. E engolindo para o centro já tranquilo do redemoinho dados novos, além de seus traços fundamentais, aqueles aos quais um artista sempre volta, em sucessivas revisitas.

O giro, é preciso que se diga logo, é motor e resultado de boa parte dos trabalhos presentes em Eu quero ver. O título da exposição foi retirado de  Zumbi,  canção composta por Jorge Ben Jor, trilha sonora da revisão desse texto ao longo do dia 13 de maio. Mas o que vê se logo de cara não é aquele que foi o “senhor das guerras, senhor de todas as demandas”. Ainda na porta da galeria, um enigmático retângulo cinza paira sobre todas as coisas, instalado na parede do mezanino que fica de frente para rua. Uma obra que só será descoberta em sua plenitude depois da subida até lá.

“Onde estão os homens? (Depois de Rugendas)”

Mas antes é preciso percorrer ao menos parte do primeiro andar. O visitante é recebido por Onde estão os homens? (depois de Rugendas): o artista se apropria de clássicos retratos de tribos africanas feitos por Jean-Moritz Rugendas (veja um deles aqui). Nos originais, o pintor-viajante mostra os rostos vindos de Angola, Congo, Benguela, Monjolo, Cabinda, Mina, Quiloa e Rebolo cantados por Ben Jor.  Na letra de Eu quero ver, a lista das tribos é sucedida pelos versos “Aqui onde estão os homens/ de um lado cana-de-açúcar/ do outro cafezal”. Ao transformar “onde estão os homens?” em pergunta, Grilo abandona o sentido da canção – a localização dos “homens” no trabalho escravo nas lavouras do Brasil. O uso da interrogação transforma Onde estão os homens? em canção do exílio: agora a frase parece vir da África, de onde princesas e reis foram arrancados e onde nunca mais foram vistos. Rostos que se apagaram do outro lado do Atlântico.

Em  Assim falou Zaratustra, Nietzsche aponta para essa “bela loucura: falar. Com isso, o homem dança sobre e por cima de todas as coisas.” Nunca em outro conjunto de trabalhos ficou tão evidente a força da palavra na obra de Grilo, elemento que ganha contornos cada vez mais singulares – e mais distantes da obra de Rosângela Rennó, um dos possíveis pontos de partida para sua trajetória artística. Em seus primeiros trabalhos, o vasculhar de arquivos fotográficos levava Grilo a uma aproximação natural com Rennó,  o que de forma nenhuma foi ou é pecado: ter pai e mãe, um lugar de onde se parte para a aventura da criação, é apenas mais uma prova de que se está preparado para a jornada. A viagem à Bahia também parece ter deixado mais claras as aproximações e divergências entre a obra do artista e a de Marcelo Moscheta, de quem Grilo foi assistente por anos. Se Moscheta viaja para desenhar, criando um mapa virtual no espaço com seus deslocamentos e coletas de pedras, Grilo se põe na estrada de forma mais randômica, disposto a descobrir. Moscheta é cartográfico, esquadrinha ponto a ponto para gerar um desenho expandido e arrebatador; Grilo é literário e elíptico, oferecendo aos nossos olhos e repertórios obras tão labirínticas quanto a memória.

“Estudos para movimentos circulares #1”

Giro e metamorfose

A palavra vinha sendo nosso assunto, então voltemos a ela: a viagem à Bahia parece ter acrescentado aos trabalhos presentes em Eu quero ver elementos ficcionais e mágicos, vindos da tradição oral e religiosa dos povos africanos. A África ancestral não tinha alfabetos e inventava o mundo à medida que o contava.  No candomblé, a palavra é (en)cantada e se mescla à dança para dar ao sujeito uma outra possibilidade de (en)carnação. Os orixás têm saudações próprias, ditas quando eles chegam, ganhando vida nova a partir da incorporação no médium que o recebe, dançando, cantando e girando.

O artista e professor André Parente tem longa pesquisa sobre o giro no cinema e na videoarte. Além de ter criado um trabalho próprio, o belo Circuladôesse seu interesse por imagens de giro levou à constatação de que frequentemente coincidem com um momento de descoberta ou transformação  (Diana virando Mulher Maravilha; Corisco girando em Deus e o diabo na Terra do Sol), e gerou ainda uma exposição, Giro, que reunia obras de Caetano Dias, Katia Maciel, Dirceu Maués e Sara Ramo, entre outros.

Os giros de Ivan Grilo sucedem Onde estão os homens?. Nos Estudos para movimentos circulares, o artista se apropria de três fotografias  e aplica sobre elas, no acrílico que cobre cada imagem, marcas de uma possível espiral, fazendo com que a foto estática insinue movimentos. É assim com a filha de candomblé em momento de transe; com a escada em caracol que Lina Bo Bardi projetou para o Solar do Unhão, que hoje abriga o Museu de Arte da Bahia, pensada a partir das danças das religiões afro brasileiras; com um urubu pairando no topo de uma escada construída por Grilo, e que faz a ligação entre o primeiro piso e o mezanino. O urubu, negra rapina espreitando tudo, é talvez a imagem mais instigante  da mostra. Ficará para o fim. Agora é hora de subir.

IVAN GRILO rodape

Enfrentar os degraus em caracol da escada à Lina criada por Grilo faz com que cada visitante de Eu quero ver também gire.  Como assinala Ricardo Resende, a escada original do Unhão estabelece uma simbiose com o lugar, sugando para dentro de sua espiral a história do casarão do século XVII – “É uma escada ‘carregada’, portanto”, conclui. Girando na escada de Grilo também se estabelece uma sintonia: ao chegar ao mezanino, é natural que se curve um pouco o corpo, sobretudo aqueles que são mais altos. É nesse momento que se enxerga no chão o Segundo estudo para rodapé, com a frase que parece reproduzir o movimento daquele que a lê: “Durante a reverência, você se curva e assim mantém seu coração mais alto que sua cabeça”. Só ali finalmente é possível decifrar o enigmático retângulo cinza que se enxergava da porta da galeria, pairando sobre todas as coisas.

De perto, a obra se revela: Heróis da liberdade # 2 foi criada a partir de um frame do filme Zumbi dos Palmares, de Cacá Diegues. Zumbi, preparado para a guerra, parece renascer das profundezas da imagem. E como tem força esta aparição. Foi preciso a vertigem da escada e o coração mais alto que a cabeça para que o visitante pudesse vê-la, notando então que Zumbi sempre esteve acima de tudo, como motivação e norte da pequena viagem. “Quando Zumbi chega, é Zumbi quem manda”, canta Ben Jor. Mas é preciso fazer o caminho de volta da jornada, e ele começa com um trabalho que atualiza Zumbi no tempo, mas permanece no Nordeste.  Avant-Garde na Bahia faz referência à montagem do acervo do Unhão, mas suprime dali imagens relativa a Antonio Conselheiro e a Canudos, outro foco de resistência popular e negra no sertão.

Na descida, a caminho da saída, o visitante (re)conhece um pequeno martírio de Lina Bo Bardi. Interessada em arte popular, a arquiteta apresentou em 1963 a exposição Civilização do Nordeste em Salvador. Dois anos depois, apresentaria a mesma mostra na Embaixada Brasileira em Roma. Mas os generais que já mandavam em um país sob ditadura proibiram a mostra, porque não queriam ver o país associado à pobreza e às artes manuais na Europa. Em Estudo para censuraGrilo cobre com uma névoa a imagem das caixas de trabalhos no chão da Embaixada, obras que nunca viriam à tona. Também grava, em placa de bronze,  em italiano, o título de uma reportagem publicada em Roma, único registro escrito da censura sofrida por Lina: “L´arte dei poveri fa paura ai generali”.  A arte dos pobres assusta aos generais parece uma frase bastante atual, especialmente se, corrompendo um pouco a tradução original, chegamos a “A arte dos pobres assusta geral”. Do carnaval à pintura de Beariz Milhazes ou Adriana Varejão, ainda causa horror a certas cabeças, supostamente pensantes, qualquer tipo de trabalho que enfrente e espelhe a identidade brasileira com destemor. Ainda padecemos do que Nelson Rodrigues chamou de “Complexo de vira-latas”. Grilo enfrenta o espelho sem medo.

O que desestrutura, no melhor dos sentidos, em Eu quero ver, é a sensação de que se está indo ao encontro do outro, de algo que não nos pertence. Ao longo da viagem, este outro se revela um, incorpora em nós, passa a fazer parte.  Talvez por isso o urubu, voando no alto da escada encantada da galeria (a luz faz com que os degraus virem asas, projetados na parede), seja uma imagem-síntese, não apenas da exposição, mas do caminho que o artista fez até ela. Grilo criou este Estudo para movimentos circulares ao conhecer a história do feiticeiro José de Belchior (ou José do Brechó), que se transformaria em urubu todas as noites, para voar até a África e matar as saudades de casa. Urubus são pássaros que se alimentam de carniça, algo que já não é vivo, mas ainda não está totalmente morto – matéria em transe. Ao comer desta carne transitória, o urubu dá a ela, em seu corpo, novas possibilidades de vida e de voo. Não é isso que Ivan Grilo tem feito nos últimos anos?

Nesta exposição, mais do que em qualquer outra, o artista nos mostra que sua obra engole aqueles que estão invisíveis, para então lhes emprestar o corpo e a voz.  Eu quero ver.

Foto Daniela Name

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